Treinamento da equipe obstétrica baseado em simulação para melhorar o resultado geral dos cuidados obstétricos

Avaliar o efeito do treinamento da equipe obstétrica baseado em simulação nos resultados dos pacientes, no desempenho da equipe de atendimento obstétrico na prática e em ambientes educacionais, e na experiência dos participantes comparado com nenhum treinamento ou outro tipo de treinamento.

Qual é a pergunta?

As emergências obstétricas são condições que podem ameaçar o bem-estar da gestante e do bebê durante a gravidez ou na hora do parto. Essas emergências podem acontecer a qualquer momento, criam muita pressão, exigem decisões de alto risco e apresentam desafios técnicos e éticos para a equipe que está cuidando da gestante e do seu filho. Às vezes, devido a fatores organizacionais e humanos, as gestantes e os bebê em situações de emergência obstétrica podem receber cuidados abaixo do que é considerado o padrão ideal. Esses fatores podem ser evitáveis. O treinamento das equipes obstétricas baseado em simulação foca na construção de um sistema que antecipa erros e melhora os resultados dos pacientes e o desempenho das equipes de atendimento obstétrico.

Por que isso é importante?

O desempenho adequado da equipe de atendimento obstétrico é essencial para o manejo seguro das emergências obstétricas. O desempenho inadequado das equipes de atendimento pode levar a cuidados abaixo do padrão que levam a maus resultados para as gestantes e seus filhos. O treinamento da equipe obstétrica baseado em simulação tem sido recomendado para melhorar o resultado geral e a qualidade dos cuidados de saúde obstétricos. A eficácia desse treinamento precisa ser avaliada.

Que evidência encontramos?

Fizemos buscas por estudos publicados até abril de 2020. Identificamos oito ensaios clínicos randomizados (um tipo de estudo). Seis ensaios clínicos tipo cluster (um tipo de ensaio clínico que avalia grupos) compararam o treinamento de equipes obstétricas baseado em simulação versus nenhum treinamento.

Nível 4 de Kirkpatrick (resultado para o paciente): o treinamento da equipe obstétrica baseado em simulação pode fazer pouca ou nenhuma diferença para uma combinação de eventos adversos na gestante ou no bebê. Não sabemos se o treinamento da equipe obstétrica baseado em simulação afeta o risco da gestante morrer. Porém, o treinamento pode reduzir o risco do recém-nascido morrer. O treinamento da equipe obstétrica baseado em simulação pode ter pouco ou nenhum efeito sobre o risco do bebê receber uma baixa nota de Apgar, mas provavelmente reduz o risco do bebê ter um trauma após a distocia de ombro e provavelmente reduz um pouco o número de cesarianas.

Nível 3 de Kirkpatrick (desempenho na prática): o treinamento de equipes obstétricas baseado em simulação provavelmente melhora o desempenho das equipes obstétricas na prática.

O que isso significa?

O treinamento da equipe obstétrica baseado em simulação pode ser útil para melhorar o desempenho da equipe e alguns resultados maternos e perinatais específicos. Não há evidência de alta qualidade sobre essa questão devido a limitações na forma como os estudos foram concebidos e conduzidos. Seis estudos foram realizados em países de alta renda (Holanda, Reino Unido e EUA) e dois estudos foram realizados em um país de renda média (México). Por isso, não foi possível combinar todos os dados dos estudos para chegar a conclusões sólidas. Estudos futuros sobre o treinamento das equipes obstétricas baseado em simulação versus outros tipos de treinamentos devem considerar cuidadosamente como e quando medir os efeitos das intervenções.

Conclusão dos autores: 

O treinamento das equipes obstétricas baseado em simulação, comparado a nenhum treinamento, pode ajudar a melhorar o desempenho das equipes obstétricas e pode contribuir para a melhora de desfechos específicos maternos e perinatais. Porém, não existe evidência de alta qualidade devido ao alto risco de viés e à imprecisão. Além disso, o efeito da intervenção não pode ser generalizado para todos os desfechos. Os futuros estudos sobre o treinamento das equipes obstétricas baseado em simulação versus outros treinamentos devem considerar cuidadosamente como e quando medir os desfechos. Deve ser dada atenção especial à medição dos desfechos relacionados aos pacientes, levando em consideração a baixa incidência de eventos adversos maternos e perinatais.

Leia o resumo na íntegra
Introdução: 

O treinamento das equipes obstétricas baseado em simulação foca na construção de um sistema que antecipa erros, melhora os resultados dos pacientes e o desempenho das equipes de atendimento clínico. O treinamento da equipe obstétrica baseado em simulação foi proposto como uma ferramenta para melhorar o resultado geral dos cuidados obstétricos.

