Profilaxia antibiótica na prevenção de infeção da ferida operatória em adultos submetidos a reparação aberta eletiva de hérnia inguinal ou femoral

Contexto

Uma hérnia da região inguinal consiste numa fraqueza da parede abdominal nessa região através da qual pode ocorrer uma protrusão de tecidos moles ou órgãos. As hérnias na região inguinal são frequentes e, por isso, a reparação deste tipo de hérnias é uma das cirurgias mais frequentemente realizadas em todo o mundo. É considerada uma técnica cirúrgica "limpa" com baixas taxas de infeção de feridas pós-operatórias, e a administração rotineira de antibióticos não é, portanto, geralmente recomendada. Até aos anos 90, a reparação da hérnia baseada em sutura (herniorrafia) era o método de escolha. A partir daí, a reparação da hérnia com uma prótese sintética (hernioplastia) ganhou popularidade crescente e o debate sobre se são necessários antibióticos para prevenir infecções pós-operatórias de feridas recomeçou.

Investigação

Procurámos na literatura (12 de novembro de 2019) ensaios controlados aleatorizados comparando antibióticos versus placebo para prevenir infeções de feridas após cirurgia de reparação de hérnias da região inguinal. Incluímos tanto métodos cirúrgicos baseados em sutura como com prótese. Dividimos as infeções em infeções de ferida superficiais e profundas. Vários estudos revelaram taxas de infeção superiores aos 5% esperados para uma cirurgia limpa. Por conseguinte, dividimos os estudos num grupo com baixas taxas de infeção (menos de 5%) e um outro com altas taxas de infeção (mais de 5%).

Caraterísticas do estudo e resultados principais

Identificámos cinco estudos de cirurgia baseada em sutura e 22 estudos de cirurgia com utilização de prótese. Os estudos baseados na sutura foram de muito baixa qualidade metodológica. Os estudos de cirurgia com utilização de prótese eram de qualidade metodológica baixa a moderada.

Esta revisão mostra que os antibióticos não previnem a ocorrência de qualquer tipo de infeções de feridas após herniorrafia (cirurgia baseada em sutura). Para a hernioplastia num ambiente de baixo risco de infeção, os antibióticos provavelmente fazem pouca ou nenhuma diferença na prevenção de infeções de feridas superficiais pós-operatórias. Contudo, num ambiente de alto risco de infeção, é incerto se os antibióticos reduzem o risco de ocorrência de infeção superficial da ferida.

Para infeções de feridas profundas, mostramos que os antibióticos provavelmente fazem pouca ou nenhuma diferença na redução do risco, tanto num ambiente de baixo como de alto risco de infeção.

Qualidade da evidência:

Evidência de qualidade muito baixa mostra que é incerto se os antibióticos reduzem o risco de infecções pós-operatórias de feridas após a herniorrafia. Evidência de qualidade moderada mostra que os antibióticos provavelmente fazem pouca ou nenhuma diferença na prevenção de infeções superficiais ou profundas de feridas após a hernioplastia, num ambiente de baixo risco de infeção. Evidência de muito baixa qualidade mostra que é incerto se os antibióticos reduzem o risco de infeções superficiais de feridas, e que os antibióticos têm pouco ou nenhum efeito sobre as infeções profundas de feridas após uma hernioplastia num ambiente de alto risco de infeção.


Notas de tradução: 

Traduzido por: João Pedro Bandovas, Serviço de Cirurgia Geral, Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central, com o apoio da Cochrane Portugal.

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