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A drenagem abdominal (peritoneal) pode não ser melhor do que a cirurgia abdominal (laparotomia) no tratamento de bebés prematuros com muito baixo peso à nascença que desenvolvem inflamação grave ou buracos nos intestinos.
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Muitos bebés prematuros que inicialmente são submetidos a drenagem abdominal acabam, ainda assim, por necessitar de cirurgia abdominal.
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Bebés prematuros submetidos a drenagem abdominal parecem ter um risco mais elevado de desenvolver paralisia cerebral quando comparados com os que são submetidos a cirurgia abdominal.
O que são problemas intestinais?
Os intestinos permitem-nos digerir os alimentos e absorver os nutrientes. Depois de os alimentos serem digeridos e os nutrientes absorvidos, os intestinos ajudam o corpo a eliminar aquilo de que já não precisa (através das fezes). Os problemas intestinais nos bebés prematuros incluem a enterocolite necrotizante e a perfuração intestinal espontânea. A enterocolite necrotizante é uma doença em que os intestinos ficam inflamados e, por vezes, desenvolvem buracos. Na perfuração intestinal espontânea, os intestinos também desenvolvem orifícios, mas sem estarem inflamados.
Como são tratadas a enterocolite necrotizante e as perfurações intestinais?
Uma forma de os tratar é através de laparotomia (uma incisão cirúrgica no abdómen), com o objetivo de remover partes não saudáveis ou mortas do intestino. Após a remoção das partes do intestino que estão mortas ou danificadas, o intestino tende a cicatrizar e a recuperar a sua saúde.
Outro tratamento consiste em colocar um dreno no abdómen (drenagem peritoneal) para remover o ar e o líquido que se acumulam devido à enterocolite necrotizante ou a uma perfuração intestinal espontânea. Quando o ar e o líquido são drenados da cavidade abdominal, espera-se que o intestino cicatrize e que os orifícios fechem espontaneamente.
Porque é que é importante tratar a enterocolite necrotizante cirúrgica ou a perfuração intestinal espontânea?
Qualquer uma destas condições coloca o bebé em perigo, porque permite que micróbios passem do intestino para a cavidade abdominal e para a corrente sanguínea, podendo causar uma infeção grave. Podem também reduzir significativamente a capacidade dos intestinos para digerir e absorver os nutrientes do leite.
O que pretendíamos descobrir?
O nosso objetivo foi saber qual dos tratamentos, drenagem peritoneal ou laparotomia, era mais eficaz na redução de complicações em bebés prematuros (nascidos antes das 37 semanas) com muito baixo peso (menos de 1500 g) e com enterocolite necrotizante ou uma perfuração espontânea do intestino. Queríamos perceber se estes bebés apresentavam resultados negativos quando atingiam os 18 a 24 meses de vida. Os resultados negativos incluíram:
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perturbações globais do neurodesenvolvimento (dificuldades de aprendizagem, paralisia cerebral, perturbações motoras (dificuldades de coordenação física), perda visual ou auditiva);
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deficiências específicas do neurodesenvolvimento (mentais ou físicas);
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a necessidade de uma cirurgia posterior (laparotomia);
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Morte
Também queríamos saber se os bebés tinham mais probabilidades de falecer antes da alta hospitalar.
O que fizemos?
Procurámos estudos que comparassem a drenagem peritoneal com a laparotomia em bebés prematuros com peso ao nascer inferior a 1.500 g, para perceber se um destes procedimentos resultava em menos desfechos negativos. Resumimos os resultados dos estudos e avaliámos a nossa confiança na evidência com base em fatores como os métodos utilizados e o número de bebés incluídos.
O que descobrimos?
Encontrámos três estudos que incluíram 496 bebés. Todos os estudos incluíram bebés com, ou com sintomas de, enterocolite necrotizante com perfuração ou perfuração intestinal espontânea. Todos os estudos compararam a drenagem peritoneal com a laparotomia.
Resultados principais
Em bebés que receberam tratamento para enterocolite necrotizante cirúrgica ou perfuração intestinal espontânea, a drenagem peritoneal foi comparada com a laparotomia:
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provavelmente resulta em pouca ou nenhuma diferença na mortalidade (1 estudo, 308 bebés) ou nas limitações do desenvolvimento entre os sobreviventes (1 estudo, 206 bebés) aos 18 a 24 meses de idade.
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resulta provavelmente num aumento do diagnóstico de paralisia cerebral moderada a grave (1 estudo, 210 bebés);
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provavelmente resulta em pouca ou nenhuma diferença na mortalidade antes da alta (2 estudos, 378 bebés);
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os bebés do grupo da drenagem peritoneal têm maior probabilidade de necessitar de uma laparotomia subsequente durante o primeiro internamento.
Quais são as limitações da evidência?
Encontrámos apenas três estudos e o número de bebés estudados era reduzido. Por isso, a nossa confiança nestes resultados foi moderada.
Quão atualizada se encontra esta evidência?
Procurámos estudos até 17 de dezembro de 2024.
Traduzido por: Patrícia Lipari Pinto, Serviço de Pediatria Médica, Unidade Local de Saúde de Santa Maria, Lisboa, Portugal. Revisão final: Ricardo Manuel Delgado, Knowledge Translation Team, Cochrane Portugal.