Terapias complementares e alternativas para o alívio da dor pós-cesariana

Introdução

A dor após uma cesariana pode afetar o bem-estar da mãe e sua interação com o bebê. A maioria das mulheres recebe analgésicos para o alívio da dor durante este período. Porém, estes medicamentos podem causar efeitos colaterais na mãe e no bebê. O uso de terapias complementares e alternativas (TCAs) pode ser uma forma segura para o alívio da dor após uma cesariana (CS) sem causar efeitos adversos.

Qual é a pergunta?

Quais são os efeitos do uso de TCA no tratamento da dor pós-cesariana?

Por que isso é importante?

Os resultados desta revisão serão úteis para ajudar a informar as mulheres, as obstetrizes e os médicos sobre os possíveis benefícios e desvantagens do uso das TCAs para o alívio da dor após uma CS.

Que evidência encontramos?

Fizemos buscas para identificar estudos publicados até setembro de 2019. Encontramos 37 estudos que avaliaram oito tipos diferentes de TCAs. A qualidade (certeza) da evidência proveniente dos estudos variou de baixa a muito baixa. Isso significa que não podemos ter certeza quanto aos resultados. As principais razões para rebaixar a qualidade foram porque os estudos nem sempre relataram seus resultados de forma clara ou completa, ou eles tinham sérias limitações, e os resultados careciam de precisão.

Acupunctura ou acupressão

Temos dúvidas se a acupunctura ou acupressão (comparada a nenhum tratamento), ou a acupunctura ou acupressão mais analgesia (versus placebo mais analgesia) tem algum efeito sobre a dor. Isso se deve ao fato da qualidade da evidência ser muito baixa. A acupunctura ou acupressão mais analgesia (versus apenas analgesia) pode reduzir a dor avaliada 12 horas e 24 horas após a CS.

É incerto se a acupunctura ou acupressão (versus nenhum tratamento) ou a acupunctura ou acupressão mais analgesia (versus analgesia) tem algum efeito sobre o risco de efeitos adversos. Isso se deve ao fato da qualidade da evidência ser muito baixa.

Aromaterapia

A aromaterapia, comparada com placebo mais analgesia, pode reduzir a dor avaliada com 12 e 24 horas. É incerto se a aromaterapia, comparada com placebo mais analgesia, tem algum efeito sobre os efeitos adversos (ansiedade).

Terapia eletromagnética

A terapia eletromagnética, comparada com placebo mais analgesia, pode reduzir a dor avaliada com 12 e 24 horas e a necessidade de usar mais analgésicos (´analgésicos de resgate´).

Massagem

Não sabemos se a massagem das mãos e dos pés mais a analgesia, comparada com a analgesia, tem algum efeito sobre a dor, efeitos adversos (ansiedade), frequência cardíaca e frequência respiratória. Isso se deve ao fato da qualidade da evidência ser muito baixa.

Musicoterapia

A música mais analgesia, comparada com placebo mais analgesia, pode reduzir a dor avaliada 1 hora e 24 horas após a CS. É incerto se a música mais analgesia, comparada com placebo mais analgesia,teria algum efeito sobre a frequência cardíaca da mulher ou sobre a probabilidade dela ter eventos adversos (ansiedade).

A música mais analgesia, comparada com analgesia, pode reduzir a dor na primeira hora e 24 horas após a CS.

Reiki

É incerto se o Reiki, comparado com analgesia, tem algum efeito sobre a dor na primeira hora ou 24 horas após a CS, efeitos adversos (ansiedade) ou sinais vitais. Isso se deve ao fato da qualidade da evidência ser muito baixa.

Relaxamento

É incerto se o relaxamento, comparado com os cuidados padrão, tem algum efeito sobre a dor 12 horas após a CS, mas ele pode reduzir a dor avaliada 24 horas após a cirurgia.

Estimulação nervosa elétrica transcutânea (TENS)

O TENS, comparado com ausência de tratamento, pode reduzir a dor na primeira hora após a intervenção.

O TENS mais analgesia, comparado com placebo mais analgesia, pode reduzir a dor, a frequência cardíaca e a frequência respiratória.

É incerto se o TENS mais analgesia, comparado com analgesia, tem algum efeito na dor avaliada seis ou 24 horas após a intervenção ou modifica os sinais vitais ou a necessidade de analgésicos de resgate.

O que isso significa?

A acupunctura ou acupressão, a aromaterapia, a terapia electromagnética, a massagem, a musicoterapia, assim como o relaxamento e o TENS, podem ter algum benefício no alívio da dor de mulheres que passaram por uma CS. Baseado nos estudos que avaliamos, não existe evidência que as TCAs tenham efeitos prejudiciais, ou a evidência é muito incerta.

