Intervenções musicais para pessoas com lesões cerebrais adquiridas

Pergunta da revisão

Revisamos a evidência quanto aos efeitos das intervenções musicais nos resultados funcionais de adultos com lesões cerebrais adquiridas.

Introdução

Estudamos pessoas com dano cerebral adquirido, que é um problema cerebral estável (isto é, que provavelmente não vai piorar mais) causado por acidente ou doença (incluindo derrame). O dano cerebral adquirido pode causar dificuldades para a pessoa se movimentar, falar, ter sensações físicas, pensar ou sentir emoções. Qualquer um destes problemas reduzir muito a qualidade de vida da pessoa. Muitos novos tratamentos foram desenvolvidos para ajudar as pessoas a recuperarem funções perdidas e prevenir a depressão. As intervenções musicais envolvem o uso da música para ajudar na reabilitação. Os tratamentos específicos podem incluir o uso do ritmo para ajudar no movimento e na caminhada; tocar instrumentos musicais para melhorar o movimento; cantar para melhorar a qualidade da fala e da voz; ouvir música para melhorar a dor, o humor, ou o pensamento; e tocar e compor música para melhorar a sensação de bem-estar.

Características do estudo

Procuramos por pesquisas que testaram intervenções musicais associadas com cuidados habituais em adultos com lesões cerebrais adquiridas que estivessem fazendo reabilitação hospitalar ou na comunidade. Procuramos por estudos que avaliaram os efeitos das intervenções musicais sobre a capacidade de caminhar, mover-se, comunicar-se, pensar, as emoções, a dor e o bem-estar dos participantes. As intervenções incluíram movimentar-se ao som da música, cantar, ouvir música, compor, tocar instrumentos musicais, ou uma combinação destas atividades. Identificamos e incluímos na revisão 29 ensaios clínicos (um tipo de estudo) que envolveram 775 participantes adultos. Incluímos toda evidência disponível até junho de 2015.

Principais resultados

Os resultados sugerem que as intervenções musicais que usam o ritmo podem ser benéficas para melhorar a caminhada em pessoas com AVC, e isto pode melhorar sua qualidade de vida. As intervenções musicais podem melhorar a velocidade dos movimentos repetitivos dos braços e a comunicação em pessoas com AVC. As intervenções musicais que usam uma batida forte dentro da música podem ser mais eficazes do que intervenções que usam uma batida forte sem música. O tratamento ministrado por um terapeuta musical treinado pode ser mais eficaz do que o tratamento ministrado por outros profissionais. As informações eram insuficientes para avaliar os efeitos das intervenções musicais sobre outros desfechos. Nenhum dos estudos relatou efeitos nocivos da intervenção.

Qualidade da evidência

No geral, a qualidade da pesquisa foi baixa. Apenas um dos estudos incluídos na revisão tinha baixo risco de viés. A qualidade da evidência para velocidade da marcha e comprimento dos passos foi moderada. A qualidade da evidência para outros aspectos da caminhada foi baixa. A qualidade da evidência para a velocidade dos movimentos repetitivos dos braços foi muito baixa, assim como a qualidade da evidência para a comunicação global. A qualidade da evidência para qualidade de vida foi baixa. São necessários mais ensaios clínicos.

Conclusão dos autores: 

O uso de intervenções musicais pode ser benéfico para a marcha, o tempo de função dos membros superiores, desfechos de comunicação e qualidade de vida pós AVC. Estes resultados são encorajadores. Porém, antes que possam ser feitas recomendações para a prática clínica, é necessário fazer mais ensaios clínicos de alta qualidade e que avaliem todos os desfechos.

Leia o resumo na íntegra
Introdução: 

O dano cerebral adquirido (ABI) pode levar à deficiência na função motora, linguagem, cognição e processamento sensorial, e distúrbios emocionais. .Essas deficiências podem reduzir muito a qualidade de vida do sobrevivente. Intervenções musicais têm sido usadas na reabilitação para estimular as funções cerebrais envolvidas no movimento, cognição, fala, emoções, e percepções sensoriais. Uma atualização da revisão sistemática publicada em 2010 era necessária para avaliar a eficácia das intervenções musicais na reabilitação de pessoas com ABI.

Objetivos: 

Avaliar os efeitos das intervenções musicais sobre desfechos funcionais de pessoas com ABI. Ampliamos os critérios da revisão existente para: 1) avaliar a eficácia das intervenções musicais na recuperação de pessoas com ABI, incluindo marcha, função dos membros superiores, comunicação, humor e emoções, funcionamento cognitivo, habilidades sociais, dor, desfechos comportamentais, atividades da vida diária e eventos adversos; 2) comparar a eficácia das intervenções musicais mais cuidados habituais versus a) apenas cuidados habituais, b) cuidados habituais mais placebo, ou c) cuidados habituais mais outras terapias; 3) comparar a eficácia de diferentes tipos de intervenções musicais (musicoterapia ministrada por musicoterapeutas treinados versus intervenções musicais ministradas por outros profissionais).

