Exercícios de resistência (como levantamento de peso) para fibromialgia

Pergunta da pesquisa

Quais são os efeitos dos exercícios de resistência sobre o bem-estar, os sintomas e o condicionamento físico de pessoas com fibromialgia e quais são os efeitos adversos desse tipo de treinamento?

Introdução

Que tipos de problemas são causados pela fibromialgia? As pessoas com fibromialgia têm dores crônicas generalizadas, e muitas vezes queixam-se de fadiga (cansaço), rigidez, depressão e problemas para dormir.

O que é o treinamento de resistência? O treinamento de resistência é um tipo de exercício que envolve levantar pesos, ou a utilização de máquinas ou faixas elásticas que proporcionam resistência ao movimento.

- Esta revisão só incluiu programas de treinamento de resistência supervisionados por um profissional treinado.

- Comparamos o treinamento de resistência versus nenhum exercício ou outros tipos de exercício.

Características do estudo

Procurarmos por todos os estudos sobre esse tema que haviam sido publicados até março de 2013. Encontramos 5 estudos envolvendo 219 mulheres com fibromialgia. Um total de 95 mulheres fizeram treinamento de resistência.

Apenas três estudos analisaram o bem-estar, os sintomas e o condicionamento físico de 54 mulheres com fibromialgia que fizeram treinamento de resistência versus 53 mulheres com fibromialgia que não fizeram treinamento de resistência.

As 54 mulheres com fibromialgia que fizeram o treinamento de resistência:

- fizeram sessões supervisionadas de treinamento de resistência utilizando aparelhos de exercício, pesos livres, e seu próprio peso corporal

- fizeram o treinamento 2 a 3 vezes por semana

- fizeram o treinamento por 16 a 21 semanas.

Resultados-chave: o que aconteceu com as mulheres com fibromialgia que fizeram o treinamento de resistência por 16 a 21 semanas em comparação com aquelas que não fizeram o treinamento de resistência durante este período de tempo?

Bem-estar geral (função multidimensional) em uma escala de 0 a 100 unidades

As mulheres que fizeram o treinamento de resistência relataram um aumento de 25 unidades no seu bem-estar, enquanto as mulheres que não fizeram o treinamento de resistência relataram um aumento de 8 unidades.

Assim, ao final dos estudos, a pontuação de bem-estar das mulheres que fizeram o treinamento de resistência foi 17 pontos maior do que a pontuação daquelas que não fizeram esse treinamento.

Função física (capacidade de fazer atividades normais) em uma escala de 0 a 100 unidades

As mulheres que fizeram o treinamento de resistência relataram um aumento de 8 unidades na sua capacidade de fazer atividades normais, enquanto as mulheres que não fizeram o treinamento relataram um aumento de 2 unidades.

Assim, ao final dos estudos, a pontuação de capacidade funcional das mulheres que fizeram o treinamento de resistência foi 6 pontos maior do que a pontuação daquelas que não fizeram o treinamento.

Dor em uma escala de 0 a 10 unidades

As mulheres que fizeram o treinamento de resistência relataram uma melhora da de 3,5 unidades na sua dor enquanto as mulheres que não fizeram o treinamento relataram uma melhora de 1 unidade.

Assim, ao final dos estudos, a pontuação de dor das mulheres que fizeram o treinamento de resistência foi 2,5 unidades melhor do que a pontuação das mulheres que não fizeram o treinamento.

Sensibilidade estimada pelo número de pontos (em 18) percebidos como dolorosos com 4 quilos de pressão

As mulheres que fizeram o treinamento de resistência tinham 4 pontos sensíveis a menos, enquanto as mulheres que não fizeram o treinamento tinham 2 pontos sensíveis a menos.

Assim, no final dos estudos, as mulheres que fizeram o treinamento de resistência tinham 2 pontos dolorosos a menos do que aquelas que não fizeram o treinamento.

Força muscular

As mulheres que fizeram o treinamento de resistência conseguiram levantar 28 quilos a mais, enquanto as mulheres que não fizeram o treinamento conseguiram levantar 1 kg a mais.

