Infusão venosa de lidocaína iniciada no momento da cirurgia para diminuição da dor e aceleração na recuperação após cirurgia.

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Os problemas imediatos mais comuns após a cirurgia são dor, náuseas, vômitos, trombose, diminuição da peristalse e disfunção cognitiva. Protocolos de recuperação acelerada direcionados à prevenção ou diminuição dessas complicações. Opióides são medicações administradas no pós-operatório para diminuir a dor pós-operatória e podem estar associados a efeitos colaterais, incluindo náuseas e constipação, o que prejudica a recuperação. Outras opções incluem a administração de opióides por via peridural (injetadas no espaço adjacente à medula espinhal). A dor pode ser uma mistura de inflamação e dor neuropática ou estar relacionada à uma maior sensibilidade à dor. Todos os tipos são atenuados pela lidocaína venosa, que é um analgésico não opióide. É um anestésico local.

O objetivo desta revisão da literatura foi o de avaliar os benefícios e riscos da infusão venosa de lidocaína iniciada no momento da cirurgia, no controle da dor e na recuperação pós operatória de pacientes submetidos a vários procedimentos cirúrgicos. Foram encontrados 45 estudos clínicos randomizadose controlados, que compararam o uso de lidocaína venosa durante e após cirurgia com placebo ou com analgesia padrão ou com analgesia peridural (apenas dois estudos). Foram apresentados dados de um total de 2802 participantes. No geral, a qualidade metodológica (risco de viés) dos estudos incluídos foi moderada ou alta.

Os resultados de mais de 1200 participantes mostraram que a dor imediatamente após a cirurgia (23 estudos) e até as primeira 24 horas (25 estudos) foi diminuída com infusão de lidocaína quando comparada com placebo ou com a analgesia padrão. A diminuição da dor foi mais evidente após quatro horas em participantes submetidos a cirurgia abdominal laparoscópica e aberta. A dor nas primeira 48 horas não foi atenuada (19 estudos). Foram encontrados efeitos positivos da infusão de lidocaína na recuperação da função intestinal, com diminuição do tempo de aparecimento dos primeiros flatos e primeiros sons ou movimentos intestinais, além de diminuição do risco de íleo adinâmico, mas não no tempo decorrido para a primeira defecação. Pacientes que receberam lidocaína tiveram menos náuse (28 estudos), possivelmente devido à menor necessidade de opióide para controle da dor (32 estudos), O tempo de internação hospitalar foi discretamente diminuído (21 estudos).

Alguns poucos estudos avaliaram outras complicações, tais como infecção pós operatória, retenção urinária, sangramento, trombose venosa profunda e alterações de cicatrização da ferida. Não houve evidência de benefícios ou danos relacionados a esses desfechos.

Dezessete estudos analisaram sistematicamente a ocorrência de efeitos adversos. Não houve evidência de que a lidocaína venosa esteja associada a um aumento do risco de efeitos adversos como óbito, arritmias, outras alterações de frequência cardíaca, ou sinais de toxicidade pela lidocaína. A ocorrência de efeitos colaterais associados com infusão de lidocaína não puderam ser precisamente avaliados, uma vez que os estudos clínicos não abordaram adequadamente esta questão.

As principais limitações desta revisão foram, inicialmente, a grande e inexplicada heterogeneidade estatística entre os estudos, o que não foi adequadamente justificado pelo tipo de cirurgia; além do fato de que as evidências foram obtidas de pequenos estudos, o que aumenta o risco de superestimar os efeitos do tratamento. Ambas as limitações diminuem a qualidade de evidências para a maioria dos desfechos Apenas os desfechos "dor imediata após cirurgia abdominal aberta" e "náusea no pós-operatório imediato" obtiveram nível moderado de qualidade de evidência.


Conclusão dos autores: 

Há pequena ou moderada evidência de que esta intervenção, quando comparada ao placebo, tenha um impacto nos escores de dor, especialmente no pós-operatório imediato, e na náusea pós-operatória. Há limitada evidência de que haja impacto adicional em outros desfechos clínicos relevantes, tais como recuperação gastrointestinal, tempo de internação hospitalar e necessidade de opióides. Além disso, há uma escassez de estudos que tenham avaliado sistematicamente a incidência de efeitos adversos, a dose ótima, a cronometragem (incluindo a duração da administração) e os efeitos quando comparados com a anestesia peridural.

Leia o resumo na íntegra...
Contexto: 

O manejo da dor e a recuperação pós-operatória ainda são insatisfatórios na prática clínica. Opióides usados para analgesia pós-operatória estão frequentemente associados a efeitos adversos, incluindo náusea e constipação intestinal. Os efeitos adversos dificultam a recuperação pós-operatória. Por outro lado, nem todos os pacientes podem receber os benefícios da analgesia peridural, usada para melhorar a recuperação pós-operatória. A lidocaína foi pesquisada em muitos estudos por seu uso nas estratégias de manejo multimodal para redução da dor e melhora pós-operatória.

Objetivos: 

Esta revisão teve como objetivo avaliar os efeitos (benefícios e riscos) da infusão venosa de lidocaína no perioperatório, comparada com placebo ou com o não uso de tratamento, ou comparada com a analgesia peridural na melhora da recuperação e no controle da dor pós-operatória em adultos submetidos a vários procedimentos cirúrgicos.

