Cirurgia versus observação para pessoas com lesão abdominal

A lesão no abdómen é comum e pode ser sem corte, de acidentes de trânsito ou quedas, ou penetrante, de tiros ou facadas. Estas lesões estão normalmente associadas a lesões nos órgãos abdominais, tais como o fígado, baço, rins, intestino e o seu revestimento, e grandes vasos sanguíneos. Pode ocorrer um sangramento ou corrimento do conteúdo abdominal para a cavidade abdominal, que pode ameaçar a vida de uma pessoa. O exame do paciente pelo médico (exame físico), embora seja o método mais preciso para avaliar as pessoas, é insuficiente para determinar a extensão dos danos. Por outro lado, uma pessoa não deveria ser submetida a um procedimento cirúrgico, a menos que seja necessário. Há relatórios de que as lesões podem não ser encontradas, mesmo após uma cirurgia.

A observação de um paciente, esperando que a lesão tenha cicatrizado naturalmente e intervir cirurgicamente, caso exista essa necessidade, é conhecida como gestão seletiva não-operatória (SNOM) ou observação. Um protocolo de observação é usado quando a pessoa não apresenta qualquer sinal de hemorragia interna ou infeção abdominal (peritonite). Recorre-se à cirurgia se, durante a observação, forem observados sinais de hemorragia ou infeção.

Os autores desta revisão procuraram identificar os estudos, onde as pessoas com uma lesão abdominal foram aleatorizados para cirurgia ou para a observação. Os autores analisaram várias bases de dados médicas, mas identificaram apenas 2 estudos, envolvendo 51 e 63 pessoas respetivamente, ambos tiveram lugar na Finlândia e foram conduzidos pelos mesmos investigadores. Os estudos incluíam portadores de lesões abdominais penetrantes, provocadas por esfaqueamento. Os autores da revisão consideraram ambos os estudos como tendo um risco de viés moderado, uma vez que apenas uma parte do processo de aleatorização foi descrita e os protocolos do estudo não estavam disponíveis para permitir a avaliação completa da qualidade global.

Num estudo (1992-1994), as pessoas receberam o tratamento segundo um protocolo de observação ou de cirurgia obrigatória. Nenhuma das pessoas no estudo morreu, e não houve diferença no número de pessoas com complicações médicas entre os grupos estudados. Um dos danos mencionados pelos autores do estudo foi a realização da cirurgia nalgumas pessoas que, na realidade, nem precisava disso. A cirurgia desnecessária pode submeter as pessoas a potenciais complicações.

Noutro estudo (1997-2002), as pessoas receberam um protocolo de observação ou de laparoscopia de diagnóstico (cirurgia mínima). Ninguém morreu, em ambos os grupos, e não houve diferenças entre os grupos, no número de cirurgias necessárias. Não existiram cirurgias desnecessárias, em ambos os grupos.

Com base nas conclusões destes dois estudos pequenos, não há evidências para apoiar o uso do tratamento cirúrgico em detrimento de um protocolo de observação para pessoas com trauma abdominal, que não mostram sinais de hemorragia ou infeção.

Os autores recomendam que os futuros estudos controlados aleatorizados relatem claramente o tipo de lesão, número de órgãos danificados, extensão da lesão dos órgãos internos e complicações nas pessoas incluídas no estudos.

Notas de tradução: 

Tradução por Mariana Morgado, Serviço de Cirurgia Pediátrica, Centro Hospitalar Lisboa Norte, com o apoio da Cochrane Portugal

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