O resultado mais importante para as mulheres e os profissionais de saúde é o controle da dor pós-CS. Portanto, é importante que os futuros estudos sobre TCA para dor pós-CS meçam dor, de preferência como a proporção de mulheres que tiveram alívio pelo menos moderado (30%) ou substancial (50%) da dor. Os futuros estudos também precisam ter tamanho suficiente para detectar efeitos nos resultados clínicos, devem medir outros resultados importantes assinalados nesta revisão, e devem usar escalas validadas para fazer essas medidas.

Conclusão dos autores: 

Algumas terapias complementares e alternativas podem ajudar a reduzir a dor no pós-CS por até 24 horas. As evidências sobre eventos adversos são muito incertas para permitir qualquer julgamento sobre a segurança da intervenção e não temos evidências sobre seus efeitos sobre a dor no longo prazo.

Como o controle da dor pós-CS é o desfecho mais relevante para as mulheres e os médicos, é importante que futuros estudos de TCA para dor pós-SC meçam a dor como desfecho primário. É recomendável que a dor seja medida como a proporção de participantes com alívio pelo menos moderado (30%) ou importante (50%) da dor. Medir a dor como uma variável dicotômica melhoraria a qualidade da evidência e facilitaria a compreensão dos não-especialistas. Estudos futuros também precisam ter tamanho amostral suficiente para detectar efeitos nos desfechos clínicos, medir outros desfechos importantes listados nesta revisão, e usar escalas validadas para essas avaliações.

Leia o resumo na íntegra
Introdução: 

A dor após uma cesariana (CS) pode afetar o bem-estar da mãe e sua capacidade de cuidar do seu recém-nascido. As estratégias convencionais de alívio da dor são frequentemente subutilizadas devido à preocupação com seus possíveis efeitos adversos maternos e neonatais. As terapias complementares e alternativas (TCA) podem ser uma alternativa para o alívio da dor pós-CS.

Objetivos: 

Avaliar os efeitos da TCA na dor pós-cesariana.

Métodos de busca: 

Em 6 de setembro de 2019 fizemos buscas nas seguintes bases de dados: Cochrane Pregnancy and Childbirth Trials Register, LILACS, PEDro, CAMbase, ClinicalTrials.gov e WHO International Clinical Trials Registry Platform (ICTRP). Também fizemos buscas nas listas de referências dos artigos recuperados.

Critério de seleção: 

Incluímos ensaios clínicos randomizados controlados (ECRs), ensaios clínicos quasi randomizados e ensaios clínicos tipo cluster, que compararam TCA sozinha ou associada a outras formas de alívio da dor, versus outros tratamentos ou placebo ou nenhum tratamento, para o tratamento da dor pós-CS.

Coleta dos dados e análises: 

Dois autores da revisão, trabalhando de forma independente, fizeram a seleção dos estudos, extraíram os dados, avaliaram o risco de viés, e avaliaram a qualidade da evidência usando o GRADE.

Principais resultados: 

Incluímos 37 estudos (3076 mulheres) que avaliaram oito tipos de terapias complementares ou alternativa para o alívio da dor pós-CS. Houve grande heterogeneidade entre os estudos. Rebaixamos a qualidade da evidência devido ao pequeno número de participantes nos estudos e ao risco de viés decorrente da falta de cegamento e da falta de informações sobre o processo de randomização. Nenhum dos estudos avaliou dor seis semanas após a alta.

Os desfechos primários foram dor e efeitos adversos das intervenções listadas abaixo. Os desfechos secundários foram modificações nos sinais vitais e necessidade de analgésicos de resgate seis semanas após a alta. Todos os desfechos foram mal descritos nos estudos, ou não foram relatados, ou estamos incertos quanto aos efeitos.

Acupunctura ou acupressão

Estamos muito incertos se a acupunctura ou acupressão (versus nenhum tratamento) ou acupunctura ou acupressão mais analgesia (versus placebo mais analgesia) tem algum efeito sobre a dor porque a qualidade da evidência é muito baixa. A acupuntura ou acupressão mais analgesia (versus analgesia) pode reduzir a dor avaliada com 12 horas (diferença média padronizada (SMD) -0,28, intervalo de confiança (IC) de 95% -0,64 a 0,07; 2 estudos; 130 mulheres; evidência de baixa qualidade) e com 24 horas (SMD -0,63, IC 95% -0,99 a -0,26; 2 estudos; 130 mulheres; evidência de baixa qualidade).

