Autocuidado para pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica

Introdução

Os sintomas das pessoas que sofrem de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) tendem a piorar com o passar dos anos. Isso contribui para a piora do bem-estar desses pacientes. No mundo das pesquisas científicas, "bem-estar" é chamado de "qualidade de vida relacionada à saúde". O treinamento para o autocuidado consiste no ensino de habilidades e comportamentos para que o próprio paciente consiga cuidar melhor da sua doença. O treinamento em autocuidado está se tornando cada vez mais importante no tratamento da DPOC. Porém, ainda existe discussão sobre qual é a forma de treinamento mais efetiva. Por esse motivo, nós revisamos as evidências sobre os efeitos do autocuidado na qualidade de vida relacionada à saúde e no uso dos serviços de saúde dos pacientes com DPOC. As evidências que revisamos foram publicadas até agosto de 2011.

Características dos estudos

Nesta revisão, nós analisamos 29 estudos que avaliaram os efeitos do autocuidado. Os pacientes desses estudos foram acompanhados durante 2 até 24 meses. A maioria (23) desses estudos comparou pacientes que receberam treinamento em autocuidado com um grupo controle que recebeu cuidado usual; esses 23 estudos incluíram 3189 pacientes. Os outros 6 estudos compararam grupos de pacientes que receberam diferentes treinamentos em autocuidado. O conteúdo e a duração dos programas de autocuidado foram diversos.

Resultados principais

A análise dos estudos revelou que o treinamento em autocuidado melhorou a qualidade de vida relacionada à saúde dos pacientes com DPOC quando comparados com os participantes que receberam cuidados habituais. Além disso, o número de pacientes com pelo menos uma hospitalização causada por doenças pulmonares ou outras causas diminuiu no grupo que recebeu o treinamento em autocuidado. Esses pacientes também tiveram menos queixas de falta de ar. Nós encontramos estudos que compararam diferentes tipos de intervenções de autocuidado entre si. Esperávamos que esses estudos nos ajudassem a identificar os componentes mais efetivos do autocuidado. Porém, todas as intervenções de treinamento eram diferentes e nós não conseguimos identificar os aspectos chave dessas intervenções.

Os estudos encontrados nesta revisão eram diferentes. O conteúdo e a duração dos treinamentos em autocuidados variavam bastante entre os diversos estudos, assim como os tipos de participantes. Por esses motivos, por enquanto, não é possível fazer nenhuma recomendação específica sobre qual seria a forma de treinamento em autocuidado mais efetiva para pessoas com DPOC.

Conclusão dos autores: 

As intervenções de autocuidado em pacientes com DPOC estão associadas com melhora da qualidade de vida relacionada à saúde, medida pelo SGRQ; redução de internações por motivos respiratórios e outros motivos e melhora da dispneia medida pelo MRC modificado. Não houve diferença estatisticamente significante nos outros desfechos. Porém, devido à heterogeneidade dos estudos em relação as intervenções, os participantes, os tempos de seguimento e as medidas dos desfechos, não foi possível formular recomendações claras sobre quais seriam os formatos e conteúdos dos treinamentos mais efetivos em autocuidados no DPOC.

Leia o resumo na íntegra...
Contexto: 

Intervenções de autocuidado ajudam os pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) a adquirir e praticar habilidades necessárias para seguir esquemas de tratamento específicos para sua doença e promover mudanças de comportamento. Além disso, as intervenções de autocuidados ensinam os pacientes a desenvolver habilidades emocionais que os ajudam a controlar sua própria doença. Depois da primeira atualização desta revisão, em 2007, muitos estudos foram publicados. Os resultados da segunda atualização são aqui apresentados.

Objetivos: 

1. Avaliar se intervenções de autocuidado em DPOC levam a melhora de desfechos em saúde.

2. Avaliar se intervenções de autocuidado em DPOC levam a redução da necessidade de serviços de saúde.

Estratégia de busca: 

Pesquisamos o Registro Especializado de ensaios clínicos do Cochrane Airways Group (até agosto de 2011).

