Mensagens-chave
1. Devido à evidência limitada, permanece pouco claro se algum material ou calibre de arco inicial é superior a outro.
2. São necessários estudos de grande dimensão e bem delineados. Devem medir a velocidade de alinhamento e os efeitos secundários.
O que é um aparelho ortodôntico fixo?
O objetivo do tratamento ortodôntico é corrigir dentes apinhados, rodados, inclusos ou protruídos. As pessoas que recebem tratamento ortodôntico são, geralmente, adolescentes ou adultos. Os aparelhos ortodônticos fixos consistem em brackets colados aos dentes e ligados entre si por arcos ortodônticos, que exercem forças sobre os dentes para os alinhar ou deslocar.
O que é o arco inicial?
O primeiro arco (inicial) é inserido nos brackets no início do tratamento ortodôntico. Desde a década de 1970, foram desenvolvidos vários novos tipos de arcos iniciais, que apresentam diferentes propriedades em ambiente laboratorial e que, segundo os fabricantes, oferecem benefícios em termos de alinhamento dentário. Os novos materiais para os arcos iniciais incluem várias misturas (ligas) de níquel e titânio (NiTi).
O que pretendíamos descobrir?
Pretendíamos identificar o melhor tipo de arco inicial a utilizar pelos ortodontistas para corrigir dentes apinhados e rodados. A nossa revisão avaliou se diferentes tipos (materiais, calibres ou formas) de arcos iniciais resultam em diferenças clinicamente relevantes, incluindo um alinhamento dentário mais rápido (velocidade de alinhamento, medida como o movimento dentário ao longo do tempo) e a redução de efeitos adversos (por exemplo, dor e encurtamento da raiz dentária) durante o tratamento com aparelhos ortodônticos.
O que fizemos?
Procurámos estudos que comparassem diferentes tipos (materiais, calibres ou formas) de arcos iniciais em pessoas com aparelhos ortodônticos na arcada superior, na arcada inferior ou em ambas. Comparámos e sintetizámos os seus resultados e avaliámos a nossa confiança na evidência com base em fatores como os métodos e a dimensão dos estudos.
O que encontrámos?
Identificámos 29 estudos que envolveram 1.915 pessoas e utilizaram 2.581 arcos iniciais. O maior estudo incluiu 200 participantes e o estudo mais pequeno incluiu 14 participantes. A duração dos estudos variou entre três dias e seis meses. Onze estudos tiveram financiamento. Os estudos diferiram em vários aspetos do tratamento ortodôntico, compararam diferentes materiais e diferentes calibres de arcos iniciais e reportaram resultados distintos em diferentes momentos de avaliação.
Resultados principais
1. Fios de aço inoxidável trançados versus fios constituídos por outros materiais (6 estudos): não sabemos se os fios de aço inoxidável trançados são melhores do que os fios fabricados com outros materiais no que respeita à velocidade de alinhamento. Poderá existir pouca ou nenhuma diferença entre os fios de aço inoxidável trançados e outros fios no que respeita à dor.
2. Fios de NiTi convencionais versus fios de NiTi superelásticos (4 estudos): poderá existir pouca ou nenhuma diferença entre os dois tipos de fios quanto ao seu efeito na velocidade de alinhamento e na dor.
3. Fios de NiTi convencionais versus fios termodinâmicos de cobre–níquel–titânio (3 estudos): não sabemos se existe alguma diferença entre os dois tipos de arcos ortodônticos no que respeita à velocidade de alinhamento.
4. Fios de NiTi superelásticos versus fios de NiTi termodinâmicos (12 estudos): poderá existir pouca ou nenhuma diferença entre os fios de NiTi superelásticos e os fios de NiTi termodinâmicos quanto à velocidade de alinhamento. Não sabemos se existe diferença entre os dois tipos de fios no que respeita ao encurtamento da raiz dentária. Os fios de NiTi superelásticos, em comparação com os fios de NiTi termodinâmicos, poderão demorar ligeiramente mais tempo a alinhar os dentes e são provavelmente ligeiramente mais dolorosos.
5. Fios de NiTi superelásticos monofilamentados versus fios coaxiais superelásticos de NiTi (3 estudos): durante as primeiras quatro semanas após a inserção dos arcos iniciais, a velocidade de alinhamento é provavelmente mais lenta com fios de NiTi superelásticos monofilamentados, em comparação com fios coaxiais superelásticos de NiTi.
6. Diferentes tamanhos de fios de NiTi (2 estudos): pode haver pouca ou nenhuma diferença entre diferentes tamanhos de fios de NiTi em termos de dor.
