Mel para tosse aguda em crianças

Pergunta da revisão

O mel pode reduzir a tosse causada por bactérias e vírus em crianças?

Introdução

A tosse é um sintoma que preocupa os pais e é uma das maiores causas de visitas aos consultórios e ambulatórios. Acredita-se que o mel evita o crescimento dos micróbios e reduz a inflamação.

Data das buscas

Fizemos buscas em bancos de dados científicos por estudos que haviam sido publicados até 8 de fevereiro de 2018 e por estudos em andamento até 12 de fevereiro de 2018.

Características do estudo

Incluímos 6 pequenos estudos que envolveram 899 crianças com idades entre 1 e 18 anos. Esses estudos foram realizados em Israel, nos Estados Unidos, no Brasil e no Quênia. Nessa atualização da revisão, encontramos 3 novos estudos realizados entre 2007 e 2016, que recrutaram 331 crianças.

Fontes de financiamento dos estudos

Dois estudos foram financiados por empresas farmacêuticas; um estudo recebeu verbas de um centro universitário; um estudo foi financiado pelo Honey Board of Israel e agências não governamentais; e um estudo foi financiado pelo USA National Honey Board. Um dos estudos não relatou nada sobre fontes de financiamento.

Principais resultados

Comparemos o uso do mel versus produtos para tosse vendidos sem receita médica, bromelina (uma enzima do abacaxi) misturada com mel, placebo (um produto sem nenhum princípio ativo) ou nenhum tratamento.

O uso do mel por até três dias provavelmente diminui os sintomas da tosse mais do que o uso de placebo e salbutamol (um remédio que abre as vias aéreas). O uso de mel é provavelmente mais eficaz do que o placebo para o alívio da tosse e para reduzir o impacto da tosse sobre o sono das crianças.

Parece haver pouca ou nenhuma diferença nos sintomas da tosse entre o mel e o dextrometorfan (um dos ingredientes encontrados em remédios para tosse vendidos sem receita médica) ou entre o mel e a bromelina com mel. O mel parece ser melhor do que a difenidramina (um anti-histamínico) para o alívio da tosse em crianças.

Os pais de sete crianças que tomaram mel e de duas crianças que tomaram dextrometorfano relataram que seus filhos tiveram alguns pequenos efeitos colaterais, como insônia, hiperatividade e nervosismo. Os pais de três crianças que estavam no grupo que recebeu difenidramina relataram que elas tiveram sonolência. Os pais de nove crianças que receberam salbutamol, sete que receberam mel, e seis que receberam placebo, relataram que elas tiveram diarreia. Os pais de quatro crianças que receberam salbutamol e de uma criança que recebeu mel relataram que elas tiveram coceira na pele.

Não encontramos evidência que apoie ou desaconselhe o uso de mel para o alívio da tosse em crianças. Não é recomendável dar mel para crianças com menos de um ano de idade porque elas têm uma imunidade baixa contra as bactérias que podem estar presentes no mel e que podem causar paralisia. Uma das limitações dos achados desta revisão é que a maioria das crianças incluídas nos estudos recebeu mel por apenas uma noite.

Qualidade da evidência

A qualidade da evidência foi baixa a moderada. Alguns dos estudos não cegaram os participantes (isto é, os participantes sabiam o que estavam recebendo).

Conclusão dos autores: 

O uso de mel provavelmente melhora a tosse mais do que nenhum tratamento, ou do que o uso de defenidramina ou de placebo. Porém o uso do mel parece produzir pouca ou nenhuma diferença sobre esse sintoma quando comparado com o uso do dextrometorfan. O uso do mel provavelmente reduz mais a duração da tosse do que o uso do placebo ou do salbutamol. Não existe evidência robusta que apoie ou refute o uso do mel. Uma das limitações dos achados desta revisão é que a maioria das crianças incluídas nos estudos recebeu mel por apenas uma noite. Não houve diferença na incidência de eventos adversos entre os grupos que receberam mel versus os grupos controle.

Leia o resumo na íntegra...
Contexto: 

A tosse é um sintoma que preocupa os pais e é uma das maiores causas de visitas aos consultórios e ambulatórios. A tosse pode ter um impacto na qualidade de vida, causar ansiedade, e afetar o sono dos pais e das crianças. O mel tem sido usado para o alívio da tosse. Essa é uma atualização de uma revisão publicada anteriormente em 2014, 2012 e 2010.

Objetivos: 

Avaliar a efetividade do mel para a tosse aguda em crianças em atendimento ambulatorial.

