Como se podem comparar em eficácia os diferentes tratamentos para a insuficiência de convergência?

Por que esta questão é importante?
A insuficiência de convergência é uma perturbação comum do sistema visual em que os olhos de uma pessoa tendem a desviar-se para fora quando se tenta focar um objecto de perto. Isto pode causar sensação de esforço visual, dores de cabeça, visão desfocada e visão dupla. Durante a leitura, as pessoas com insuficiência de convergência ficam confusas sobre onde estão a ler (perdendo o foco) ou têm de reler o texto.

Existem dois tipos principais de tratamento para a insuficiência de convergência: 1) óculos de leitura com lentes prismáticas, concebidos para melhorar o conforto visual, e 2) exercícios visuais concebidos para restaurar a função visual normal e melhorar o conforto visual.

São prescritos diferentes tipos de exercícios visuais para o tratamento da insuficiência de convergência que visam melhorar a capacidade de convergência da pessoa afetada (a capacidade dos olhos de se virarem para dentro quando se tenta focar para perto). O tratamento pode ser auto-administrado em casa usando apenas um lápis (exercícios de convergência com lápis) ou um programa de software de computador (terapêutica com apoio de computador em casa). Alternativamente, pode consistir numa sequência de atividades prescritas e monitorizadas individualmente pelo médico, administradas por técnicos especializados em ambiente de unidades de saúde (consultório ou hospital) e reforçados juntamente com a exercícios em casa (exercícios feitos em unidades de saúde com complemento em casa).

Foi revista a evidência científica para comparar a eficácia destes diferentes tratamentos (óculos de leitura prismáticos, exercícios em unidades de saúde complementados com exercícios feitos em casa, e terapêutica apenas em casa), e também para determinar se os tratamentos estão associados a efeitos adversos (indesejados).

Como encontrámos e avaliámos a evidência?
Primeiro, procurámos na literatura médica estudos aleatorizados e controlados (estudos clínicos em que as pessoas são colocadas aleatoriamente num de dois ou mais grupos de tratamento). Este tipo de estudos fornece a evidência mais robusta sobre os efeitos de um tratamento. Comparámos os resultados e resumimos as provas de todos os estudos. Finalmente, avaliámos a robustez da evidência, considerando fatores como a forma como os estudos foram conduzidos, o número de pessoas nos estudos, e a consistência dos resultados entre os estudos. Com base nas nossas avaliações, classificamos a evidência como sendo de certeza muito baixa, baixa, moderada, ou alta.

O que é que encontrámos?
Identificámos 12 estudos com um total de 1289 pessoas com insuficiência de convergência. Foram realizados seis estudos em crianças dos 7 aos 18 anos, cinco estudos em jovens adultos dos 15 aos 40 anos e um estudo em adultos com 40 anos ou mais. Os estudos duraram entre seis semanas e seis meses.

Resultados em crianças
Para melhorar a capacidade de convergência, evidência com grau de certeza elevado mostrou que exercícios realizados em unidades de saúde complementados com exercícios feitos em casa é melhor do que placebo, do que exercícios feitos em casa com ajuda de programa de computador e do que exercícios feitos em casa com lápis.

Para melhorar a capacidade de convergência, bem como os sintomas sentidos pelas crianças (tais como dores de cabeça ou dificuldade em seguir texto na leitura), evidência com grau de certeza baixo a moderado sugere que exercícios realizados em unidades de saúde complementados com exercícios feitos em casa é melhor do que placebo, do que exercícios feitos em casa com ajuda de programa de computador e do que exercícios feitos em casa com lápis.

Não é claro (a evidência tem grau de certeza baixo a moderado) se existe uma diferença para melhorar apenas a convergência, ou a convergência e os sintomas tal como relatados pelas crianças, entre exercícios feitos em casa com ajuda de programa de computador e entre exercícios feitos em casa com lápis, ou entre estes dois tratamentos domiciliários e o placebo.

Um estudo comparou óculos de leitura prismáticos com óculos de leitura placebo (sem graduação ou prisma), e não encontrou evidência de uma diferença na melhoria da convergência ou dos sintomas.

Resultados em adultos
Evidência proveniente de três estudos indicaram que exercícios feitos em unidades de saúde poderia ser mais eficaz do que o placebo para melhorar a convergência quando fosse medida de uma forma ("vergência de fusão positiva"), mas não quando medida de outra forma ("convergência de ponto próximo"). Não houve diferença entre tratamentos para alterações dos sintomas relatados por adultos.

Um estudo comparou óculos com lentes prismáticas e óculos placebo (sem prismas ou graduação), e sugeriu que adultos com óculos prismáticos tinham menos sintomas. No entanto, não havia evidência de diferença no que respeita a melhoria da convergência.

Existem alguns efeitos adversos do tratamento?
Nenhum estudo, em crianças ou adultos, relatou quaisquer efeitos adversos relacionados com tratamentos de estudo.

O que significam estes resultados?
Evidência com alto grau de certeza indica que a terapêutica com exercícios realizados em unidades de saúde complementada com exercícios em casa é mais eficaz do que exercícios feitos em casa com lápis, exercícios feito em casa com apoio de computador, e o placebo para tratar a insuficiência de convergência em crianças. Para os adultos, os efeitos comparativos destas intervenções são menos claros.

Quão atualizada está esta revisão?
Incluímos nesta Revisão Cochrane todos os estudos disponíveis até setembro de 2019.

Notas de tradução: 

Traduzido por Inês Leal, Serviço de Oftalmologia, Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte com o apoio da Cochrane Portugal

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