Passar para o conteúdo principal

Quais modelos de probabilidade de complicação em tecido normal estão disponíveis para prever o risco de efeitos colaterais induzidos por radiação após radioterapia em pacientes com câncer de cabeça e pescoço, qual a sua qualidade e qual o seu desempenh...

Mensagens principais

° Muitos modelos de probabilidade de complicação em tecido normal foram desenvolvidos para prever efeitos indesejáveis após radioterapia em pacientes com câncer de cabeça e pescoço, mas a maioria deles não foi suficientemente validada externamente, ou seja, testado em pacientes que não participaram do estudo original de desenvolvimento do modelo, para saber o quão bem eles realmente preveem os efeitos indesejáveis.

° Para os modelos testados em dois ou mais estudos, além dos estudos originais de desenvolvimento, a qualidade dos testes e da apresentação dos resultados foi geralmente baixa, sendo difícil avaliar sua utilidade.

° São necessários mais estudos, com melhor delineamento, para investigar essa questão na área do câncer de cabeça e pescoço.

Como podemos determinar a probabilidade de ocorrência de efeitos indesejáveis ​​como resultado do tratamento?

A probabilidade de ocorrência de efeitos indesejáveis ​​como resultado da radioterapia pode ser calculada utilizando os chamados modelos de probabilidade de complicação em tecido normal. Os modelos de probabilidade de complicação em tecido normal calculam o risco de efeitos colaterais induzidos pela radiação com base em informações do paciente, sua doença e seu tratamento.

O que queríamos descobrir?

A radioterapia é a principal forma de tratamento para pacientes com câncer de cabeça e pescoço. No entanto, a radioterapia expõe partes saudáveis e por vezes vitais, da região da cabeça e do pescoço, à radiação. Isso pode resultar em danos a esses órgãos normais, como, por exemplo, distúrbios na produção de saliva, o que pode ter consequências importantes para a qualidade de vida de pacientes com câncer de cabeça e pescoço tratados com radioterapia. Para alcançar um equilíbrio ideal entre o controle do tumor e a prevenção de efeitos colaterais induzidos pela radiação, os modelos de probabilidade de complicação em tecido normal podem ser úteis. Esses modelos preveem o risco de efeitos colaterais induzidos pela radiação com base em informações do paciente, sua doença e seu tratamento. Tem havido um número substancial de modelos de probabilidade de complicação em tecido normal para pacientes com câncer de cabeça e pescoço. Nosso objetivo era descobrir qual a qualidade do planejamento, da condução e da análise do estudo (ou seja, o risco de viés) e quão bem esses modelos conseguem prever o risco de efeitos colaterais induzidos pela radiação.

O que nós fizemos?

Buscamos estudos que desenvolveram e/ou validaram modelos de probabilidade de complicação em tecido normal em pacientes com câncer de cabeça e pescoço.

O que encontramos?

Na maioria dos 592 modelos desenvolvidos a partir de 140.767 pacientes em 143 artigos identificados, a qualidade dos modelos não foi suficiente; e 81% desses modelos não tiveram seu desempenho investigado em novos pacientes. Para os restantes 19% dos modelos, foram encontradas 152 validações externas em 34.304 pacientes provenientes de 41 artigos. Havia apenas nove modelos com duas ou mais validações externas. Os modelos conseguiram distinguir bem os pacientes com e sem o desfecho, mas muitas vezes não ficava claro se as suas previsões estavam de acordo com o que foi observado, porque este último nem sempre foi avaliado e/ou relatado. De forma geral, a qualidade da maioria desses estudos foi baixa.

Quão atualizada é esta revisão?

As evidências estão atualizadas até 8 de janeiro de 2024.

Introdução

A radioterapia é a principal forma de tratamento para o câncer de cabeça e pescoço, mas pode causar diversos efeitos colaterais nos tecidos normais circundantes. Para alcançar um equilíbrio ideal entre o controle do tumor e a prevenção da toxicidade, modelos de probabilidade de complicação em tecido normal têm sido utilizados para prever o risco de efeitos colaterais induzidos por radiação em pacientes com câncer de cabeça e pescoço. No entanto, a qualidade do desenho, da condução e da análise do estudo (ou seja, o risco de viés), bem como o desempenho preditivo desses modelos, ainda precisam ser avaliados.

