Tratamento cirúrgico da dor pélvica crónica na mulher

Por que fizemos esta revisão Cochrane?

O objetivo era perceber se existem tratamentos cirúrgicos eficazes e seguros para mulheres com dor pélvica crónica. Além disso, queríamos compreender a eficácia destes tratamentos cirúrgicos em relação a tratamentos alternativos ou à ausência de tratamento.

Contexto

A dor pélvica crónica nas mulheres é uma condição comum e debilitante. As definições são variável, mas é habitualmente definida como dor pélvica que surge por um período de pelo menos seis meses. Existem várias causas de dor pélvica crónica, mas estas podem por vezes ser difíceis de identificar. Independentemente da causa o objetivo do tratamento é a redução dos sintomas. Por vezes, pode ser necessária uma laparoscopia diagnóstica (inserção de uma câmara abdominal para visualização das estruturas pélvicas). Quando existe uma causa identificável para a dor pélvica crónica, como a endometriose (tecido endometrial presente em localização extra-uterina) ou a adenomiose (tecido endometrial que invade profundamente o endométrio), o tratamento poderá ser dirigido às diferentes patologias envolvidas. Quando não é identificada uma causa, podem ser considerados diferentes procedimentos cirúrgicos para tratamento da dor pélvica crónica, nomeadamente a remoção de tecido cicatricial resultante de infeções ou cirurgias prévias (lise de aderências) ou ablação ou excisão de tecido nervoso responsável pela transmissão da dor na região pélvica (ablação/resseção dos ligamentos útero-sagrados). A eficácia destes tratamentos cirúrgicos não está comprovada.

O que encontrámos

Foram encontrados quatro ensaios controlados aleatórios (um tipo de estudo que fornece as provas mais fiáveis sobre os efeitos do tratamento) que envolveram 216 mulheres com dor pélvica crónica e sem causa identificável. Os principais desfechos foram a escala da dor após a cirurgia e a qualidade de vida. Esta evidência encontra-se atualizada até 23 de abril de 2021.

Principais resultados

Lise de aderência versus ausência de cirurgia/laparoscopia de diagnóstico

Não existe evidência quanto ao efeito da lise de aderências em comparação com a laparoscopia diagnóstica nas escalas da dor aos três, seis e dose meses após a cirurgia. A dor foi avaliada utilizando a escala visual analógica, uma escala de classificação amplamente utilizada em que o doente classifica a dor de 0 (sem dor) a 100 (pior dor). A lise de aderência pode melhorar a qualidade de vida relacionada com a saúde aos seis meses após a cirurgia quando comparada com a laparoscopia diagnóstica.

Ablação laparoscópica do ligamento útero-sagrado versus outros tratamentos

Não existe evidência quanto ao efeito da ablação laparoscópica do ligamento útero-sagrado quando comparada com a laparoscopia diagnóstica ou a ressecção vaginal do ligamento útero-sagrado nas escalas de dor aos três, seis e dose meses. As mulheres submetidas à ablação laparoscópica do ligamento útero-sagrado parecem necessitar de mais fármacos para alívio da dor após a cirurgia quando comparadas com as doentes submetidas a tratamentos alternativos.

Nenhum dos estudos reportou desfechos psicológicos.

Grau de evidência

O grau de evidência foi baixo a muito baixo. As limitações incluem a descrição incompleta dos métodos e imprecisão (muito poucos eventos, muito poucos estudos incluídos) para algumas comparações.

Notas de tradução: 

Traduzido por: Ana Dagge, Serviço de Ginecologia e Obstetrícia, Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, com o apoio da Cochrane Portugal. Revisão final: Ricardo Manuel Delgado, Cochrane Portugal.

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