Questão da revisão
Serão os videojogos um tratamento eficaz (por si só ou de forma complementar) a fim de melhorar o bem-estar e o funcionamento das pessoas com esquizofrenia ou perturbação esquizoafetiva?
Contexto
A esquizofrenia é uma doença mental grave que afeta pessoas por todo o mundo. As pessoas com esquizofrenia têm frequentemente uma visão distorcida da realidade - percecionando coisas que não estão presentes (alucinações) e acreditando em coisas que não são verdadeiras (delírios). As pessoas com esquizofrenia podem ter dificuldade em se auto-motivar, experienciar ansiedade e depressão, e apresentar sintomas cognitivos, tendo frequentemente dificuldade em se manter concentradas nas atividades do dia-a-dia e desorientando-se. As alucinações e os delírios são habitualmente tratados com medicamentos antipsicóticos, enquanto que os outros sintomas podem ser difíceis de gerir apenas com medicação isoladamente.
As terapias psicológicas são por vezes utilizadas em conjunto com a medicação para ajudar a tratar alguns sintomas da esquizofrenia. No entanto, estas terapias podem ser complexas e financeiramente dispendiosas. Os videojogos são um tratamento relativamente pouco dispendioso e, para muitos, cativante. Estes foram propostos como potencial ajuda para melhorar as disfunções cognitivas, como a falta de concentração ou o défice de memória, que frequentemente apresentam as pessoas com esquizofrenia. Se eficazes, os videojogos poderão providenciar um tratamento adicional simples e relativamente barato para as pessoas com esquizofrenia.
Pesquisa
Procurámos ensaios clínicos controlados e aleatorizados (um tipo de estudo em que os participantes são atribuídos a um de dois ou mais grupos de tratamento através de um método aleatório) que envolvessem pessoas com esquizofrenia a receber ora uma intervenção com o uso de videojogos, ora outro tipo de tratamento, como terapia (cognitiva) ou placebo (tratamento simulado). Realizámos a pesquisa em março de 2017, agosto de 2018 e agosto de 2019.
Resultados
Sete ensaios preencheram os nossos critérios de inclusão e forneceram dados viáveis. As intervenções com o uso de videojogos foram classificadas em intervenções que envolviam movimentos do corpo ("exergames") e intervenções que não envolviam estes movimentos ("não-exergames"). Os ensaios que utilizaram «não-exergames» compararam a intervenção com videojogos com uma forma de terapia de "treino cerebral", conhecida como reabilitação cognitiva. Um ensaio comparou os «exergames» ao tratamento habitual e outro ensaio comparou os «não-exergames» com os «exergames». Todas as intervenções dos ensaios clínicos incluídos foram administradas em complementaridade aos cuidados habituais.
A evidência atualmente disponível sugere que os «não-exergames» podem não ser tão benéficos para o funcionamento cognitivo como a reabilitação cognitiva, mas não existiram outras diferenças evidentes entre os «não-exergames» e a reabilitação cognitiva na melhoria do funcionamento em pessoas com esquizofrenia. Os videojogos mais dirigidos para o exercício físico podem ter algum benefício, em comparação com o tratamento habitual, na melhoria da aptidão física. Não podemos retirar nenhuma conclusão significativa relativamente aos efeitos dos videojogos até que evidência de maior qualidade esteja disponível.
Traduzido por: Tania Rebelo Clemente, Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental da Infância e Adolescência, ULS Santa Maria, e por Bárbara Mouta Pereira, Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental da Infância e Adolescência, ULS Santa Maria. Revisão final: Ricardo Manuel Delgado, Knowledge Translation Team, Cochrane Portugal.