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Em comparação com as referências anatómicas, a utilização da técnica ecoguiada para a anestesia do neuroeixo em adultos reduz o número de tentativas até ao sucesso e o tempo do procedimento (tempo de punção). O sucesso é definido através do número de vezes que a agulha avança após um movimento para trás, ou através do número de vezes que perfura a pele.
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A técnica ecoguiada provavelmente aumenta a taxa de sucesso na primeira tentativa.
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A técnica ecoguiada pode fazer pouca ou nenhuma diferença na satisfação do participante ou na falha técnica. A falha técnica pode incluir a necessidade de mudar para anestesia geral, ou a necessidade de interromper o procedimento para repetir anestesia do neuroeixo, ou a pessoa não ter experimentado o efeito anestésico pretendido.
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Não sabemos se a técnica ecoguiada tem impacto na dor durante os procedimentos ou nos eventos adversos.
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A técnica ecoguiada na anestesia do neuroeixo provavelmente tem alguns benefícios, mas ainda há incertezas.
O que é a anestesia do neuroeixo?
A anestesia do neuroeixo é realizada através da injeção de um anestésico local nos espaços que rodeiam a medula espinal, normalmente o espaço intratecal ou epidural, ou uma combinação dos dois. É uma técnica comum para anestesiar uma área específica do corpo, utilizada principalmente em cirurgias ou durante o parto. Na anestesia do neuroeixo o médico coloca uma agulha entre as vértebras (ossos da coluna). Quando o médico encontra o local certo, pode injetar o anestésico diretamente ou colocar um tubo fino, chamado cateter, no espaço, através do qual pode injetar o anestésico. Uma anestesia do neuroeixo bem sucedida, com o menor número possível de tentativas, é importante para reduzir as complicações.
O que é a ecografia e como pode funcionar?
A ecografia utiliza ondas sonoras de alta frequência para criar imagens do interior do corpo. O médico utiliza um dispositivo portátil, chamado sonda, para enviar ondas de ultra-sons para o corpo e criar imagens. A anestesia do neuroeixo convencional é realizada utilizando referências anatómicas específicas do corpo como guia. Por vezes a agulha não atinge o espaço pretendido, porque a posição anatómica que o médico pensou ter encontrado ao tocar na zona pode estar um pouco afastada da posição real. A ecografia permite ao médico ver a anatomia local de interesse e o tamanho de estruturas importantes, ajudando-o a determinar a profundidade e a direção em que deve inserir a agulha.
São normalmente utilizados dois métodos por ecografia. No primeiro, a ecografia é utilizada antes da inserção da agulha - pré-procedimento. O segundo é designada por tempo real, o que significa que a agulha é inserida primeiro e depois movida para o local correto enquanto se observam as imagens de ecografia.
O que pretendíamos descobrir?
Queríamos descobrir se era melhor usar ecografia ou referências anatómicas para guiar a agulha na anestesia do neuroeixo em adultos. Também queríamos descobrir se a técnica ecoguiada conduzia a efeitos indesejáveis semelhantes aos da técnica por referências anatómicas.
O que fizemos?
Procurámos por estudos que investigaram a técnica ecoguiada em comparação com referências anatómicas para anestesia do neuroeixo em adultos. Comparámos e resumimos os resultados dos estudos, classificando a nossa confiança na evidência com base em fatores como os métodos e a dimensão dos estudos.
O que descobrimos?
Encontrámos 65 estudos com 6.823 pessoas. Os estudos foram realizados em África, na Ásia, na Europa, no Médio Oriente, na América do Norte e na Oceânia. Quatro estudos avaliaram a ecografia em tempo real como intervenção.
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Em comparação com as referência anatómicas, a técnica ecoguiada reduz o número de tentativas necessárias para a colocação bem sucedida da agulha numa média de 0,41 tentativas por pessoa e reduz o tempo do procedimento (tempo de punção) numa média de 34 segundos.
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A técnica ecoguiada provavelmente aumenta a taxa de sucesso na primeira tentativa: 778 pessoas em 1.000 experimentaram a primeira tentativa bem sucedida com a técnica ecoguiada, em comparação com 556 pessoas em 1.000 com a técnica por referências anatómicas.
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A técnica ecoguiada pode resultar em pouca ou nenhuma diferença na satisfação do participante ou na falha da técnica.
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A técnica ecoguiada pode ter pouco ou nenhum efeito na dor durante os procedimentos ou nos efeitos indesejáveis, embora estejamos muito incertos quanto a estes resultados.
Quais são as limitações da evidência?
Estamos moderadamente a altamente confiantes nos nossos resultados relativamente ao número de tentativas, à duração do procedimento e à taxa de sucesso da primeira tentativa.
Temos pouca confiança na evidência em relação a:
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Satisfação dos participantes, porque era difícil esconder quem recebia uma técnica ecoguiada. Os resultados foram muito inconsistentes entre os diferentes estudos.
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Falha da técnica, porque não havia estudos suficientes para ter a certeza dos resultados deste parâmetro.
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Dor durante o procedimento, porque era difícil esconder quem recebia a técnica ecoguiada. Os resultados foram muito inconsistentes entre os diferentes estudos, e os resultados incluíram tanto as pessoas que sentiram dor como as que não sentiram.
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Efeitos indesejados, porque era difícil esconder quem recebia uma técnica ecoguiada e porque não existiram estudos suficientes para ter a certeza dos resultados. Este resultado também deve ser interpretado com cautela, porque havia uma variedade de definições em cada estudo, como dor de costas ou dor de cabeça.
Quão atualizada se encontra a evidência?
A evidência científica está atualizada até novembro de 2023.
Traduzido por Beatriz Leal, Serviço de Anestesiologia, Instituto Português de Oncologia de Lisboa, Lisboa, Portugal. Revisão final: Ricardo Manuel Delgado, Knowledge Translation Team, Cochrane Portugal.