Quais são as limitações da evidência?
A nossa confiança na evidência é limitada porque os resultados dos estudos variaram muito e muitos estudos envolveram poucas pessoas. Alguns estudos não descreveram claramente a forma como foram conduzidos, nem se os participantes sabiam quem tinha recebido que tipo de arco ortodôntico, o que poderia ter influenciado os resultados do estudo.
Quão atualizada se encontra a evidência?
A evidência encontra-se atualizada até 4 de julho de 2022. Esta é uma atualização de uma revisão publicada pela primeira vez em 2010 e atualizada pela última vez em 2018.
Ler o resumo científico
Os arcos iniciais são os primeiros arcos inseridos no aparelho fixo no início do tratamento ortodôntico. Com a disponibilidade de vários tipos diferentes de arcos ortodônticos para o alinhamento dentário inicial, é importante compreender quais são os mais eficientes e quais causam menor grau de reabsorção radicular e dor durante a fase de alinhamento inicial. Esta é a terceira atualização de uma revisão Cochrane publicada pela primeira vez em 2010.
Objetivos
Avaliar os efeitos dos arcos iniciais para o alinhamento dos dentes com aparelhos ortodônticos fixos, em termos da taxa de alinhamento dentário, da quantidade de reabsorção radicular que acompanha o movimento dentário e da intensidade da dor sentida pelos pacientes durante a fase de alinhamento inicial.
Métodos de busca
Pesquisámos no Cochrane Oral Health's Trials Register, CENTRAL, MEDLINE, Embase e dois registos de ensaios em curso em 4 de julho de 2022.
Critério de seleção
Foram incluídos ensaios clínicos aleatorizados (ECAs) de diferentes arcos iniciais utilizados para alinhar os dentes com aparelhos ortodônticos fixos. Foram incluídos indivíduos com aparelhos ortodônticos fixos de arco completo na arcada superior, na arcada inferior ou em ambas.
Coleta dos dados e análises
Dois revisores independentes foram responsáveis pela seleção dos estudos, extração de dados e avaliação do risco de viés dos estudos incluídos. Contactámos os autores correspondentes dos estudos incluídos para obter informações em falta. As divergências foram resolvidas por discussão entre os autores da revisão.
Os nossos desfechos primários foram a taxa de alinhamento (movimento dos dentes em mm), a reabsorção radicular, o tempo para o alinhamento e a intensidade da dor medida numa escala visual analógica (VAS) de 100 mm. Agrupámos dados de estudos com intervenções e resultados semelhantes utilizando modelos de efeitos aleatórios. Apresentámos diferenças médias (DMs) com intervalos de confiança (ICs) de 95% para dados contínuos, razões de risco (RRs) com ICs de 95% para dados dicotómicos e razões de taxa de alinhamento com ICs de 95% para dados de tempo até ao evento.
Dois autores da revisão avaliaram o grau de certeza da evidência, de forma independente. As divergências foram resolvidas por discussão entre os autores da revisão.
Principais resultados
Incluímos 29 ECAs com 1.915 participantes (2.581 arcos) nesta revisão. Os estudos eram geralmente pequenos (as dimensões das amostras variavam entre 14 e 200 participantes). A duração do acompanhamento variou entre três dias e seis meses. Onze estudos receberam financiamento, seis não receberam financiamento e 12 não forneceram informações sobre as fontes de financiamento. Classificámos oito estudos com alto risco de viés, nove com baixo risco, e 12 com risco incerto. Agrupámos os estudos em seis comparações principais.
Fios de aço inoxidável trançados versus fios compostos por outros materiais
Seis estudos com 409 participantes (545 arcadas) avaliaram fios de aço inoxidável (AI) trançados versus fios compostos por outros materiais. Estamos muito incertos sobre o efeito dos fios AI trançados versus outros fios na taxa de alinhamento (4 estudos, 281 participantes, 417 arcos; evidência de certeza muito baixa). Poderá existir pouca ou nenhuma diferença entre os fios de aço inoxidável trançados e outros fios no que respeita à intensidade da dor (DM −2,68 mm; IC 95% −6,75 a 1,38; 2 estudos, 127 participantes, 127 arcos; evidência de baixa certeza).
Fios de níquel-titânio convencionais versus fios de níquel-titânio superelásticos
Quatro estudos, com 266 participantes (274 arcos), avaliaram fios de níquel-titânio (NiTi) convencionais em comparação com fios de NiTi superelásticos. Poderá existir pouca ou nenhuma diferença entre os diferentes tipos de fios no que respeita à taxa de alinhamento (124 participantes, 124 arcos, 2 estudos; evidência de baixa certeza) e à intensidade da dor (DM −0,29 mm; IC 95% −1,10 a 0,52; 2 estudos, 142 participantes, 150 arcos; evidência de baixa certeza).
