Mensagens principais
-
Os "fatores prognósticos" são características de uma pessoa que podem ser usadas para prever se a doença dessa pessoa irá piorar e com que rapidez. O agravamento ou deterioração da saúde também é conhecido como progressão da doença.
-
Constatamos que os seguintes fatores foram importantes para prever a progressão do glaucoma: (1) a presença de pequenos sangramentos e fluxo sanguíneo deficiente para a retina e parte posterior do olho, (2) estruturas celulares anormais, (3) ter glaucoma em ambos os olhos e (4) receber tratamento para glaucoma.
-
Não tínhamos certeza da força da relação preditiva porque a maioria dos estudos identificados era de baixa qualidade e chegou a conclusões diferentes.
O que é glaucoma?
O glaucoma é uma doença crônica do nervo óptico – o nervo que leva informações da parte posterior do olho para o cérebro. O glaucoma é uma das principais causas de cegueira no mundo e precisa ser tratado por médicos especialistas. Pessoas com glaucoma não apresentam sintomas no estágio inicial. O tratamento para o glaucoma é eficaz para interromper ou retardar o agravamento da doença.
O tipo mais comum de glaucoma é chamado de glaucoma primário de ângulo aberto. Outro tipo de glaucoma, o glaucoma pseudoexfoliativo, pode progredir mais rapidamente para um estágio grave da doença. Ambos os tipos foram incluídos nesta análise.
O que queríamos descobrir?
Queríamos descobrir quais características pessoais estão associadas ao agravamento (progressão) do glaucoma. Compreender quais fatores afetam a progressão mais rápida do glaucoma e são úteis para identificar aqueles com maior risco de perda de visão. Isso ajuda os oftalmologistas a identificar precocemente aqueles que correm o risco de perder a visão e auxilia na condução do tratamento e na tomada de decisões sobre as melhores opções terapêuticas.
O que nós fizemos?
Analisamos diferentes tipos de estudos para identificar os fatores que estão relacionados à progressão do glaucoma. Como o glaucoma é uma doença crônica, incluímos estudos que avaliaram os participantes por pelo menos dois anos. Exigimos também que os estudos incluíssem adultos (com 18 anos ou mais) com um mínimo de 200 participantes para captar eventos de progressão suficientes. Avaliamos criticamente a qualidade dos estudos e combinamos estatisticamente as estimativas dos estudos seguindo métodos padrão.
O que nós encontramos?
Identificamos 16.188 publicações e recuperamos os relatos completos de 239 estudos para avaliação posterior. Após analisarmos os relatos completos, incluímos 123 relatos de 22 estudos (6.082 participantes) nesta revisão. A idade média dos participantes nesses estudos variou entre 50 e 78 anos. Identificamos 40 fatores com estimativas de associação com a progressão do glaucoma nos estudos incluídos. Desses 40, a maioria apresentou evidência inconsistente e de baixa certeza quanto à associação. Relatamos três fatores prognósticos com evidência consistentes, de certeza muito baixa a moderada, de associação positiva ou negativa com a progressão da doença — estes incluíram a presença de pequeno sangramento na parte posterior do olho, glaucoma em ambos os olhos e recebimento de tratamento para glaucoma. Embora estudos anteriores tenham demonstrado que a pressão intraocular, a espessura da superfície transparente anterior do olho, a idade, o sexo feminino, a hipertensão arterial, a enxaqueca, problemas de circulação sanguínea e vasculares e problemas cardíacos estavam associados a uma piora mais rápida do glaucoma, não encontramos evidência consistentes dessas associações em nossa revisão.
Quais são as limitações das evidências?
A maioria (86%) dos estudos incluídos apresentava baixa qualidade. Constatamos muita variação nas formas como os fatores prognósticos foram definidos e avaliados para os participantes, bem como na forma como os desfechos foram definidos, mensurados e incluídos na análise. Isso significava que não conseguímos combinar estimativas para a maioria das características e estávamos limitados a descrever qualitativamente a maior parte das evidência.
Conclusões dos autores
Em nossa revisão, identificamos diversos fatores associados à piora mais rápida do glaucoma e algumas evidências de que o tratamento ajuda a retardar essa progressão, embora não tenhamos certeza absoluta dessas conclusões. Não encontramos evidência convincentes de outros fatores conhecidos, como hipertensão arterial, que poderiam estar associados ao agravamento da doença. Propomos a realização de mais estudos de pesquisa de boa qualidade sobre este tema no futuro, a fim de reunir mais e melhores dados que sejam úteis para prevenir a cegueira causada pelo glaucoma.