Objetivos: 

Avaliar os efeitos do treinamento da equipe obstétrica baseado em simulação nos desfechos dos pacientes, no desempenho das equipes de atendimento obstétrico na prática e em ambientes educacionais, e na experiência dos participantes.

Métodos de busca: 

Fizemos buscas nas seguintes bases de dados em 14 de abril de 2020: Cochrane Pregnancy and Childbirth Group's Trials Register, ClinicalTrials.gov e WHO International Clinical Trials Registry Platform (ICTRP). Também avaliamos as listas de referências dos estudos recuperados e fizemos buscas manuais nos anais de duas conferências internacionais sobre o tema.

Critério de seleção: 

Incluímos ensaios clínicos randomizados controlados (ECRs) e ensaios clínicos tipo cluster que compararam o treinamento de equipes obstétricas baseado em simulação versus nenhum treinamento ou outros tipos de treinamento.

Coleta dos dados e análises: 

Utilizamos os procedimentos metodológicos padrão esperados pela Cochrane para identificar os estudos, avaliar sua qualidade metodológica e para a extração dos dados. Os dados de três estudos tipo cluster puderam ser combinados em metanálises usando o modelo de variância inversa. Calculamos as razões de risco (RRs) e as diferenças de médias (MDs) e seus respectivos intervalos de confiança (IC) de 95%. Usamos a abordagem GRADE para avaliar a qualidade (certeza) da evidência. Usamos o modelo de Kirkpatrick de avaliação de treinamentos para categorizar os desfechos de interesse. Escolhemos o Nível 3 (mudança de comportamento) e o Nível 4 (desfechos relacionados ao paciente) para os desfechos primários.

Principais resultados: 

Incluímos oito ECRs, seis dos quais eram do tipo cluster, envolvendo mais de 1000 participantes nos treinamentos e mais de 200.000 gestações/ partos. Quatro estudos relataram medidas de desfecho para o nível 4 de Kirkpatrick (desfechos relacionados aos pacientes), três estudos para o nível 3 de Kirkpatrick (desempenho na prática), dois estudos para o nível 2 de Kitkpatrick (desempenho em ambientes educacionais), e nenhum estudo relatou medidas de desfecho para o nível 1 de Kirkpatrick (experiência dos participantes). Os estudos incluídos foram todos feitos em países de média e alta renda (México, Holanda, Reino Unido e EUA).

Nível 4 de Kirkpatrick (desfechos relacionados ao paciente)

O treinamento da equipe obstétrica baseado em simulação, comparado a nenhum treinamento, pode fazer pouca ou nenhuma diferença sobre o desfecho composto de eventos adversos maternos e/ou perinatais (3 estudos; n = 28.731, evidência de baixa qualidade, dados não combinados em metanálises devido a diferentes definições para o desfecho composto). Não sabemos se o treinamento da equipe obstétrica baseado em simulação, comparado a nenhum treinamento, afeta a mortalidade materna (2 estudos; 79.246 gestantes; evidência de qualidade muito baixa). Porém, essa intervenção pode reduzir a mortalidade neonatal (RR 0,70, IC 95% 0,48 a 1,01; 2 estudos, 79.246 gestações/ partos, evidência de baixa qualidade). O treinamento da equipe obstétrica baseado em simulação, comparado a nenhum treinamento, pode ter pouco ou nenhum efeito sobre índices de Apgar baixos (RR 0,99, IC 95% 0,85 a 1,15; 2 estudos; 115.171 recém-nascidos; evidência de baixa qualidade). Porém, essa intervenção provavelmente reduz o risco de trauma após distocia de ombro (RR 0.50, IC 95% 0,25 a 0,99; 1 estudo; evidência de qualidade moderada) e provavelmente reduz um pouco o número de partos cesáreos (RR 0,79, IC 95% 0,67 a 0,93; 1 estudo; n = 50.589; evidência de qualidade moderada)

Nível 3 de Kirkpatrick (desempenho na prática)

O treinamento da equipe obstétrica baseado em simulação, comparado a nenhum treinamento, provavelmente melhora o desempenho das equipes obstétricas na prática (3 estudos; 2398 profissionais da equipe obstétrica, evidência de qualidade moderada, dados não combinados em metanálises devido a diferentes definições para o desfecho).

Notas de tradução: 

Tradução do Cochrane Brazil (Maria Regina Torloni). Contato: tradutores@centrocochranedobrasil.org.br

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