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Quais são os efeitos dos antibióticos na dor e no inchaço causados por inflamação ou infeção na raiz do dente em adultos?

Mensagens-chave

– Uma dose única de antibióticos provavelmente faz pouca ou nenhuma diferença na dor e no inchaço, quando tomada antes do tratamento dos canais radiculares.

– A evidência sobre o efeito dos antibióticos administrados após o desbridamento (um procedimento que envolve a limpeza parcial ou total do interior do canal radicular) na dor ou no inchaço são muito incertas.

– Nenhum estudo analisou o efeito dos antibióticos isoladamente, sem tratamento dentário, quando administrados em duas condições frequentemente responsáveis por causar dor dentária.

Como podem surgir a periodontite apical e o abcesso apical?

A dor dentária é um problema comum e pode surgir quando a polpa (“nervo”) de um dente é danificada irreversivelmente devido a lesões de cárie, entre outras. Quando este quadro progride e desencadeia uma inflamação no osso ao redor da região apical do dente afetado, é designado como periodontite apical. Na presença de sintomas, normalmente dor, é descrito como periodontite apical sintomática.

Sem tratamento, as bactérias podem infetar o dente e causar uma acumulação de pus em torno da ponta da raiz (conhecida como abcesso apical). Isto pode levar ao inchaço e à propagação da infeção.

Como é tratada a dor de dentes causada por periodontite apical ou por abcesso apical?

O tratamento recomendado para estas condições é a remoção do nervo afetado e das bactérias associadas. Isto é geralmente feito através da extração do dente ou da limpeza do sistema de canais existentes na raiz do dente (chamado desbridamento químico-mecânico). Por vezes, é possível fazer o selamento do canal radicular no mesmo dia (tratamento endodôntico completo) ou em alternativa, voltar numa data posterior para o selamento e restauração do dente.

Os antibióticos só são recomendados quando há uma infeção grave que se espalhou através da raiz do dente. No entanto, alguns médicos dentistas ainda prescrevem antibióticos rotineiramente para pacientes com essas condições que não apresentam sinais de infeção disseminada ou sem tratamento dentário para remover o tecido necrosado ou infetado. O uso de antibióticos contribui para o desenvolvimento de bactérias resistentes aos mesmos (situação em que as bactérias já não são eliminadas pelo antibiótico). Portanto, é importante que os antibióticos sejam usados apenas quando houver probabilidade de trazerem benefícios para a pessoa.

O que pretendíamos descobrir?

O nosso objetivo era descobrir se os antibióticos melhoram a dor e o inchaço relatados por adultos com dor dentária associada à periodontite apical sintomática ou abcesso apical. Estávamos interessados nos efeitos dos antibióticos quando administrados com ou sem tratamento dentário, bem como com ou sem analgésicos.

O que fizemos?

Pesquisámos estudos que comparavam antibióticos com medicamentos simulados (placebo) em adultos com essas condições. Comparámos e resumimos os resultados dos estudos e classificámos o nível de confiança na evidência, com base em fatores como os métodos e o tamanho dos estudos.

O que descobrimos?

Encontrámos três estudos (um dos quais novo, incluído nesta atualização). No total, incluímos 134 participantes na análise. Todos os estudos foram realizados em faculdades de medicina dentária e avaliaram a eficácia dos antibióticos orais (tomados por via oral) na redução da dor relatada por adultos após desbridamento químico-mecânico total ou parcial sob anestesia local (injeção de um medicamento anestésico na gengiva à volta do dente afetado). Num ensaio, os participantes receberam uma dose única de antibióticos antes do tratamento dentário. Nos outros dois ensaios, os participantes receberam um tratamento de sete dias com antibióticos após o tratamento dentário.

No estudo que comparou uma dose única de antibióticos orais com um placebo antes do tratamento completo do canal radicular, não se observaram diferenças na dor ou no inchaço relatados pelos participantes dos dois grupos. A evidência sugere que uma dose única de antibióticos resulta em pouca ou nenhuma diferença em termos de dor e inchaço, quando tomada antes do tratamento dos canais radiculares.

Os dois estudos que compararam o tratamento com antibióticos com placebo após um desbridamento químico-mecânico total ou parcial não encontraram diferenças na dor ou no inchaço entre os grupos. No entanto, a evidência é muito incerta.

