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Devido à falta de evidências robustas, ainda não está claro quais são os benefícios e os riscos de adicionar quimioterapia diretamente na cavidade abdominal (quimioterapia intraperitoneal, ou IPC) para o tratamento do câncer de estômago.
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A combinação de QIP com cirurgia pode ajudar pessoas com câncer de estômago a viverem mais tempo, tanto aquelas com alto risco de disseminação do câncer quanto aquelas com disseminação confirmada para o abdômen. A QIP pode ter pouco ou nenhum efeito em complicações específicas, como vazamento na região onde o estômago é reconectado após a cirurgia (vazamento anastomótico). No entanto, temos muita incerteza quanto a esses resultados, e os desfechos sobre segurança e bem-estar são mal relatados.
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São necessárias mais pesquisas de alta qualidade, especialmente em países fora da Ásia, para entender melhor a eficácia e a segurança da QIP.
O que é o câncer gástrico com metástase peritoneal e como ele pode ser tratado?
O câncer de estômago (câncer gástrico) é um dos tipos de câncer mais comuns no mundo. Quando diagnosticamos precocemente e ele está restrito ao estômago, tratamos com cirurgia para remover completamente o tumor (cirurgia radical).
Às vezes, o câncer de estômago se espalha para a cavidade abdominal, o que causa uma condição chamada metástase peritoneal. Esse quadro é difícil de tratar, e a cirurgia não consegue remover todo o câncer. Nesses casos, o tratamento depende principalmente da quimioterapia. Em situações selecionadas, podemos realizar uma cirurgia para reduzir a quantidade de tumor (cirurgia citorredutora).
A quimioterapia padrão, administrada pela veia (quimioterapia sistêmica), não alcança bem a cavidade abdominal. Por isso, médicos passaram a investigar o uso de quimioterapia diretamente no abdome (quimioterapia intraperitoneal, ou QIP). Estudos iniciais substituíram a quimioterapia padrão pela QIP. Já estudos mais recentes adicionaram a QIP ao tratamento habitual. No entanto, ainda não sabemos se a QIP traz mais benefícios ou riscos. São necessárias mais estudos para orientar as decisões de tratamento.
O que queríamos descobrir?
Queríamos descobrir se a QIP pode ajudar pessoas com câncer gástrico ao:
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melhorar a sobrevida;
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retardar a piora do câncer, como recorrência ou progressão; e
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melhorar o bem-estar.
Também avaliamos se a QIP pode causar problemas, como:
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efeitos prejudiciais, incluindo os graves;
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complicações como vazamento no local onde o estômago é reconectado após a cirurgia (deiscência da anastomose) ou infecção abdominal grave (abscesso abdominal).
Analisamos dois usos diferentes da QIP junto com a quimioterapia sistêmica, considerando o estágio do câncer e o tipo de cirurgia:
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QIP profilática: uso de QIP junto com cirurgia radical em pessoas com alto risco de metástase peritoneal.
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QIP terapêutica: uso de QIP junto com cirurgia citorredutora em pessoas com metástase peritoneal confirmada.
O que fizemos?
Buscamos estudos que compararam o uso de IPC com a ausência de IPC em pessoas submetidas à cirurgia para câncer de estômago. Em seguida, resumimos os resultados e avaliamos nosso grau de confiança nas evidências, considerando o desenho dos estudos, o tamanho das amostras e a qualidade dos relatos.
O que encontramos?
Encontramos nove estudos com 829 participantes, a maioria realizada na China. Sete estudos (656 pessoas) avaliaram a QIP profilática, e dois estudos (173 pessoas) avaliaram a QIP terapêutica. O tempo de seguimento variou de 0,2 a 83,5 meses. Cinco estudos receberam financiamento.
Temos muita incerteza em relação a todos os resultados devido à limitação das evidências.
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QIP profilática comparada à ausência de QIP
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A QIP pode ajudar as pessoas a viver mais (6 estudos, 522 pessoas).
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A QIP pode ter pouco ou nenhum efeito na prevenção da recorrência do câncer (1 estudo, 134 pessoas).