Quão atualizadas são essas descobertas?
Realizamos buscas e identificamos estudos publicados até 15 de agosto de 2024.
Ler o resumo científico
O glaucoma é a principal causa de cegueira irreversível em todo o mundo e a segunda principal causa de cegueira em países de alta renda. É uma doença crônica do nervo óptico que pode levar à perda da visão, embora geralmente seja assintomática até progredir (piorar) para um estágio avançado. O glaucoma primário de ângulo aberto (GPAA) é o tipo mais comum de glaucoma e é reconhecido como uma doença multifatorial. O glaucoma pseudoexfoliativo (PXFG) é uma forma comum de glaucoma secundário de ângulo aberto e apresenta uma taxa de progressão mais elevada. A compreensão dos fatores prognósticos é útil para os médicos estimarem o risco de progressão da doença e identificarem precocemente aqueles que correm o risco de perder a visão.
Objetivos
Identificar os fatores de risco associados à progressão da doença, definida como piora ou deterioração dos desfechos visuais funcionais e/ou estruturais, em adultos com GPAA e GPX.
Métodos de busca
Realizamos buscas nas bases de dados CENTRAL, Ovid MEDLINE, Ovid Embase e em dois registros de estudo em 15 de agosto de 2024. A pesquisa foi complementada pela verificação das listas de referências dos artigos elegíveis. Não aplicamos quaisquer restrições quanto ao idioma ou ano de publicação.
Critério de seleção
Incluímos ensaios clínicos randomizados, estudos de coorte e estudos de caso-controle. Excluímos qualquer estudo com menos de dois anos de acompanhamento e um tamanho de amostra inferior a 200. A população-alvo consistia em adultos com idade ≥ 18 anos, de qualquer sexo, com glaucoma de tipo restrito a GPAA, glaucoma de tensão normal (GTN) e GPX, sem cirurgia prévia de glaucoma. Dois autores da revisão analisaram independentemente os títulos, resumos e artigos completos para determinar a elegibilidade. As discrepâncias foram resolvidas por meio de discussão com um terceiro revisor. Os momentos de avaliação dos desfechos foram definidos após um período mínimo de acompanhamento de dois anos.
Coleta dos dados e análises
Dois autores da revisão extraíram independentemente os dados dos estudos incluídos, utilizando formulários de extração de dados pré-testados no Covidence, SRDR+ e Microsoft Excel. Utilizamos a ferramenta QUIPS (Quality in Prognosis Studies) para avaliar o risco de viés no Covidence. Realizamos meta-análises onde foram relatados desfechos homogêneos, utilizando um modelo genérico de variância inversa com efeitos randômicos. Apresentamos os dados em hazard ratio (HR), odds ratio (OR) e risco relativo (RR) separadamente para cada fator prognóstico e desfecho disponível, estratificadas por diferentes pontos de tempo e estimativas prognósticas multivariáveis ou univariáveis, quando possível. Avaliamos e relatamos a certeza das evidências utilizando a abordagem GRADE.
Principais resultados
Verificamos 16.188 títulos e resumos e recuperamos 487 relatos de texto completo de 239 estudos para avaliação. Após a triagem dos textos completos, incluímos 123 relatos de 22 estudos nesta revisão. Os 22 estudos incluíram 6.082 participantes. A média de idade dos participantes variou de 50 a 78 anos nos diferentes estudos. Dezesseis dos estudos incluídos utilizaram apenas a deterioração do campo visual para detectar e medir a progressão do glaucoma. Em seis estudos, a progressão da doença foi avaliada por meio de desfechos funcionais e estruturais (por exemplo, alterações na espessura da camada de fibras nervosas da retina por tomografia de coerência óptica de domínio espectral). Consideramos que 19 dos 22 estudos incluídos (86%) apresentavam alto risco de viés no geral.
