Programas de exercícios para idosos com demência

Introdução

No futuro, conforme a população envelhece, o número de pessoas em nossas comunidades que sofrem com demência aumentará drasticamente. Isto não só afetará a qualidade de vida das pessoas com demência mas também aumentará a carga de trabalho dos cuidadores familiares, a necessidade de cuidados comunitários e de asilos. O exercício é um dos fatores relacionados ao estilo de vida com potencial de reduzir ou retardar a progressão dos sintomas da demência.

Caraterísticas do estudo

Esta revisão avaliou os resultados de 17 estudos (buscas realizadas em agosto de 2012 e outubro de 2013) incluindo 1.067 participantes. Esses estudosavaliaram se os programas de exercícios podem melhorar a cognição (o que inclui coisas como memória, raciocínio e percepção espacial), atividades da vida diária, comportamento e sintomas psicológicos (como depressão, ansiedade e agitação) em pessoas idosas com demência. Também procuramos possíveis efeitos dos exercícios sobre na mortalidade, qualidade de vida, na experiência dos cuidadores e no uso de serviços de saúde, além de qualquer efeitos adversos dos exercícios.

Resultados principais

Houve alguma evidência de que programas de exercícios podem melhorar a capacidade dos idosos com demência de realizarem suas atividades diárias. Porém também houve muita variação entre os resultados dos estudos e não conseguimos encontrar explicações para isso. Os estudos não mostraram que os exercícios traziam qualquer benefício na cognição, nos sintomas psicológicos ou na depressão dos idosos com demência. Houve pouca ou nenhuma evidência em relação aos outros desfechos listados acima. Não houve evidência de que os exercícios provocassem malefícios para os participantes. A qualidade geral da evidência da maioria dos estudos foi classificada como sendo muito baixa.

Conclusão

Pesquisas maiores e bem projetadas poderiam melhorar a qualidade da revisão. Esses novos estudos deveriam investigar qual é o melhor tipo de exercício para pessoas com diferentes tipos e gravidade de demência e avaliar todos os desfechos.

Conclusão dos autores: 

Há evidências promissoras de que programas de exercícios podem ter um impacto significativo na melhoria da capacidade de realizar as AVD em pessoas com demência, embora aconselhe-se alguma cautela na interpretação desses resultados. A revisão não mostrou evidência de benefício dos exercícios sobre a cognição, os sintomas psiquiátricos ou a depressão. Houve pouca ou nenhuma evidência sobre os outros desfechos de interesse (mortalidade, carga de trabalho para o cuidador, qualidade de vida para o cuidador, mortalidade do cuidador e uso de serviços de saúde).

Leia o resumo na íntegra...
Contexto: 

Esta é uma atualização da nossa revisão anterior de 2008. Vários estudos e revisões sistemáticas recentes do impacto do exercício em pessoas com demência têm apresentado resultados promissores.

Objetivos: 

Objetivo primário

Nos idosos com demência, os programas de exercícios melhoram a cognição, as atividades de vida diária (AVD), os sintomas neuropsiquiátricos, a depressão e a mortalidade?

Objetivos secundários

Programas de exercícios para idosos com demência têm impacto indireto sobre os cuidadores familiares, sua qualidade de vida e mortalidade?

Programas de exercícios para idosos com demência reduzem o uso dos serviços de saúde (por exemplo, visitas ao serviço de emergência) pelos participantes e seus cuidadores familiares?

Estratégia de busca: 

Identificamos os estudos para inclusão nesta revisão pesquisando nas bases ALOIS(www.medicine.ox.ac.uk/alois),The Cochrane Dementia and Cognitive Improvement Group’s Specialised Register, em 4 de setembro de 2011, em 13 de agosto de 2012 e novamente em 3 de outubro de 2013.

Critérios de seleção: 

Nesta revisão, foram incluídos ensaios clínicos randomizados nos quais as pessoas mais velhas, diagnosticadas com demência, foram alocadas em programas de exercício ou em grupos controle (cuidados habituais ou contato/atividades sociais) com o objetivo de melhorar a cognição, as AVD, os sintomas neuropsiquiátricos, a depressão e a mortalidade. Os desfechos secundários estavam relacionados aos cuidadores familiares e incluíram efeitos sobre sua carga de trabalho, qualidade de vida, mortalidade e utilização dos serviços de saúde.

Coleta dos dados e análises: 

Pelo menos dois autores, trabalhando de forma independente, avaliaram os artigos para a inclusão, bem como a qualidade metodológica e realizaram a extração dos dados. Analisamos os dados para estimativa dos efeitos. Para os dados contínuos, calculamos as diferenças médias ou diferenças médias padronizadas (inglês: SMD) e sintetizamos os dados para cada desfecho usando um modelo de efeito fixo. Nos casos de com grande heterogeneidade entre os estudos, usamos um modelo de efeito aleatório. Planejamos explorar a heterogeneidade em relação à gravidade e o tipo de demência, e tipo, frequência e duração do programa de exercícios. Avaliamos também os eventos adversos.

Resultados principais: 

Dezessete estudos com 1.067 participantes preencheram os critérios de inclusão. No entanto, os dados necessários de três estudos e alguns dos dados de um quarto estudo não foram publicados e disponibilizados. Os estudos incluídos foram altamente heterogêneos em termos de subtipo e gravidade da demência dos participantes, e também quanto a tipo, duração e frequência do exercício. Apenas dois estudos incluíam participantes que vivem no domicílio.

Nossa metanálise revelou que não há evidência clara de benefícios de programas de exercícios sobre a função cognitiva. A diferença média padronizada (SMD) estimada entre os grupos exercício e controles foi de 0,43 [intervalo de confiança de 95% (IC) de -0,05 a 0,92; P = 0,08; nove estudos com 409 participantes]. Houve considerável heterogeneidade entre os estudos (I² de 80%) e não conseguimos explicar a causa dessa heterogeneidade. Consideramos a qualidade da evidência como muito baixa. Encontramos benefício de programas de exercícios sobre a capacidade das pessoas com demência para realizarem suas AVD (seis estudos, 289 participantes). A diferença média padronizada estimada entre os grupos exercício e controle foi de 0,68 (95% CI 0,08 a 1,27; P = 0,02). No entanto, novamente observamos considerável heterogeneidade estatística, não explicada (I² = 77%) nesta metanálise, e consideramos a qualidade da evidência como muito baixa. Isso significa que é necessária cautela na interpretação desses resultados.

Outras análises em um estudo mostraram que pode ocorrer redução da carga de trabalho dos cuidadores informais em domicílio, quando eles supervisionam a participação de um parente com demência em um programa de exercícios. A diferença média padronizada entre os grupos exercício e controle foi de -15,30 (95% IC-24,73 a -5,87; um estudo com 40 participantes; p = 0,001). Aparentemente, não houve risco de viés nesse estudo. Além disso, não houve evidência clara de benefício do exercício em sintomas neuropsiquiátricos (diferença média padronizada -0,60, 95% CI -4,22 a 3,02; um estudo, 110 participantes; p = 0,75), ou depressão (diferença média padronizada 0,14, 95% CI -0,07 a 0,36; 5 estudos com 341 participantes; p = 0,16). Não foi possível avaliar os outros desfechos (qualidade de vida, mortalidade e custos com saúde), já que, ou os dados apropriados não foram relatados, ou não encontramos estudos que avaliaram esses desfechos.

Notas de tradução: 

Tradução do Centro Cochrane do Brasil (Arnaldo Alves da Silva e Patricia Logullo)

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