Nenhum estudo examinou o efeito dos antibióticos por si só, sem tratamento dentário cirúrgico.

Dois estudos relataram a ocorrência de efeitos secundários entre os participantes. Uma pessoa que recebeu o medicamento placebo teve diarreia (fezes moles). Outra pessoa que recebeu antibióticos após um tratamento dentário sentiu cansaço e diminuição da energia, ao passo que uma terceira pessoa que recebeu antibióticos antes do tratamento dentário sentiu tonturas.

Quais são as limitações da evidência?

A nossa confiança na evidência relacionada com a administração de uma dose única de antibióticos antes do tratamento endodôntico completo é baixa, dado que temos sérias preocupações de que o estudo possa não ter incluído um número suficiente de participantes para detetar uma diferença entre os grupos, não sendo possível excluir a possibilidade de um efeito benéfico.

Não estamos confiantes na evidência sobre o efeito do tratamento com antibióticos tomado após desbridamento químico-mecânico parcial ou total, dado que os estudos foram pequenos e, num deles, muitos participantes desistiram antes do fim.

Quão atualizada se encontra a evidência?

A evidência estava atualizada à data de 25 de novembro de 2022.

Introdução

A dor dentária pode ter um impacto negativo na qualidade de vida. A periodontite apical sintomática e o abcesso apical agudo são causas comuns desta dor e resultam de uma polpa dentária inflamada ou necrótica, ou de uma infeção do sistema dos canais radiculares sem polpa. As diretrizes clínicas recomendam que o tratamento de primeira linha para estas condições seja a remoção da fonte de inflamação ou infeção por meio de intervenções locais e que os antibióticos sistémicos apenas sejam prescritos em casos de evidência de propagação da infeção (como celulite, envolvimento dos gânglios linfáticos ou edema difuso) ou de envolvimento sistémico (como febre ou mal-estar). No entanto, há evidência de que os dentistas prescrevem frequentemente antibióticos na ausência destes sinais. Existe a preocupação de que tal possa contribuir para o desenvolvimento de resistências bacterianas aos antibióticos. A presente revisão constitui a segunda atualização da versão original, publicada pela primeira vez em 2014.

Objetivos

Avaliar os efeitos dos antibióticos sistémicos administrados, com ou sem intervenção cirúrgica (por exemplo, extração, incisão e drenagem de um abcesso, ou tratamento endodôntico cirúrgico), com ou sem analgésicos, no tratamento da periodontite apical sintomática e do abcesso apical agudo em adultos.

Métodos de busca

Pesquisámos no Cochrane Oral Health's Trials Register (26 de fevereiro de 2018 (entretanto descontinuado)), CENTRAL (2022, Edição 10), MEDLINE Ovid (23 de novembro de 2022), Embase Ovid (23 de novembro de 2022), CINAHL EBSCO (25 de novembro de 2022) e dois registos de ensaios clínicos, bem como a literatura cinzenta. Não aplicámos quaisquer restrições quanto ao idioma ou data de publicação.

Critério de seleção

Ensaios controlados aleatorizados com antibióticos sistémicos em adultos com diagnóstico clínico de periodontite apical sintomática ou abcesso apical agudo, com ou sem intervenção cirúrgica(considerada, neste contexto, como extração, incisão e drenagem, ou tratamento endodôntico cirúrgico) e com ou sem analgésicos.

Coleta dos dados e análises

Dois autores desta revisão analisaram de forma independente os resultados da pesquisa em relação aos critérios de inclusão, obtiveram os dados e avaliaram o risco de viés. Utilizámos um modelo de efeitos fixo na meta-análise, pois havia menos de quatro estudos. Entrámos em contacto com os autores dos estudos para solicitar informações que faltavam. Utilizámos os critérios GRADE para avaliar a certeza da evidência.

Principais resultados

Desde a última atualização, em 2018, foi concluído um novo ensaio sobre este tema. No total, foram incluídos três ensaios com 134 participantes.