Constatamos que alguns fatores prognósticos apresentaram evidências consistentes de relação com a progressão da doença. Especificamente, a presença de hemorragia do disco óptico [HR ajustado 2,03, intervalo de confiança (IC) 95% 1,55 a 2,67, 1.068 participantes, 3 estudos; HR não ajustado 1,51, IC 95% 1,12 a 2,02, 961 participantes, 3 estudos; baixa certeza da evidência], a presença de doença bilateral (HR ajustado 1,77, IC 95% 1,35 a 2,32, 771 participantes, 2 estudos; moderada certeza da evidência) e o tratamento para glaucoma (HR ajustado 0,44, IC 95% 0,31 a 0,61, 961 participantes, 3 estudos; HR não ajustado 0,56, IC 95% 0,44 a 0,72, 771 participantes, 2 estudos; baixa certeza da evidência).
Os fatores restantes apresentaram evidências mistas quanto às suas associações prognósticas com a progressão do glaucoma, incluindo alguns fatores em que se esperava serem importantes com base em outros estudos. Com relação à pressão intraocular basal, nossa meta-análise de HR apresentou evidência suficientes de um efeito (HR ajustada de 1,08, IC 95% de 1,03 a 1,13, 913 participantes, 3 estudos, baixa certeza da evidência), enquanto a OR não apresentou evidências suficientes (OR ajustada de 0,96, IC 95% de 0,84 a 1,10, 458 participantes, 2 estudos, baixa certeza da evidência), e mais da metade dos estudos que relataram a pressão intraocular não encontraram evidência de um efeito. Da mesma forma, o HR ajustado agrupado por aumento de 1 ano na idade basal foi de 1,01 ( IC 95% 0,97 a 1,05; 865 participantes, 4 estudos) com muito baixa certeza da evidência, e os estudos apresentaram resultados mistos quanto à sua associação com a progressão da doença. Em relação ao sexo, as análises ajustadas combinadas de dois estudos sugerem que as mulheres podem ter um risco 64% maior de progressão da doença do que os homens (HR 1,64, IC 95% 1,15 a 2,34; 961, 3 estudos; baixa certeza da evidência). No entanto, outras estimativas de estudos para os sexos que não puderam ser combinados apresentaram resultados mistos em relação à direção do efeito.
Não encontramos evidências consistentes que sugiram que a espessura corneana central (HR ajustado 1,13, IC 95% 0,85 a 1,51, 425 participantes, 2 estudos; HR não ajustado 1,00, IC 95% 1,00 a 1,00, 706 participantes, 2 estudos, muito baixa certeza da evidência), hipertensão sistêmica (HR ajustado 1,33, IC 95% 0,68 a 2,60, 731 participantes, 3 estudos; HR não ajustado 0,89, IC 95% 0,67 a 1,17, 771 participantes, 2 estudos; muito baixa certeza da evidência), doença cardiovascular (HR ajustado 1,06, IC 95% 0,75 a 1,49, 771 participantes, 2 estudos; baixa certeza da evidência) e enxaqueca (HR não ajustado 1,06, IC 95% 0.75 a 1.49, 961 participantes, 3 estudos, muito baixa certeza da evidência) ou síndrome de Raynaud (HR não ajustado 1,21, IC 95% 0,85 a 1,73, 961 participantes, 3 estudos; muito baixa certeza da evidência) tem efeito na progressão do campo visual.
Conclusão dos autores
Há evidência de certeza moderada que apoiam a descoberta de que a doença bilateral é um fator prognóstico associado à progressão do campo visual em pessoas com glaucoma. Há evidência de baixa certeza de que o sexo feminino e a presença de hemorragia discal estão associados à progressão da doença, enquanto o tratamento farmacológico oferece proteção contra essa progressão. As evidência são incertas quanto às associações entre a progressão da doença e todos os outros fatores prognósticos que identificamos. Estudos de pesquisa sobre fatores prognósticos, devidamente delineados, são necessários no futuro.
Financiamento
NIH (NEI: UG1EY020522), USA; HRB, Ireland; HSC PHA (CBES-2018-001), Ireland
Registro do protocolo
Protocolo disponível em doi.org/10.1002/14651858.CD015436
Tradução do Cochrane Brazil (Aléxia Gabriela da Silva Vieira). Contato: tradutores.cochrane.br@gmail.com
Esta revisão Cochrane foi originalmente criada em inglês. A responsabilidade pela precisão da tradução é da equipe de tradução que a produziu. A tradução de revisões é realizada com cuidado e segue processos padronizados para garantir o controle de qualidade. No entanto, em caso de divergências, traduções imprecisas ou inadequadas, prevalece a versão original em inglês.