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Em pessoas com tensão arterial ligeiramente elevada, mas que não sofrem de doenças cardiovasculares (por exemplo, ataques cardíacos) ou outros riscos de saúde relacionados (por exemplo, diabetes), os medicamentos para baixar a tensão arterial podem não reduzir o risco de morte ou o risco de desenvolver doenças cardiovasculares (coração e vasos sanguíneos) graves.
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Os medicamentos para baixar a tensão arterial podem reduzir o risco de AVC, mas também podem aumentar o risco de efeitos indesejáveis que resultam na suspensão do estudo.
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É necessária investigação adicional para compreender os efeitos dos medicamentos para baixar a tensão arterial em pessoas com tensão arterial ligeiramente elevada sem doença cardiovascular ou outros riscos relacionados com a saúde (por exemplo, diabetes).
O que é a hipertensão?
A hipertensão é a pressão arterial consistentemente elevada.
Como é que a hipertensão é tratada?
Dependendo da gravidade da hipertensão de um indivíduo e de outras condições médicas que possa ter, a hipertensão pode ser tratada com um estilo de vida saudável, incluindo dieta e atividade física regular. Também é frequente serem prescritos medicamentos.
O que pretendíamos descobrir?
Queríamos saber os benefícios e os riscos dos medicamentos que baixam a tensão arterial prescritos a pessoas com hipertensão ligeira (tensão arterial sistólica 140 a 159 mmHg, tensão arterial diastólica 90 a 99 mmHg) e que não sofriam de doenças cardiovasculares (coração e vasos sanguíneos) graves ou de outros riscos de saúde relacionados.
O que fizemos?
Procurámos estudos sobre medicamentos para baixar a tensão arterial em pessoas com hipertensão ligeira para saber se estes reduzem o risco de morte e de doenças cardiovasculares graves (incluindo acidentes vasculares cerebrais e ataques cardíacos). Também analisámos o risco de efeitos indesejáveis. Comparámos e resumimos os resultados dos estudos e classificámos a nossa confiança na evidência com base em fatores como a metodologia e o tamanho dos estudos.
O que descobrimos?
Incluímos cinco estudos que envolveram um total de 9.124 pessoas, 4.593 que receberam medicamentos para baixar a pressão arterial e 4.531 que receberam placebo (tratamento simulado) ou nenhum tratamento. Descobrimos que os medicamentos podem não reduzir o risco de morte ou de doenças cardiovasculares graves. Os medicamentos para baixar a tensão arterial podem reduzir o risco de AVC, mas também podem aumentar o risco de efeitos indesejáveis que resultam na suspensão do estudo.
Principais resultados
O benefício de um menor risco de AVC com medicamentos para a tensão arterial em pessoas com hipertensão ligeira e sem outras doenças cardíacas ou condições que aumentem o risco de doenças cardiovasculares tem de ser ponderado em relação aos efeitos indesejáveis destes medicamentos.
Quais são as limitações da evidência?
Temos pouca confiança na evidência porque os estudos não abrangeram todas as pessoas em que estávamos interessados; os estudos eram muito pequenos; e não havia estudos suficientes para ter a certeza sobre os resultados. Um dos estudos que demonstrou uma redução do risco de AVC foi realizado em pessoas com doença renal, pelo que pode não ser aplicável a todas as pessoas com hipertensão ligeira. Apenas um estudo relatou efeitos indesejáveis dos medicamentos.
Quão atualizada se encontra a evidência?
A evidência encontra-se atualizada até junho de 2024.
Ler o resumo científico
As pessoas sem eventos cardiovasculares anteriores ou doenças cardiovasculares constituem a população alvo para a prevenção primária. Na atualidade, não se sabe quais são os benefícios e os prejuízos de se tratar a hipertensão leve nessa população. Esta revisão analisa as evidências existentes a partir de ensaios clínicos randomizados.
Objetivos
Objetivo primário: quantificar os efeitos do tratamento medicamentosa anti-hipertensivo na mortalidade e morbidade em adultos com hipertensão leve (sistólica entre140-159 mmHg e/ou diastólica entre 90-99 mmHg) e sem doença cardiovascular.
Métodos de busca
Fizemos buscas nas seguintes bases de dados: CENTRAL (2013, número 9), MEDLINE (1946 a outubro de 2013) e EMBASE (1974 até outubro de 2013) e ClinicalTrials.gov (até outubro de 2013). A busca foi complementada pela avaliação das listas de referência dos artigos. Buscamos também nas bases The Cochrane Database of Systematic Reviews e Database of Abstracts of Reviews of Effectiveness (DARE) por revisões sistemáticas e metanálises sobre uso de anti-hipertensivos em comparação com placebo ou nenhum tratamento até o final de 2011.
Critério de seleção
Incluímos ensaios clínicos randomizados com duração de pelo menos um ano.
Coleta dos dados e análises
Os desfechos avaliados foram: mortalidade, acidente vascular cerebral, doença coronariana, total de eventos cardiovasculares e abandonos de tratamento devido a efeitos adversos.
Principais resultados
Dos 11 ensaios clínicos randomizados identificados, 4 (com 8.912 participantes) foram incluídos nesta revisão. O tratamento com drogas anti-hipertensivas por 4 a 5 anos não reduziu a mortalidade total, quando comparado com o placebo (risco relativo, RR, de 0,85, com intervalo de confiança de 95%, 95% CI, de 0,63 a 1,15). Em estudos envolvendo 7.080 participantes, o tratamento com drogas anti-hipertensivas, em comparação com o placebo, não reduziu a doença cardíaca coronariana (RR 1,12, 95% CI 0,80 a 1,57), o acidente vascular cerebral (RR 0,51, 95% CI 0,24 a 1.08), ou o total de eventos cardiovasculares (RR 0,97, 95% CI 0,72 a 1,32). O grupo que usou terapia medicamentosa teve maior taxa de abandono do tratamento devido à presença de efeitos adversos (RR 4,80, 95% CI 4,14 a 5,57), com aumento do risco absoluto de 9%.
Conclusão dos autores
Segundo os resultados de ensaios clínicos randomizados, o tratamento de adultos (prevenção primária) com hipertensão leve (sistólica entre 140-159 mmHg e/ou diastólica de 90-99 mmHg) não reduziu a mortalidade ou morbidade. Os efeitos adversos fizeram com que 9% dos pacientes interrompessem o tratamento. Mais ensaios clínicos randomizados são necessários nesta população para se saber se os benefícios do tratamento superam os danos.
Traduzido por: João Cruz Araújo, Unidade de Saúde Familiar São Salvador, Unidade Local de Saúde de Braga. Revisão final: Ricardo Manuel Delgado, Knowledge Translation Team, Cochrane Portugal.