A quarentena isolada ou em combinação com outras medidas de saúde pública controla a COVID-2019?

Introdução

A COVID-2019 é uma doença causada por um novo vírus que se espalhou rapidamente pelo mundo. A COVID-19 se espalha facilmente entre pessoas que estão em contato próximo, ou através da tosse e dos espirros. A maioria das pessoas infectadas terá sintomas leves, semelhantes aos da gripe. Porém, algumas pessoas ficarão gravemente enfermas e podem até morrer.

Não existe tratamento ou vacina eficaz (um medicamento que impede as pessoas de contrair uma doença específica) para a COVID-19. Portanto, é preciso usar outras medidas para controlar a propagação dessa doença. A quarentena é uma das recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) para controlar a doença. Isto significa separar pessoas saudáveis de outras pessoas saudáveis que poderiam ter o vírus e que poderiam disseminá-lo. Outras recomendações similares incluem o isolamento (é como a quarentena, mas para pessoas com sintomas de COVID-19) e o distanciamento social (onde as pessoas sem sintomas mantêm-se fisicamente distantes umas das outras).

O que queríamos descobrir?

O objetivo dessa revisão foi saber se, e com que eficácia, a quarentena impede a propagação da COVID-19 e se ela evita mortes. Outro objetivo foi saber se a quarentena seria mais eficaz quando combinada com outras medidas, tais como o fechamento das escolas. Nós também queríamos saber qual seria o custo da quarentena.

Características do estudo

A COVID-19 está se espalhando rapidamente, por isso precisávamos responder a esta pergunta o mais rápido possível. Isto significa que encurtamos alguns passos do processo normal das revisões Cochrane. Porém, estamos confiantes de que estas mudanças não afetaram nossas conclusões gerais.

Procuramos por estudos que tivessem avaliado o efeito de qualquer tipo de quarentena, em qualquer lugar, sobre a propagação e a gravidade da COVID-19. Também procuramos por estudos que haviam avaliado a quarentena junto com outras medidas, tais como isolamento, distanciamento social, fechamento de escolas e higiene das mãos. A COVID-19 é uma nova doença, por isso, para encontrar o máximo de evidências possíveis, procuramos também por estudos sobre vírus semelhantes, como a SRAG (síndrome respiratória aguda grave) e a MERS (síndrome respiratória do Oriente Médio).

Os estudos mediram o número de casos de COVID-19, SRAG ou MERS, quantas pessoas foram infectadas, quão rapidamente o vírus se espalhou, quantas pessoas morreram, e os custos da quarentena.

Principais resultados

Incluímos 29 estudos. Desse total, 10 estudos eram sobre a COVID-19, 15 sobre a SRAG, 2 sobre a SRAG mais outros vírus, e 2 eram sobre a MERS. A maioria dos estudos combinou os dados existentes para criar um modelo (uma simulação) para prever como os eventos podem ocorrer ao longo do tempo, para pessoas em diferentes situações (chamados de estudos de modelagem). Os estudos da COVID-19 simularam surtos na China, Reino Unido, Coreia do Sul e no navio de cruzeiro Diamond Princess. Quatro estudos analisaram o efeito da quarentena em 178.122 pessoas envolvidas em surtos de SRAG e MERS (chamados estudos de "coorte"). Os outros estudos modelaram surtos de SRAG e de MERS.

Todos os estudos de modelagem constataram que medidas simuladas de quarentena reduzem o número de pessoas com doença, e reduzem o número de mortes. Com a quarentena, as estimativas mostraram uma redução mínima do número de pessoas com a doença de 44%, e uma redução máxima de 81%. Semelhantemente, com a quarentena, as estimativas mostraram uma redução mínima do número de mortes de 31%, e uma redução máxima de 63%. Combinar a quarentena com outras medidas, como o fechamento das escolas ou o distanciamento social, é mais eficaz para reduzir a propagação da COVID-19 do que apenas a quarentena. Os estudos da SRAG e MERS concordaram com os estudos da COVID-19.

Dois estudos de modelagem da SRAG avaliaram os custos. Eles descobriram que os custos eram menores quando as medidas de quarentena começaram mais cedo.

Não podemos estar completamente certos sobre a evidência que encontramos, por várias razões. Os estudos da COVID-19 basearam seus modelos em dados limitados e fizeram diferentes suposições sobre o vírus (por exemplo, a rapidez com que ele se espalharia). Os outros estudos investigaram a SARS e a MERS. Portanto, não podemos assumir que os resultados seriam os mesmos para a COVID-19.

Conclusão

Apesar das poucas evidências, os resultados de todos os estudos indicam que a quarentena é importante para reduzir o número de pessoas infectadas e o número de mortes. Os resultados mostraram que a quarentena foi mais eficaz, e custou menos, quando foi iniciada mais cedo. A combinação da quarentena com outras medidas de prevenção e controle teve um efeito maior do que apenas a quarentena.

Esta revisão inclui os estudos publicados até 12 de março de 2020.

