A utilização de dispositivos para preservar rins de dador cadáver antes da transplantação

Qual é o problema?

A transplantação renal é o melhor tratamento para doentes com doença renal crónica estádio 5. No entanto, não existem órgãos suficientes de dador vivo para as necessidades. Além disso, durante o período no qual o enxerto renal (rim do dador) se encontra fora do corpo humano ocorre défice de oxigenação e a ausência de circulação sanguínea permite que se formem pequenos coágulos, os quais danificam o enxerto renal. Este tipo de lesão constitui uma limitação importante da transplantação renal dado tornar vários órgãos inutilizáveis e encontrar-se ainda associada a diminuição da sobrevida dos rins transplantados. Tradicionalmente os rins são conservados em gelo (vulgarmente designada preservação estática em frio). Os dispositivos que permitem bombear soluções frias (perfusão hipotérmica) ou aquecidas (perfusão normotérmica) através de enxertos renais têm como objetivo diminuir a lesão que ocorre durante o transporte e melhorar os resultados obtidos com estes órgãos.

O que fizemos?

Realizámos uma pesquisa rigorosa de estudos comparando perfusão hipotérmica, perfusão normotérmica e preservação estática em frio. Os dados dos estudos selecionados foram combinados de modo a permitir esta análise. O nosso resultado primário foi a taxa de função tardia do enxerto (o número de doentes que necessitaram de realizar diálise na primeira semana após a cirurgia de transplantação renal). O nosso resultado secundário foi a sobrevida renal a um ano (o número de rins transplantados funcionantes um ano após a cirurgia de transplantação renal).

O que descobrimos?

Foram incluídos dezasseis estudos (2266 participantes) comparando perfusão hipotérmica com preservação estática em frio. A utilização de perfusão hipotérmica em vez de preservação estática em frio reduz o risco de função tardia do enxerto em aproximadamente 23%. Em dois estudos, realizados nos Estados Unidos da América e na Europa, foi realizada análise económica e ambos estimaram que a utilização de perfusão hipotérmica permite diminuir custos. Dois estudos reportaram que a perfusão hipotérmica prolonga a quantidade de tempo que os enxertos renais permanecem funcionantes no recetor, mas não nos foi possível realizar uma análise que confirmasse esta informação. O efeito da perfusão hipotérmica noutros resultados (incidência de rejeição aguda, sobrevida do doente, duração de internamento, sobrevida do enxerto, duração da função tardia do enxerto) permanece incerto.

Apesar de se encontrar a decorrer um estudo sobre perfusão normotérmica, não identificámos nenhum estudo sobre este tema que já tivesse terminado.

Conclusões

Comparativamente à preservação estática em frio, a perfusão hipotérmica reduz a taxa de função tardia do enxerto em rins de dador cadáver e provavelmente aumenta a sobrevida do rim transplantado e reduz os custos totais. São necessários estudos que avaliem a perfusão normotérmica de modo a avaliar se a sua utilização apresenta resultados superiores.

Notas de tradução: 

Traduzido por: Miguel Bigotte Vieira, Serviço de Nefrologia e Transplantação Renal, Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte; Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência, Faculdade de Medicina, Universidade de Lisboa, com o apoio da Cochrane Portugal

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