Contexto
Um cateter arterial é um tubo fino que pode ser inserido numa artéria para monitorizar a pressão arterial durante cirurgias complexas e durante internamentos em cuidados intensivos. A ecografia (um método de imagiologia que utiliza ondas sonoras para captar imagens em direto dos tecidos moles) pode ajudar os médicos a localizar a artéria e a inserir o cateter. Nas crianças, em particular, a ecografia pode reduzir a necessidade de múltiplas picadas de agulha, a ocorrência de hematoma (uma acumulação de sangue fora dos vasos sanguíneos) e danos na artéria, em comparação com outras técnicas, como a palpação da artéria (sentir o pulso através da pele) ou a assistência auditiva por Doppler (ouvir uma alteração para uma tonalidade mais aguda no local exato da artéria).
O que pretendíamos descobrir?
O nosso objetivo era saber se a ecografia oferece alguma vantagem em relação à palpação da artéria ou à assistência auditiva por Doppler. Especificamente, queríamos descobrir se a ecografia melhorava os seguintes resultados.
1. Com que frequência os médicos conseguem inserir o cateter com êxito na primeira tentativa
2. A ocorrência de complicações como hematomas e lesões causadas pela redução do fluxo sanguíneo
3. Com que frequência os médicos conseguem inserir o cateter com êxito nas duas primeiras tentativas
4. Com que frequência os médicos conseguem inserir o cateter com êxito após várias tentativas
5. O número médio de tentativas necessárias para inserir o cateter
6. Quanto tempo é necessário para inserir o cateter
O que fizemos?
Procurámos na literatura estudos clínicos controlados que comparassem a utilização de ecografia com as formas tradicionais de colocação de um cateter numa artéria em crianças com idade inferior a 18 anos. Comparámos e resumimos os resultados dos estudos e classificámos a nossa confiança na evidência com base em fatores como métodos e tamanhos dos estudos.
O que descobrimos?
Encontrámos nove estudos elegíveis: oito comparando ecografia com palpação e um comparando ecografia com assistência auditiva por Doppler. Sete estudos utilizaram a canulação da artéria radial e dois estudos utilizaram a canulação da artéria femoral. Quatro estudos não mencionavam qualquer fonte de financiamento e cinco estudos tinham fundos departamentais. Os estudos incluíram crianças com idades compreendidas entre um mês e 18 anos.
Resultados principais
Verificámos que a orientação por ecografia, em comparação com os métodos tradicionais, provavelmente aumenta a taxa de canulação bem sucedida na primeira tentativa, nas duas primeiras tentativas e após várias tentativas. A orientação por ecografia provavelmente reduz a ocorrência de hematoma, o número de tentativas necessárias para colocar com sucesso um cateter arterial e o tempo necessário para realizar uma canulação bem sucedida. As evidências sugerem que a ecografia é provavelmente superior para a inserção de cânulas arteriais em crianças e adolescentes, incluindo crianças muito pequenas.
Limitações da evidência
A nossa confiança na evidência é apenas moderada porque era impossível mascarar os médicos que realizavam a canulação (eles sabiam quais as crianças com em que a canulação era assistida por ecografia), e porque os estudos incluíram poucas crianças e relataram poucos eventos.
Quão atualizada se encontra esta evidência?
A evidência está atualizada até outubro de 2022.
Traduzido por Beatriz Leal, Serviço de Anestesiologia, Instituto Português de Oncologia de Lisboa, Lisboa, Portugal. Revisão final: Ricardo Manuel Delgado, Knowledge Translation Team, Cochrane Portugal.