Assim, no final dos estudos, as mulheres que fizeram o treinamento de resistência conseguiram levantar 27 quilos a mais do que aquelas que não fizeram o treinamento.

Desistência (número de mulheres que resolveram abandonar os estudos para cada 100 participantes)

Treze mulheres nos grupos de treinamento de resistência desistiram enquanto 4 mulheres nos grupos que não fizeram o treinamento desistiram.

Portanto, para cada 100 participantes, houve 9 mulheres a mais que desistiram nos grupos de treinamento de resistência do que nos grupos sem esse tipo de treinamento.

Conclusões

Para as mulheres com fibromialgia, o treinamento de resistência por 16 a 21 semanas provavelmente melhora

- sua capacidade de fazer atividades habituais

- sua dor, sensibilidade, força muscular e seu bem-estar geral.

Qualidade da evidência

- Como ainda há poucos estudos sobre esse assunto, é provável que novos estudos venham a mudar estes resultados.

- Apesar da falta de informações precisas sobre os efeitos colaterais nas mulheres com fibromialgia que participaram dos estudos, não houve nenhum relato de lesões.

- Como todos os estudos incluíram apenas mulheres, não sabemos se os resultados seriam os mesmos para os homens com fibromialgia.

Conclusão dos autores: 

Existe evidência (de baixa qualidade) que o treinamento de resistência de intensidade moderada e moderada-intensa melhora a função multidimensional, a dor, a sensibilidade e a força muscular de mulheres com fibromialgia. Também existe evidência (de baixa qualidade) que oito semanas de exercícios aeróbicos é melhor do que exercícios de resistência de intensidade moderada para reduzir a dor em mulheres com fibromialgia. Existe evidência de baixa qualidade que 12 semanas de treinamento de resistência de baixa intensidade é melhor que exercícios de flexibilidade para melhorar a dor e a função multidimensional em mulheres com fibromialgia. Existe evidência de baixa qualidade que o treinamento de resistência de intensidade moderada a alta é seguro para mulheres com fibromialgia.

Leia o resumo na íntegra...
Introdução: 

A fibromialgia caracteriza-se por dor crônica difusa que reduz a funcionalidade física. Os exercícios são comumente recomendados como tratamento para controlar os sintomas. Avaliamos os estudos sobre treinamento de resistência para indivíduos com fibromialgia. O treinamento de resistência consiste em exercícios realizados contra uma resistência progressiva com a intenção de melhorar a força muscular, a resistência muscular, a potência muscular, ou uma combinação destas.

Objetivos: 

Avaliar os benefícios e danos do treinamento físico de resistência em adultos com fibromialgia. Comparamos treinamento de resistência versus controle e versus outros tipos de treinamento físico.

Métodos de busca: 

Pesquisamos nove bases de dados eletrônicas (The Cochrane Library, MEDLINE, EMBASE, CINAHL, PEDro, Dissertation Abstracts, Current Controlled Trials, World Health Organization (WHO) International Clinical Trials Registry Platform, AMED) e outras fontes em busca de artigos completos sobre o tema. A última busca foi feita em 5 de março de 2013. Dois autores de revisão, trabalhando de forma independente, avaliaram 1856 citações, 766 resumos e 156 artigos completos. Incluímos cinco estudos que preencheram nossos critérios de inclusão.

Critério de seleção: 

Os critérios de seleção foram: a) ensaio clínico randomizado (ECR), b) diagnóstico de fibromialgia com base em critérios publicados, c) participantes adultos, d) publicação com texto completo e e) ter dados de grupos que compararam treinamento de resistência versus controle ou outras intervenções envolvendo atividades físicas.

Coleta dos dados e análises: 

Duplas de autores da revisão, trabalhando de forma independentemente, avaliaram o risco de viés e extraíram os dados sobre as intervenções e os desfechos. As discrepâncias entre os pares de autores foram solucionadas por discussões, assim como questões relativas à interpretação dos métodos dos estudos. Quando necessário, as discrepâncias foram discutidas pelos 11 membros da equipe de autores. Extraímos 21 desfechos sendo que 7 deles foram considerados desfechos principais: função multidimensional, função física auto relatada, dor, sensibilidade, força muscular, taxas de atrito, e efeitos adversos. Para avaliar os benefícios e danos das intervenções, usamos diferença média (MD), diferença média padronizada (SMD), razão de riscos (OR) ou razão de riscos de Peto e seus respectivos intervalos de confiança (IC) de 95%. Fizemos metanálises quando dois ou mais estudos forneceram dados sobre um mesmo desfecho.