Métodos de busca: 

Fizemos buscas nas seguintes bases de dados: Cochrane Stroke Group Trials Register (janeiro 2016), Cochrane Central Register of Controlled Trials (CENTRAL) (2015, Issue 6), MEDLINE (1946 a junho 2015), Embase (1980 a junho 2015), CINAHL (1982 a junho 2015), PsycINFO (1806 a junho 2015), LILACS (1982 a janeiro 2016), e AMED (1985 a junho 2015). Usamos várias estratégias para identificar estudos não publicados. Fizemos buscas manuais em periódicos e anais de congressos de musicoterapia. Fizemos buscas em repositórios de teses, em plataformas de registros de ensaios clínicos, e em listas de referências. Também contatamos especialistas relevantes e associações de musicoterapia para identificar pesquisas inéditas. Não houve restrição de idiomas. A busca original foi feita em 2009.

Critério de seleção: 

Incluímos todos os ensaios controlados aleatorizados e ensaios clínicos controlados que compararam intervenções musicais mais cuidados habituais versus apenas cuidados habituais ou combinados com outras terapias. Incluímos na revisão estudos com participantes com mais de 16 anos de idade que tinham ABI de natureza não degenerativa e participavam de programas de tratamento oferecidos em hospitais, ambulatórios ou na comunidade. Incluímos estudos em qualquer idioma, publicados ou não publicados.

Coleta dos dados e análises: 

Dois autores da revisão, trabalhando de forma independente, extraíram os dados e avaliaram o risco de viés dos estudos incluídos. Contatamos os autores dos estudos primários para obter dados faltantes ou para obter informações adicionais quando necessário. Sempre que possível, para desfechos contínuos, apresentamos resultados combinados em metanálises usando diferenças médias (MDs) e diferenças médias padronizadas (SMDs). Avaliamos as diferenças nos escores pós-intervenção. Nos casos com diferenças basais significativas, utilizamos as diferenças da mudança entre os escores basais e pós-intervenção. Fizemos uma análise de sensibilidade para avaliar o impacto do método de randomização usado.

Principais resultados: 

Incluímos nesta atualização 22 novos estudos. A evidência para esta versão da revisão se baseia em 29 ensaios clínicos que envolveram 775 participantes. O uso da intervenção musical conhecida como estimulação auditiva rítmica pode melhorar diversos parâmetros de marcha após o AVC. A intervenção promove um aumento na velocidade de marcha de 11,34 metros por minuto, intervalo de confiança (IC) de 95% 8,40 a 14,28, 9 estudos, 268 participantes, P < 0,00001, evidência de qualidade moderada. O comprimento do passo do lado afetado também pode se beneficiar com essa intervenção. O aumento médio é de 0,12 metros a mais, IC 95% 0,04 a 0,20, 5 estudos, 129 participantes, P = 0,003, evidência de qualidade moderada. A intervenção promoveu um aumento médio na marcha geral de 7,67 unidades na escala Dynamic Gait Index (IC 95% 5,67 a 9,67; 2 estudos; 48 participantes; P < 0,00001). Também pode haver uma melhoria na cadência da marcha, com um aumento médio de 10,77 passos por minuto (IC 95% 4,36 a 17,18; 7 estudos; 223 participantes; P = 0,001; evidência de baixa qualidade).

As intervenções musicais podem melhorar o tempo da volta da função dos membros superiores após o AVC, como uma redução de 1,08 segundos no Wolf Motor Function Test (IC 95% -1,69 a -0,47; 2 estudos; 122 participantes; evidência de qualidade muito baixa).

As intervenções musicais podem melhorar os desfechos de comunicação em pacientes com afasia pós AVC. No geral, a comunicação melhorou em 0,75 desvios padrão no grupo intervenção, um efeito moderado (IC 95% 0,11 a 1,39; 3 estudos; 67 participantes; P = 0,02; evidência de qualidade muito baixa). Houve melhora de 9,79 unidades no teste de nomeação de Aachen Aphasia (IC 95% 1,37 a 18,21; 2 estudos; 35 participantes; P = 0,02). As intervenções musicais podem melhorar a repetição da fala. O efeito foi um aumento médio de 8,90 no teste de Afasia de Aachen (IC 95% 3,25 a 14,55; 2 estudos; 35 participantes; P = 0,002).

A estimulação auditiva rítmica pode melhorar a qualidade de vida pós AVC. Houve um aumento de 0,89 desvios padrão na Stroke Specific Quality of Life Scale, o que é considerado um grande efeito (IC 95% 0,32 a 1,46; 2 estudos; 53 participantes; P = 0,002; evidência de baixa qualidade). Não encontramos evidência forte do efeito da musicoterapia sobre memória e atenção. Os dados foram insuficientes para avaliar o efeito das intervenções musicais sobre outros desfechos.

Como a maioria dos estudos incluídos nesta revisão atualizada tinha um alto risco de viés, a qualidade da evidência é baixa.

Notas de tradução: 

Tradução do Cochrane Brazil (Maria Regina Torloni). Contato: tradutores@centrocochranedobrasil.org.br

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