Critérios de seleção: 

Foram incluídos estudos controlados (randomizados ou não randomizados) publicados depois de 1994, que avaliaram a eficácia de intervenções de autocuidado para pacientes com DPOC. Foram excluídas as intervenções com menos de dois momentos de contato entre os participantes e os profissionais de saúde.

Coleta dos dados e análises: 

Dois autores desta revisão avaliaram de forma independente a qualidade dos estudos e extraíram os dados. Os autores dos estudos primários foram contatados para informações adicionais. Os resultados dos estudos foram combinados usando o modelo de efeito randômico, quando a combinação fazia sentido. Os desfechos primários da revisão foram qualidade de vida relacionada a saúde (HRQoL) e número de internações hospitalares.

Resultados principais: 

Incluímos 29 estudos: 23 estudos (3.189 participantes) compararam autocuidado versus cuidado usual; 6 estudos (499 participantes) compararam diferentes tipos de autocuidado entre si. Apesar de termos incluído ensaios clínicos randomizados e estudos controlados não randomizados nesta revisão, nós restringimos as análises primárias apenas aos ensaios clínicos randomizados. Apenas esses tipos de estudos foram descritos no resumo.

O período de seguimento dos 23 estudos com grupo controle de cuidado habitual variou de 2 até 24 meses. As intervenções tinham conteúdos diversos. A intervenção de autocuidado produziu um efeito estatisticamente significativo sobre a qualidade de vida relacionada à saúde (escore no St. George's Respiratoty Questionnaire, SGRQ, diferença média, MD, de -3,51, intervalo de confiança de 95%, 95% CI, de -5,37 a -1,65, 10 estudos, 1.413 participantes, evidência de qualidade moderada). O autocuidado também levou a menor probabilidade de hospitalização relacionada a sintomas respiratórios (odds ratio, OR, 0,57, 95% CI 0,43 a 0,75, 9 estudos,1.749 participantes, evidência de qualidade moderada) e hospitalização por qualquer causa (OR 0,60; 95% CI 0,40 a 0,89 , 6 estudos, 1.365 participantes, evidência de qualidade moderada). Ao longo de um ano de seguimento, foi necessário tratar 8 (95% CI 5 a 14) participantes de alto risco para hospitalização por motivos respiratórios para prevenir pelo menos uma internação de 1 participante, e 20 (95% CI 15 a 35) participantes de baixo risco para prevenir pelo menos 1 internação de 1 participante.

Não foi encontrado efeito estatisticamente significativo do autocuidado na mortalidade (OR 0,79, 95% CI 0,58 a 1,07, 8 estudos, 2.134 participantes, evidência de qualidade muito baixa). A dispneia, medida pela escala do Medical Research Council Scale modificada ((m)MRC), foi menor nos participantes do grupo de autocuidado (MD -0,83, 95% CI -1,36 a -0,30, 3 estudos,119 participantes, evidência de qualidade baixa). Não houve diferença estatisticamente significante na capacidade de fazer exercícios, medida pelo teste de caminhada de 6 minutos, (MD 33,69 m, 95% CI -9,12 a 76,50, 6 estudos, 570 participantes,evidência de qualidade muito baixa). A análise de subgrupos avaliando os programas de autocuidado que incluíam exercícios, não revelou diferença estatisticamente significativa entre os estudos no desfecho primário de qualidade de vida relacionada à saúde e internações hospitalares relacionadas a sintomas respiratórios.

Não foi possível combinar os resultados dos estudos que compararam intervenções diferentes caso devido à heterogeneidade entre as intervenções e controles. Portanto, os resultados desses estudos foram apresentados nesta revisão de forma narrativa.

Notas de tradução: 

Tradução do Centro Cochrane do Brasil (Carolina de Oliveira Cruz)

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