Principais resultados: 

A busca identificou 1865 citações; cinco estudos preencheram os critérios de seleção e foram incluídos na revisão. Um dos estudos tinha três braços e contribui dados para duas comparações. Os cinco estudos incluíram um total de 219 mulheres com fibromialgia, sendo que 95 delas foram randomizadas para participar de programas de treinamento de resistência. Três ECRs compararam 16 a 21 semanas de treinamento de resistência de moderada a alta intensidade versus um grupo controle. Dois estudos compararam 8 semanas de treinamento de resistência progressiva (na intensidade tolerada) usando pesos livres ou o próprio peso do corpo versus treinamento aeróbio (caminhada progressiva na esteira, caminhada em ambientes fechado e aberto). Um estudo comparou 12 semanas de treinamento de resistência de baixa intensidade usando pesos de mão (1 a 3 libras, ou seja, 0,45 a 1,36 kg) e tubos elásticos versus exercícios de alongamento estático (envolvendo grandes músculos).

O treinamento de resistência, comparado ao(s) grupo(s) controle, produziu uma melhora significativa da função multidimensional (Fibromialgia Impact Questionnaire-FIQ) de 16,75 unidades em uma escala de 100 pontos (IC 95% -23,31 a -10,19), da função física auto-relatada (-6.29 unidades em uma escala de 100 pontos, IC 95% -10,45 a -2,13), da dor (-3,3 cm em uma escala de 10 cm; IC 95% -6,35 a -0,26), da sensibilidade (-1,84 de 18 pontos sensíveis; IC 95% -2,6 a -1,08), e da força muscular (força de 27,32 kg para extensão concêntrica bilateral da perna; IC 95% 18,28-36,36).

Não houve diferença significativa entre os grupos de treinamento de resistência versus treinamento aeróbio sobre a função multidimensional (5,48 em uma escala de 100 pontos; IC 95% -0,92 a 11,88), função física auto-relatada (-1.48 unidades em uma escala de 100 pontos; IC 95% -6,69 a 3,74) ou sensibilidade (SMD -0,13; IC 95% -0,55 a 0,30). Houve uma redução estatisticamente significativa na dor (0,99 cm em uma escala de 10 cm, IC 95% 0,31 a 1,67) favorecendo os participantes que fizeram exercícios aeróbicos.

Comparado ao grupo de exercícios de alongamento, o treinamento de resistência promoveu uma melhora significativa da função multidimensional (-6.49 unidades FIQ em uma escala de 100 pontos; IC 95% -12,57 a -0,41) e da dor (-0.88 cm em uma escala de 10 cm; IC 95% -1,57 a -0,19), mas não da sensibilidade (-0,46 de 18 pontos sensíveis; IC 95% -1,56 a 0,64) ou na força (4,77 libras de torque no pé na extensão concêntrica do joelho; IC 95 % -2,40 a 11,94). Devido ao pequeno número de estudos e ao seu risco de viés, a qualidade desta evidência foi classificada como baixa. Não houve diferenças estatisticamente significativas nas taxas de atrito entre as intervenções. No geral, os efeitos adversos não foram adequadamente relatados. Porém, nenhum estudo relatou efeitos adversos graves. A avaliação do risco de viés foi prejudicada devido à falta de detalhes nas descrições dos estudos (por exemplo, sobre a ocultação da alocação e o cegamento dos avaliadores dos desfechos). A falta de publicação prévia dos protocolos dos estudos e a falta de atenção para o cegamento dos profissionais responsáveis pelos cuidados dos participantes também geraram preocupações metodológicas.

Notas de tradução: 

Tradução do Centro Cochrane do Brasil (Maísa Francisco). Contato: tradutores@centrocochranedobrasil.org.br

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