Objetivos

Identificar, descrever e avaliar modelos de probabilidade de complicação em tecido normal para prever o risco de efeitos colaterais induzidos por radiação em pacientes com câncer de cabeça e pescoço.

Métodos de busca

Realizamos buscas nas bases de dados MEDLINE via Ovid, Embase e na Plataforma Internacional de Registro de Ensaios Clínicos da Organização Mundial da Saúde, desde a sua concepção até janeiro de 2024. Além disso, analisamos as referências citadas nos artigos recuperados.

Critério de seleção

Dois autores da revisão incluíram, de forma independente, artigos que relatavam o desenvolvimento e a validação externa de modelos de probabilidade de complicação em tecido normal para prever qualquer tipo de efeito colateral induzido por radiação em pacientes com câncer de cabeça e pescoço.

Coleta dos dados e análises

Um revisor extraiu os dados de cada artigo com base no Checklist for Critical Appraisal and Data Extraction for Systematic Reviews of Prediction Modelling Studies (CHARMS) e avaliou sua aplicabilidade e risco de viés usando a Ferramenta de Avaliação de Risco de Viés de Modelo Preditivo, enquanto outro revisor verificou cuidadosamente os resultados. Para os modelos validados externamente por pelo menos duas vezes para o mesmo desfecho do seu estudo de desenvolvimento original, realizamos análises qualitativas do desempenho do modelo. O sistema GRADE não foi aplicado, uma vez que não foi estabelecido para revisões de estudos de modelos prognósticos.

Principais resultados

Entre 592 modelos desenvolvidos a partir de 143 artigos, incluindo 140.767 pacientes com câncer de cabeça e pescoço, apenas 49 (8%) modelos de seis artigos foram considerados com baixo risco de viés e com poucas preocupações quanto à aplicabilidade. Não foi realizada validação externa para 480 modelos (81%). Para os 112 modelos restantes e seis modelos adicionais que não eram elegíveis para a presente revisão, foram realizadas 152 validações externas em 34.304 pacientes com câncer de cabeça e pescoço em 41 artigos. Os resultados dos modelos validados externamente pelo menos duas vezes são discutidos abaixo.

Modelos para xerostomia

Entre 275 modelos para xerostomia, dois modelos foram validados externamente pelo menos duas vezes.

O modelo Beetz 2012b para xerostomia seis meses após a radioterapia foi validado em dois estudos. Os valores da C-statistics variaram de 0,70 a 0,74. O desempenho da calibração foi relatado em um estudo. Um estudo de validação foi classificado como tendo baixo risco de viés em todos os domínios, enquanto o outro foi classificado como tendo alto risco de viés no domínio de análise.

O modelo Cavallo 2021 para xerostomia aguda durante a radioterapia em pacientes com câncer de nasofaringe foi validado externamente no mesmo estudo, utilizando dois tipos diferentes de coortes. Os valores da C-statistics variaram de 0,68 a 0,73 e os gráficos de calibração foram apresentados em ambas as coortes. Ambas as validações foram classificadas como tendo risco de viés incerto no domínio dos participantes, pois não foram fornecidas informações detalhadas sobre o recrutamento.

Modelos para disfagia

Dentre 86 modelos para disfagia, dois foram validados externamente pelo menos duas vezes.

O modelo de Christianen 2012 para disfagia seis meses após a radioterapia foi validado em cinco estudos. Os valores da C-statistics variaram de 0,66 a 0,75. O desempenho da calibração foi avaliado em todos eles, enquanto quatro foram classificados como tendo alto risco de viés no domínio da análise devido ao pequeno tamanho da amostra.

O modelo Wopken 2014b para dependência de alimentação por sonda seis meses após a radioterapia foi validado em três estudos de validação externa. Os valores da C-statistics variaram de 0,79 a 0,95, e a calibração foi avaliada em todos os estudos. Devido ao pequeno tamanho dos conjuntos de dados de validação, considerou-se que eles apresentavam alto risco de viés no domínio da análise.

Modelos para hipotireoidismo

Dos 66 modelos para hipotireoidismo, dois foram validados externamente pelo menos duas vezes. Além disso, havia outro modelo que não foi originalmente desenvolvido para pacientes com câncer de cabeça e pescoço, mas validado nesse domínio.