Estratégia de busca: 

Fizemos buscas nas seguintes bases de dados: CENTRAL (2018, Issue 2) que inclui o Cochrane Acute Respiratory Infections Group's Specialised Register, MEDLINE (2014 a 8 de fevereiro 2018), Embase (2014 a 8 de fevereiro 2018), CINHAL (2014 a 8 de fevereiro 2018), EBSCO (2014 a 8 de fevereiro 2018), Web of Science (2014 a 8 de fevereiro 2018), e LILACS (2014 a 8 de fevereiro 2018). Também fizemos buscas, em 12 de fevereiro 2018, nas plataformas de registros de ensaios clínicos ClinicalTrials.gov e World Health Organization (WHO) International Clinical Trial Registry Platform (WHO ICTRP). Em 2014, a revisão fez buscas no AMED e CAB Abstracts. Porém, devido à falta de acesso institucional, não fizemos novas buscas nessas bases de dados para esta atualização.

Critérios de seleção: 

Incluímos todos os ensaios clínicos randomizados (ECR) que compararam o uso do mel isoladamente ou combinado com antibióticos, versus nenhum tratamento, placebo ou medicamentos para tosse que podem ser comprados sem receita médica em indivíduos entre 1 a 18 anos de idade, com tosse aguda em atendimento ambulatorial.

Coleta dos dados e análises: 

Fizemos a revisão seguindo a metodologia padrão da Cochrane.

Resultados principais: 

Incluímos 6 ECRs envolvendo 899 crianças. Nesta atualização, adicionamos mais 3 ECR (331 crianças).

Dois estudos tinham um alto risco de viés de performance e de detecção. Três estudos tinham risco de viés de atrito incerto. Três estudos tinham risco de viés incerto para outros tipos de viés.

Os estudos compararam mel versus dextrometorfan, difenidramina, salbutamol, bromelina (uma enzima da família Bromeliaaceae, dos abacaxis), nenhum tratamento, ou placebo. Cinco estudos usaram escalas Likert com 7 pontos para medir o alívio da tosse. Um estudo usou uma escala de 5 pontos que não era clara. Em todos os estudos, pontuações mais baixas indicavam maior alívio da tosse.

Usando uma escala Likert de 7 pontos, o uso do mel provavelmente diminui a frequência da tosse mais do que o uso de placebo ou nenhum tratamento. Na comparação mel versus nenhum tratamento, a diferença média (MD) foi -1,05, intervalo de confiança (IC) de 95% -1,48 a - 0,62, I² = 0%, (2 estudos; 154 crianças, evidência de qualidade moderada). Na comparação mel versus placebo a MD foi -1,62, IC 95% -3,02 a -0,22, I² = 0% (2 estudos, 402 crianças, evidência de qualidade moderada). O mel tem efeitos semelhantes ao dextrometorfan na redução da frequência da tosse: MD -0,07, IC 95% -1,07 a 0,94, I² = 87% (2 estudos , 149 crianças, evidência de baixa qualidade). O mel parece ser melhor do que a difenidramina na redução da frequência da tosse: MD -0,57, IC 95% -0,90 a - 0,24 (1 estudo, 80 crianças, evidência de baixa qualidade).

Usar mel por até três dias é provavelmente mais efetivo do que usar placebo ou salbutamol no alívio dos sintomas da tosse. O uso do mel por mais do que três dias provavelmente não é melhor do que o salbutamol ou placebo na redução da intensidade da tosse, do incômodo provocado pela tosse, ou no impacto da tosse sobre o sono das crianças e dos pais (evidência de qualidade moderada). De acordo com as avaliações feitas com a escala de 5 pontos, parece haver pouca ou nenhuma diferença entre mel versus bromelina misturada com mel sobre a frequência e intensidade da tosse.

Foram relatados eventos adversos, incluindo nervosismo, insônia e hiperatividade em sete crianças (9,3%) tratadas com mel e duas crianças (2,7%) tratadas com dextrometorfan (RR 2,94, IC 95% 0,74 a 11,71, I² = 0%, 2 estudos, 149 crianças, evidência de baixa qualidade). Três crianças (7,5%) do grupo difenidramina tiveram sonolência (RR 0,14, IC 95I 0.01 a 2,68,1 estudo, 80 participantes, evidência de baixa qualidade). Trinta e quatro crianças (12%) que receberam mel e 13 (11%) que receberam placebo tiveram sintomas gastrointestinais (RR 1,91, IC 95% 1,12 a 3,24, I² = 0%, 2 estudos, 402 crianças, evidência de qualidade moderada). Quatro crianças que receberam salbutamol tiveram erupções cutâneas com prurido, comparado com uma criança do grupo do mel (RR 0,19, IC 95% 0,02 a 1,63, 1 estudo, 100 crianças, evidência de qualidade moderada). Nenhum efeito colateral foi descrito no grupo que não recebeu nenhum tratamento.

Notas de tradução: 

Tradução do Centro Cochrane do Brasil (Maria Regina Torloni). Contato: tradutores@centrocochranedobrasil.org.br

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