É incerto se a acupunctura ou acupressão (versus nenhum tratamento) ou a acupunctura ou acupressão mais analgesia (versus analgesia) tem algum efeito sobre o risco de efeitos adversos. Isso se deve ao fato da qualidade da evidência ser muito baixa.

Aromaterapia

A aromaterapia mais analgesia (versus placebo mais analgesia) pode reduzir a dor com 12 horas (diferença média (MD) -2,63 pontos em uma escala visual analógica (EVA), IC 95% -3,48 a -1,77; 3 estudos; 360 mulheres; evidência de baixa qualidade) e com 24 horas (MD -3,38 EVA, IC 95% -3,85 a -2,91; 1 estudo; 200 mulheres; evidência de baixa qualidade). Não sabemos se a aromaterapia mais analgesia (versus placebo mais analgesia) tem algum efeito sobre os eventos adversos (ansiedade).

Terapia eletromagnética

A terapia eletromagnética (versus placebo mais analgesia) pode reduzir a dor com 12 horas (MD -8,00, IC 95% -11,65 a -4,35; 1 estudo; 72 mulheres; evidência de baixa qualidade) e com 24 horas (MD -13,00 EVA, IC 95% -17,13 a -8,87; 1 estudo; 72 mulheres; evidência de baixa qualidade).

Massagem

Identificamos seis estudos (651 mulheres), cinco dos quais eram ensaios clínicos quasi-randomizados, que compararam massagem (pé e mão) mais analgesia versus analgesia. A qualidade da evidência foi muito baixa para dor, eventos adversos (ansiedade), sinais vitais e necessidade de analgésicos de resgate.

Música

A música mais analgesia, comparada com placebo mais analgesia, pode reduzir a dor na primeira hora (SMD -0,84, IC 95% -1,23 a -0,46; 2 estudos; 115 mulheres; evidência de baixa qualidade), e com 24 horas (MD -1,79, IC 95% -2,67 a -0,91; 1 estudo, 38 mulheres, evidência de baixa qualidade). A musica mais analgesia, comparada com analgesia, também reduziu a dor na primeira hora (MD -2,11, IC 95% -3,11 a -1,10; 1 estudo;38 mulheres; evidência de baixa qualidade), e com 24 horas (MD -2.69, IC 95% --3,67 a -1,70; 1 estudo; 38 mulheres; evidência de baixa qualidade). Devido à qualidade da evidência ser muito baixa, é incerto se a música mais analgesia, comparada com placebo mais analgesia, tem algum efeito sobre os eventos adversos (ansiedade).

Reiki

Não sabemos se o Reiki mais analgesia, comparado com analgesia, tem algum efeito sobre a dor, os eventos adversos, os sinais vitais ou a necessidade de analgésicos de resgate, porque a qualidade da evidência é muito baixa (um estudo, 90 mulheres).

Relaxamento

O relaxamento, comparado com os cuidados padrão, pode reduzir a dor avaliada com 24 horas (MD -0,53 EVA, IC 95% -1,05 a -0,01; 1 estudo; 60 mulheres; evidência de baixa qualidade).

Estimulação nervosa elétrica transcutânea

O TENS (versus nenhum tratamento) pode reduzir a dor na primeira hora (MD -2,26, IC 95% -3,35 a -1,17; 1 estudo; 40 mulheres; evidência de baixa qualidade). O TENS mais analgesia (versus placebo mais analgesia) pode reduzir a dor na primeira hora (SMD -1,10 EVA, IC 95% -1,37 a -0,82; 3 estudos; 238 mulheres; evidência de baixa qualidade) e com 24 horas (MD -0,70 EVA, IC 95% -0,87 a -0,53; 1 estudo; 108 mulheres; evidência de baixa qualidade).

O TENS mais analgesia (versus placebo mais analgesia) pode reduzir a frequência cardíaca (MD -7,00 bpm, IC 95% -7,63 a -6,37; 1 estudo; 108 mulheres; evidência de baixa qualidade) e a frequência respiratória (MD -1,10 mrpm, IC 95% -1,26 a -0,94; 1 estudo; 108 mulheres; evidência de baixa qualidade).

É incerto se o TENS mais analgesia (versus analgesia) tem algum efeito sobre a dor avaliada com seis ou 24 horas, ou sobre os sinais vitais, porque a qualidade da evidência é muito baixa (2 estudos, 92 mulheres).

Notas de tradução: 

Tradução do Cochrane Brazil (Maria Regina Torloni). Contato: tradutores@centrocochranedobrasil.org.br

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