O modelo de Boomsma 2012 para hipotireoidismo nos dois anos subsequentes à radioterapia foi validado externamente em dois estudos. Os valores da C-statistics variaram de 0,64 a 0,74, enquanto apenas um estudo relatou seu desempenho de calibração. Ambos os estudos de validação foram classificados como tendo alto risco de viés no domínio da análise.

O modelo de Ronjom 2013 para hipotireoidismo induzido por radiação foi validado em três estudos. Os valores da C-statistics variaram de 0,65 a 0,69 e os gráficos de calibração foram relatados em apenas um estudo. Dois estudos de validação foram considerados com alto risco de viés, enquanto o terceiro foi classificado como tendo risco de viés incerto no domínio da análise.

O modelo Cella 2012 foi originalmente desenvolvido para prever o hipotireoidismo induzido por radiação em pacientes com linfoma de Hodgkin. Em dois estudos de validação em pacientes com câncer de cabeça e pescoço, os valores de C-statistics variaram de 0,65 a 0,68, mas o desempenho da calibração não foi relatado. Um estudo de validação foi classificado como tendo um alto risco de viés e o outro foi classificado como incerto no domínio da análise.

Modelos para lesão do lobo temporal

Dentre seis modelos para lesão do lobo temporal, dois foram validados externamente pelo menos duas vezes.

O modelo OuYang 2023, que utiliza aprendizado profundo em pacientes com câncer de nasofaringe, foi validado no mesmo artigo usando duas coortes diferentes. Os valores da C-statistics variaram de 0,80 a 0,82, e o desempenho da calibração foi avaliado em ambas as coortes. Ambas as validações foram consideradas de baixo risco de viés em todos os domínios.

O modelo Wen 2021 foi desenvolvido para prever lesões no lobo temporal em pacientes com diagnóstico recente de câncer de nasofaringe. O modelo foi validado por OuYang em 2023 usando duas coortes. Os valores da C-statistics variaram de 0,77 a 0,79, enquanto o desempenho da calibração não foi relatado. Ambas as validações foram consideradas como tendo um risco de viés incerto no domínio da análise.

Modelos para desfechos relacionados a rouquidão, fadiga, náuseas e vômitos, dor de garganta e aspiração.

Nenhum modelo foi validado externamente pelo menos duas vezes.

Conclusão dos autores

Entre os 592 modelos desenvolvidos, apenas um número limitado apresentou qualidade adequada. Apenas um quinto foi validado externamente, dos quais, apenas nove modelos foram validados pelo menos duas vezes. Esses nove modelos apresentaram desempenho discriminativo aceitável na validação externa. No entanto, o desempenho da calibração nem sempre foi relatado. Além disso, a maioria dos estudos de validação foi considerada como tendo alto risco de viés, principalmente devido a problemas no domínio da análise. Em conclusão, esta revisão demonstra a necessidade de mais estudos de validação externa antes da implementação de modelos desenvolvidos na prática clínica, bem como a melhoria da qualidade da condução e da apresentação de relatórios de estudos de modelos preditivos.

Notas de tradução

Tradução do Cochrane Brazil (Aléxia Gabriela da Silva Vieira). Contato: tradutores.cochrane.br@gmail.com

Citation
Takada T, Tambas M, Clementel E, Leeuwenberg A, Sharabiani M, Damen JAAG, Dunias ZS, Nauta JF, Idema DL, Choi J, Meijerink LM, Langendijk JA, Moons KG, Schuit E. Prognostic models for radiation-induced complications after radiotherapy in head and neck cancer patients. Cochrane Database of Systematic Reviews 2025, Issue 9. Art. No.: CD014745. DOI: 10.1002/14651858.CD014745.pub2.

O nosso uso de cookies

Usamos cookies necessárias para fazer nosso site funcionar. Gostaríamos também de definir cookies analíticos opcionais para nos ajudar a melhorar nosso site. Não vamos definir cookies opcionais a menos que você as habilite. A utilização desta ferramenta irá colocar uma cookie no seu dispositivo para lembrar as suas preferências. Você sempre pode alterar suas preferências de cookies a qualquer momento clicando no link 'Configurações de cookies' no rodapé de cada página.
Para informações mais detalhadas sobre as cookies que utilizamos, consulte nossa Página das Cookies.

Aceitar todas
Configure