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A QIP pode ter pouco ou nenhum efeito na deiscência da anastomose (4 estudos, 366 pessoas) ou no abscesso abdominal (1 estudo, 105 pessoas).
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Nenhum estudo relatou efeitos prejudiciais graves, bem-estar ou total de efeitos colaterais.
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QIP terapêutica comparada à ausência de IPC
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A QIP pode ajudar as pessoas a viver mais (2 estudos, 173 pessoas).
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A QIP pode ter pouco ou nenhum efeito no risco de efeitos prejudiciais graves ou na deiscência da anastomose (1 estudo, 68 pessoas).
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Um estudo sugere que a QIP pode retardar a progressão do câncer (1 estudo, 105 pessoas).
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A QIP pode ter pouco ou nenhum efeito sobre o bem-estar (1 estudo, unclear number of people).
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Nenhum estudo relatou infecções abdominais ou o total de efeitos colaterais.
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Quais são as limitações das evidências?
Nossa confiança nos resultados é limitada porque muitos estudos apresentam falhas metodológicas, amostras pequenas e poucos eventos relatados. Além disso, a maioria dos estudos não informou os principais desfechos de interesse. Esses resultados provavelmente não refletem todos os estudos realizados nessa área, já que alguns ainda não divulgaram seus resultados.
Até quando as evidências incluídas estão atualizadas?
As evidências estão atualizadas até 12 de junho de 2025.
Ler o resumo científico
Objetivos
Avaliar os benefícios e os riscos da QIP no câncer gástrico para: (1) QIP profilática associada à cirurgia radical versus cirurgia radical isolada em pessoas com alto risco de metástase peritoneal; e (2) QIP terapêutica associada à cirurgia citorredutora (CRS) versus CRS isolada em pessoas com metástase peritoneal confirmada.
Métodos de busca
Realizamos buscas nas bases CENTRAL, MEDLINE, Embase, duas bases de dados chinesas, três registros de ensaios clínicos e fontes de literatura cinzenta. Além disso, verificamos referências e entramos em contato com autores dos estudos. A última busca foi realizada em 12 de junho de 2025.
Conclusão dos autores
As evidências atuais sobre a QIP são limitadas. As evidências de muito baixa certeza sugerem que a QIP profilática e terapêutica (principalmente HIPEC) pode melhorar a sobrevida e pode ter pouco ou nenhum efeito sobre a fístula anastomótica. A QIP profilática pode ter pouco ou nenhum efeito na recorrência tumoral e no abscesso intra-abdominal. A QIP terapêutica pode ter pouco ou nenhum efeito sobre eventos adversos graves; evidências limitadas indicam que a QIP pode retardar a progressão tumoral e pode fazer pouca ou nenhuma diferença na qualidade de vida (QV). Esses resultados são altamente incertos e exigem interpretação cautelosa. Portanto, não é possível tirar conclusões definitivas nem definir implicações específicas para o uso rotineiro da QIP em pessoas com câncer gástrico com base nas evidências atuais.
São necessários novos ensaios clínicos randomizados (ECRs) de alta qualidade e com seguimento de longo prazo, especialmente em populações não asiáticas, além de dados mais abrangentes sobre segurança e qualidade de vida. Além disso, um número considerável de estudos ainda está em andamento, o que significa que as estimativas de efeito e as conclusões podem mudar quando esses resultados estiverem disponíveis.
Financiamento
Esta revisão Cochrane foi financiada (em parte) pela National Natural Science Foundation of China (No. 82472926), pelo Departamento de Ciência e Tecnologia da Província de Sichuan (2023YFS0060; 23ZDYF2812), pelo Projeto 1.3.5 para Disciplinas de Excelência do West China Hospital, Sichuan University (ZYJC21006; 2023HXFH005), e pelo fundo de pesquisa de pós-doutorado do West China Hospital, Sichuan University (2025HXBH063).
Registro do protocolo
Protocolo (2009) disponível em doi.org/10.1002/14651858.CD008157
Protocolo atualizado (2023) disponível em doi.org/10.1002/14651858.CD015698
Tradução do Cochrane Brazil (Elayne Rayane Diniz Melo e André Silva de Sousa). Contato: tradutores.cochrane.br@gmail.com