Conclusão dos autores: 

As evidências atuais da COVID-19 limitam-se a estudos de modelagem que fazem suposições de parâmetros com base no conhecimento atual, que é fragmentado. Os resultados indicam consistentemente que a quarentena é importante para reduzir a incidência e a mortalidade durante a pandemia da COVID-19. A implementação precoce da quarentena e a combinação da quarentena com outras medidas de saúde pública é importante para garantir sua efetividade. Para manter o melhor equilíbrio possível das medidas, as responsáveis pelas tomadas de decisões devem monitorar constantemente a situação do surto e o impacto das medidas implementadas. A realização de exames em amostras representativas de pessoas em diferentes locais poderia ajudar a avaliar a verdadeira prevalência da infecção, e reduzir a incerteza das hipóteses de modelagem.

Esta revisão foi encomendada pela OMS e apoiada pela Danube-University-Krems.

Leia o resumo na íntegra...
Contexto: 

A doença causada pelo Coronavirus em 2019 (COVID-19) é uma doença em rápido crescimento que foi classificada como pandemia pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Para apoiar a OMS com suas recomendações sobre a quarentena, realizamos uma rápida revisão sobre a efetividade da quarentena durante surtos graves de coronavírus.

Objetivos: 

Conduzimos uma revisão rápida para avaliar os efeitos da quarentena (isoladamente ou em combinação com outras medidas) de indivíduos que tiveram contato com casos confirmados de COVID-19, que vieram de países com um surto declarado, ou que vivem em regiões com alta transmissão da doença.

Estratégia de busca: 

Um especialista em informação pesquisou as seguintes bases de dados em 12 de fevereiro de 2020: PubMed, Ovid MEDLINE, WHO Global Index Medicus, Embase e CINAHL. A busca foi atualizada em 12 de março de 2020. A OMS forneceu os achados de buscas diárias em bases de dados chinesas até 16 de março de 2020.

Critérios de seleção: 

Incluímos estudos de coorte, estudos de casos-controle, séries de casos, séries temporais, séries temporais interrompidas e estudos de modelagem matemática que avaliaram o efeito de qualquer tipo de quarentena para controlar a COVID-19. Também incluímos estudos sobre a SRAG (síndrome respiratória aguda grave) e MERS (síndrome respiratória do Oriente Médio) como evidência indireta para o atual surto de coronavírus.

Coleta dos dados e análises: 

Dois autores de revisão, trabalhando de forma independente, avaliaram 30% das referências. Um único autor de revisão avaliou as outras 70%. Dois autores de revisão, trabalhando de forma independente, avaliaram todas as publicações selecionadas para leitura na íntegra. Um autor da revisão extraiu os dados e avaliou a qualidade da evidência com o GRADE e um segundo autor da revisão verificou a avaliação. Classificamos a qualidade (certeza) da evidência para os quatro desfechos primários: incidência, transmissão posterior, mortalidade e uso de recursos.

Resultados principais: 

Incluímos 29 estudos; 10 estudos de modelagem na COVID-19, 4 estudos observacionais e 15 estudos de modelagem na SRAG e MERS. Devido aos diversos métodos usados para medir e analisar os resultados de interesse nos estudos, não pudemos combinar os resultados em uma metanálise. Portanto, apresentamos uma síntese narrativa dos resultados. Segundo o GRADE, a qualidade (certeza) da evidência foi baixa a muito baixa, devido ao tipo de evidência encontrada nesta revisão.

Os estudos de modelagem relataram consistentemente um benefício das medidas de quarentena simuladas. Por exemplo, a quarentena de pessoas expostas a casos confirmados ou suspeitos evitou 44% a 81% dos casos incidentes, e evitou 31% a 63% das mortes, comparado a nenhuma medida baseada em diferentes cenários (casos incidentes: 4 estudos de modelagem da COVID-19, SRAG; mortalidade: 2 estudos de modelagem sobre a COVID-19, SRAG, evidências de baixa qualidade). Existe evidência de qualidade muito baixa de que quanto mais cedo as medidas de quarentena forem implementadas, maior será a poupança de custos (2 estudos de modelagem sobre SRAG). Existe evidência de qualidade muito baixa de um pequeno efeito da quarentena dos viajantes de um país com surto declarado na redução da incidência e das mortes (2 estudos de modelagem sobre a SRAG). Quando os modelos combinaram quarentena com outras medidas de prevenção e controle, incluindo fechamento das escolas, restrições de viagem e distanciamento social, os modelos demonstraram um efeito maior na redução de novos casos, transmissões, e mortes do que as medidas individuais isoladas (casos de incidentes: 4 estudos de modelagem sobre a COVID-19; transmissão posterior: 2 estudos de modelagem sobre a COVID-19; mortalidade: 2 estudos de modelagem sobre a COVID-19; evidência de baixa qualidade). Os estudos sobre a SRAG e MERS foram consistentes com os resultados dos estudos sobre a COVID-19.

Notas de tradução: 

Tradução do Cochrane Brazil (Maria Regina Torloni). Contato: tradutores@centrocochranedobrasil.org.br

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