Antibióticos sistémicos versus placebo com intervenção cirúrgica e analgésicos para periodontite apical sintomática ou abcesso apical agudo

Um ensaio clínico com 72 participantes comparou os efeitos de uma dose única de clindamicina administrada antes da intervenção cirúrgica (desbridamento químico-mecânico endodôntico e obturação) e analgésicos, com os efeitos de um placebo correspondente, em adultos com periodontite apical sintomática. Considerámos que este estudo apresentava um baixo risco de viés. Não se observaram diferenças na dor ou edema relatados pelos participantes em nenhum dos grupos do ensaio em nenhum dos momentos avaliados. Os valores medianos da dor (numa escala de 0 a 10) foram 3,0 em ambos os grupos às 24 horas (P = 0,219); 1,0 no grupo com antibiótico e 2,0 no grupo de controlo às 48 horas (P = 0,242); e 0 em ambos os grupos às 72 horas e aos sete dias (P = 0,116 e 0,673, respetivamente). A razão de risco de edema ao comparar o antibiótico pré-operatório com o placebo foi de 0,50 (intervalo de confiança (IC) de 95%: 0,10 a 2,56; P = 0,41). A certeza da evidência para todos os resultados desta comparação foi baixa.

Dois ensaios clínicos (com um total de 62 participantes) compararam os efeitos de um tratamento de sete dias com fenoximetilpenicilina oral (penicilina VK) versus um placebo correspondente, administrado juntamente com uma intervenção (desbridamento químico-mecânico endodôntico total ou parcial) e analgésicos, em adultos com abcesso apical agudo ou dente necrótico sintomático. Os participantes nos dois ensaios receberam também analgésicos orais. Avaliámos um estudo com elevado risco de viés e outro com risco de viés incerto. Não se observaram diferenças na dor ou edema relatados pelos participantes em nenhum dos momentos avaliados. A diferença média para a dor (escala numérica ordinal curta de 0 a 3, em que 0 era ausência de dor) foi de −0,03 (IC 95% −0,53 a 0,47) às 24 horas; 0,32 (IC 95% −0,22 a 0,86) às 48 horas; e 0,08 (IC 95% −0,38 a 0,54) às 72 horas. A diferença média padronizada para o edema foi de 0,27 (IC 95% −0,23 a 0,78) às 24 horas; 0,04 (IC 95% −0,47 a 0,55) às 48 horas; e 0,02 (IC 95% −0,49 a 0,52) às 72 horas. A certeza da evidência para todos os resultados nesta comparação foi muito baixa.

Os efeitos adversos, conforme relatado em dois estudos, foram diarreia (um participante no grupo placebo), fadiga e diminuição de energia no período pós-operatório (um participante no grupo com antibióticos) e tonturas no período pré-operatório (um participante no grupo com antibióticos).

Antibióticos sistémicos sem intervenção cirúrgica em adultos com periodontite apical sintomática ou abcesso apical agudo

Não foram encontrados estudos que comparassem os efeitos de antibióticos sistémicos com um placebo correspondente, administrado sem intervenção cirúrgica, em casos de periodontite apical sintomática ou de abcesso apical agudo em adultos.

Conclusão dos autores

A evidência sugere que a administração pré-operatória de clindamicina em adultos com periodontite apical sintomática resulta em pouca ou nenhuma diferença na dor ou edema reportados pelos participantes, em qualquer dos momentos avaliados nesta revisão, quando realizada em conjunto com desbridamento endodôntico químico-mecânico e obturação sob anestesia local. A evidência é muito incerta quanto ao efeito da fenoximetilpenicilina pós-operatória em adultos com abcesso apical localizado ou dente necrótico sintomático, quando administrada em conjunto com o desbridamento químico-mecânico e analgésicos orais. Não foram encontrados estudos que comparassem os efeitos de antibióticos sistémicos com um placebo correspondente, administrado sem intervenção cirúrgica, em casos de periodontite apical sintomática ou de abcesso apical agudo em adultos.

Notas de tradução

Traduzido por: Carlota Duarte de Mendonça, Diogo Rosinha, Joana Faria Marques, João Silveira e António Mata, Centro de Estudos de Medicina Dentária Baseada na Evidência, Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa. Revisão final: Ricardo Manuel Delgado, Knowledge Translation Team, Cochrane Portugal.

Citation
Cope AL, Francis N, Wood F, Thompson W, Chestnutt IG. Systemic antibiotics for symptomatic apical periodontitis and acute apical abscess in adults. Cochrane Database of Systematic Reviews 2024, Issue 5. Art. No.: CD010136. DOI: 10.1002/14651858.CD010136.pub4.

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