Fios de níquel-titânio convencionais versus fios termodinâmicos de cobre–níquel–titânio
Três estudos, com 210 participantes (210 arcos), avaliaram fios de NiTi convencionais em comparação com fios termodinâmicos de cobre–níquel–titânio (CuNiTi). Temos muita incerteza quanto aos efeitos dos diferentes arcos ortodônticos na taxa de alinhamento (1 estudo, 66 participantes, 66 arcos; evidência de certeza muito baixa). Poderá existir pouca ou nenhuma diferença entre os fios de NiTi convencionais e os fios termodinâmicos de CuNiTi no que respeita ao tempo até ao alinhamento (razão da taxa de alinhamento 1,30; IC 95% 0,68–2,50; 1 estudo, 60 participantes, 60 arcos; evidência de baixa certeza).
Fios de níquel-titânio superelásticos versus fios de níquel-titânio termodinâmicos
Doze estudos, com 703 participantes (936 arcos), avaliaram fios de NiTi superelásticos em comparação com fios de NiTi termodinâmicos. Poderá existir pouca ou nenhuma diferença entre os fios de NiTi superelásticos e os fios de NiTi termodinâmicos na taxa de alinhamento às quatro semanas (DM −0,28 mm; IC 95% −0,62 a 0,06; 5 estudos, 183 participantes, 183 arcos; evidência de baixa certeza). Temos muita incerteza quanto aos efeitos dos diferentes fios na reabsorção radicular (2 estudos, 52 participantes, 312 dentes; evidência de certeza muito baixa). A utilização de fios de NiTi superelásticos, em comparação com fios de NiTi termodinâmicos, poderá resultar num ligeiro aumento do tempo até ao alinhamento (DM 0,5 meses; IC 95% 0,21–0,79; 1 estudo, 32 participantes, 32 arcos; evidência de baixa certeza), mas está provavelmente associada a um ligeiro aumento da intensidade da dor (DM 6,96 mm; IC 95% 1,82–12,10; 3 estudos, 94 participantes, 138 arcos; evidência de certeza moderada).
Fios superelásticos de níquel-titânio monofilamentados versus fios coaxiais superelásticos de níquel-titânio
Três estudos, com 104 participantes (104 arcos), avaliaram fios de NiTi superelásticos monofilamentados em comparação com fios de NiTi coaxiais superelásticos. O uso de fios superelásticos de NiTi monofilamentados em comparação com fios coaxiais superelásticos de NiTi provavelmente resulta numa ligeira redução na taxa de alinhamento em quatro semanas (MD -2,64 mm, 95% CI -4,61 a -0,67; 2 estudos, 64 participantes, 64 arcos, evidência de qualidade moderada).
Diferentes tamanhos de fios de níquel-titânio
Dois estudos com 149 participantes (232 arcadas) compararam diferentes tipos de fios NiTi. Poderá existir pouca ou nenhuma diferença entre diferentes calibres de fios de NiTi no que respeita à dor (evidência de baixa certeza).
Conclusão dos autores
Os fios de NiTi superelásticos produzem provavelmente ligeiramente mais dor após um dia do que os fios de NiTi termodinâmicos, e os fios de NiTi superelásticos monofilamentados apresentam provavelmente uma taxa de alinhamento inferior ao longo de quatro semanas quando comparados com fios coaxiais superelásticos de NiTi. Toda a restante evidência relativa à taxa de alinhamento, reabsorção radicular, tempo até ao alinhamento e dor apresenta baixa ou muito baixa certeza em todas as comparações. Assim, a evidência é insuficiente para determinar se algum material ou calibre específico de arco ortodôntico é superior a outro. Os resultados desta revisão são imprecisos e pouco fiáveis; são necessários estudos de maior dimensão e bem concebidos para fornecer estimativas mais robustas dos benefícios e riscos dos diferentes arcos ortodônticos. Os ortodontistas devem ter cuidado ao interpretar os resultados desta revisão e estar preparados para adaptar os seus planos de tratamento com base nas necessidades individuais dos pacientes.
Traduzido por: Carlota Duarte de Mendonça, Bruno Rosa, Joana Faria Marques, João Silveira e António Mata, Centro de Estudos de Medicina Dentária Baseada na Evidência, Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa. Revisão final: Ricardo Manuel Delgado, Knowledge Translation Team, Cochrane Portugal.