Estratégia de busca: 

Foram pesquisados no Registro Central de Estudos Controlados Cochrane (CENTRAL, questão 5 2014), MEDLINE (janeiro de 1966 a maio de 2014), EMBASE (1980 a maio de 2014), CINALHL (1982 a maio de 2014), e a lista de referência dos artigos. Foi pesquisado o registro da base de dados dos estudos Clinical Trials.gov Foi pesquisada a base de dados dos estudos registrados CllinicalTrials.govForam pesquisados os estudos registrados na base de dados ClinicalTrials.gov os pesquisadores da área foram contactados, assim como os editores das revistas e os processos de congressos Não foi adotada nenhuma restrição de idioma

Critérios de seleção: 

Foram incluídos estudos randomizados e controlados, comparando os efeitos da infusão venosa contínua de lidocaína no perioperatório, tanto com placebo, quanto com não tratamento ou com analgesia peridural em adultos submetidos a cirurgias eletivas sob anestesia geral. A infusão venosa de lidocaína deve ter sido iniciada no intraoperatório, antes da incisão cirúrgica, e continuada pelo menos até o final da cirurgia.

Coleta dos dados e análises: 

A qualidade foi avaliada de forma independente por dois autores de acordo com o processo metodológico especificado pela Colaboração Cochrane. Os dados foram extraídos por dois autores independentes. Foram coletados dados de estudos em dor pós-operatória, recuperação da função gastrointestinal, tempo de internação hospitalar, náusea e vômito pós-operatórios, consumo de opióides, satisfação do paciente, taxa de complicações cirúrgicas e efeitos adversos da intervenção.

Resultados principais: 

Foram incluídos 45 estudos, envolvendo 2802 participantes. Dois estudos compararam a lidocaína intravenosa versus analgesia peridural. Em todos os outros estudos, placebo ou não tratamento foi utilizado para comparação. Estudos envolveram participantes submetidos a cirurgias abdominais abertas (12), cirurgia abdominal laparoscópica (13), ou vários outros procedimentos cirúrgicos (20).

O risco de viés foi baixo com relação ao viés da seleção (geração de sequência aleatória), viés de performance, viés de atrito e viés de detecção em mais de 50% dos estudos incluídos. Para a alocação da dissimulação e relato seletivo, a avaliação da qualidade produziu baixo risco de viés para aproximadamente 20% dos estudos incluídos.

Foram encontradas evidências para a lidocaína intravenosa na redução da dor pós-operatória (escala visual analógica 0 a 10 cm) comparada com o placebo e com o grupo em que nada é administrado nos primeiros momentos (uma a quatro horas) (diferença média (DM) - 0,84 cm, 95% intervalo de confiança (IC) - 1,10 a -0,59; baixa qualidade de evidência) e nos momentos intermediários (24 horas) (DM - 0,34 cm, 95% IC - 0,57 a - 0,11; baixa qualidade de evidência) após a cirurgia. No entanto, nenhuma evidência de efeito foi encontrada para a lidocaína na diminuição da dor nos períodos tardios (48 horas) (DM -0,22 cm, 95% IC - 0,47 a 0.03; baixa qualidade de evidência). A diminuição da dor foi mais evidente no pós-operatório imediato em pacientes submetidos a cirurgia laparoscópica abdominal (DM -1,14, IC 95% - 1,51 a -0,78; baixa qualidade de evidência) e a cirurgia abdominal aberta (DM -0.72, IC 95% -0.96 a -0,47; moderada qualidade de evidência). Nenhuma evidência de efeito foi encontrada na diminuição da dor em pacientes submetidos a todos os outros tipos de cirurgia (DM -0,30, IC 95% -0.89 a 0.28; baixa qualidade de evidência). Qualidade de evidência é limitada pela inconsistência e pelo tamanho das amostras.

Evidência de efeito foi encontrada para lidocaína na recuperação gastrointestinal, observada pela diminuição de tempo para a primeira eliminação de gás. (DM -5,49 horas, IC 95% -7.97 a -3.00; baixa qualidade de evidência), tempo para o primeiro movimento intestinal (DM -6.12 horas, IC 95% - 7.36 a -4.89; baixa qualidade de evidência), e risco de íleo adnâmico (taxa de risco (TR) 0.38, IC 95% 0.15 a 0.99; baixa qualidade de evidência). No entanto, nenhuma evidência de efeito foi encontrada para lidocaína na diminuição do tempo para a primeira evacuação (DM -9.52 horas, IC 95% -23.24 a 4.19; muito baixa qualidade de evidência).

Além disso, foram encontradas evidências de efeitos positivos na administração de lidocaína em desfechos secundários, como diminuição do tempo de internação hospitalar, náusea pós-operatória e necessidade pós-operatória de opióides. Os dados são limitados quanto à lidocaína venosa e seus efeitos adversos (ex. morte, arritmias, outros distúrbios cardíacos ou sinais de toxicidade por lidocaína) comparados com o placebo ou com o não tratamento, já que um número limitado de estudos analisou sistematicamente os efeitos adversos da lidocaína como intervenção.

A comparação entre a lidocaína intravenosa versus analgesia peridural não revelou evidência de efeito para a lidocaína em desfechos relevantes. No entanto, os resultados devem ser considerados com cuidado devido à imprecisão dos efeitos estimados.

Notas de tradução: 

Tradução da Unidade de Medicina Baseada em Evidências da Unesp, Brazil (Deise Martins Rosa) Contato: portuguese.ebm.unit@gmail.com Translation notes: CD009642

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