Inibidores seletivos da recaptação de serotonina para a síndrome pré-menstrual

A síndrome pré-menstrual (SPM) é uma causa comum de problemas físicos, psicológicos e sociais em mulheres em idade reprodutiva. A SPM difere dos sintomas pré-menstruais "normais" pelo grau de sofrimento e perturbação que causa. Os sintomas ocorrem durante o período que antecede a menstruação e aliviam com o início dela. Sintomas comuns incluem irritabilidade, depressão, ansiedade e letargia. Um diagnóstico clínico da SPM requer que os sintomas sejam confirmados através de um registro prospectivo (isto é, um registro dos sintomas à medida que ocorrem) por pelo menos dois ciclos menstruais e que causem sofrimento considerável ou prejuízo substancial no desempenho das atividades do dia a dia. Estima-se que uma em cada cinco mulheres em idade reprodutiva seja afetada. A SPM pode comprometer gravemente as atividades do dia a dia da mulher e algumas mulheres buscam tratamento médico. Pesquisadores da Colaboração Cochrane revisaram a evidência sobre a efetividade e segurança dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) para tratar a SPM. Eles realizaram a pesquisa até fevereiro de 2013.

A revisão inclui 31 ensaios clínicos randomizados que compararam ISRS com placebo em um total de 4372 mulheres com diagnóstico clínico de SPM. Os ISRSs reduziram de forma efetiva os sintomas gerais da SPM e também sintomas específicos (psicológicos, físicos e funcionais e irritabilidade). Os ISRS foram geralmente tomados nas duas semanas anteriores ao período menstrual (fase lútea) ou todos os dias (continuamente). Ambos os regimes mostraram-se igualmente eficazes, embora sejam necessários mais estudos para confirmar se há diferenças entre os regimes.

Os efeitos adversos foram mais comuns em mulheres usando ISRS do que naquelas usando placebo. Os efeitos colaterais que mais frequentes foram náusea e diminuição da energia. Os autores calcularam que é provável que ocorra náusea em aproximadamente um em cada sete mulheres com TPM usando uma dose moderada de ISRS, e que ocorra falta de energia em aproximadamente um em cada nove mulheres usando a medicação.

A qualidade geral da evidência foi classificada como baixa a moderada, sendo que o principal ponto fraco dos estudos foi a falta de detalhes sobre os métodos. Pelo menos 21 estudos receberam financiamento de empresas farmacêuticas.

Conclusão dos autores: 

Os ISRSs são efetivos na redução de sintomas da SPM, quando utilizados apenas na fase lútea ou continuamente. Os efeitos adversos são relativamente frequentes, sendo os mais comuns a náusea e astenia. Os efeitos adversos são dose-dependentes.

Leia o resumo na íntegra...
Contexto: 

A síndrome pré-menstrual (SPM) é uma causa comum de problemas físicos, psicológicos e sociais em mulheres em idade reprodutiva. A característica-chave da SPM é o momento dos sintomas, que ocorrem apenas nas duas semanas que antecedem a menstruação (fase lútea do ciclo menstrual). Os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) são cada vez mais utilizados como medicamentos de primeira linha para a SPM. Os ISRS podem ser utilizados durante a fase lútea ou continuamente (todos os dias). Os ISRS são geralmente considerados efetivos para a redução dos sintomas pré-menstruais, mas podem acarretar efeitos adversos.

Objetivos: 

Os objetivos desta revisão foram avaliar a efetividade e a segurança dos ISRS para tratar a síndrome pré-menstrual.

Estratégia de busca: 

Pesquisamos ensaios clínicos randomizados (ECR) nas seguintes bases de dados: Cochrane Menstrual Disorders and Subfertility Group Specialised Register, Cochrane Central Register of Controlled Trials (CENTRAL) (The Cochrane Library), MEDLINE, EMBASE, PsycINFO e CINAHL (February 2013). Quando havia dados insuficientes nos artigo, tentamos entrar em contato com os autores do estudo para obter mais detalhes.

Critérios de seleção: 

Foram incluídos estudos envolvendo mulheres com diagnóstico prospectivo de SPM, transtorno disfórico pré-menstrual ou transtorno disfórico da fase lútea tardia (TDFLT) que tivessem sido randomizadas para receber ISRSs ou placebo para o tratamento da síndrome pré-menstrual.

Coleta dos dados e análises: 

Dois autores da revisão, de forma independente, selecionaram os estudos, avaliaram seus riscos de viés e extraíram dados sobre sintomas pré-menstruais e efeitos adversos. Os estudos foram combinados usando modelos de efeitos randômicos. Diferenças de média padronizadas (DMP) com intervalos de confiança de 95% (95% CI) foram calculados para os escores de sintomas pré-menstruais, utilizando-se análises separadas para tipos diferentes de dados contínuos (isto é, escores finais e as mudanças de escores). Para os desfechos dicotômicos calculamos os Odds ratios (OR) com 95% CI. As análises foram estratificadas conforme o período de administração da droga (fase lútea ou uso contínuo) e dose da droga (baixa, média ou alta). Nós calculamos o número de mulheres que necessitariam utilizar uma dose moderada de ISRS para causar um evento adverso adicional (número necessário para causar dano: NNH). A qualidade geral das evidências dos principais achados foi avaliada utilizando-se a metodologia GRADE.

Resultados principais: 

Foram incluídos na revisão 31 ECRs. Eles compararam fluoxetina, paroxetina, sertralina, escitalopram e citalopram versus placebo. Os ISRS reduziram os sintomas gerais auto-relatados de maneira significativamente mais efetiva que placebo. O tamanho do efeito foi moderado quando estudos relatando escores finais foram combinados (para dose moderada de ISRS: DMP -0,65, 95% CI -0,46 a -0,84, nove estudos, 1.276 mulheres; heterogeneidade moderada; I2 = 58%; evidência de qualidade baixa). O tamanho do efeito foi pequeno quando estudos relatando mudança de escores foram combinados(para dose moderada de ISRS: DMP 0.36, 95%CI -0.20 a -0.51, quatro estudos, 657 mulheres; baixa heterogeneidade; I2= 29%, evidência de qualidade moderada).

Os ISRS foram efetivos para o alívio dos sintomas quando utilizados apenas na fase lútea ou continuamente, sem evidência clara acerca da diferença de efetividade entre esses dois modos de administração. Entretanto, poucos estudos compararam diretamente os regimes fase lútea e contínuo e mais evidências são necessárias para esclarecer essa questão.

A probabilidade de abandonar o estudo devido a eventos adversos foi significativamente maior no grupo ISRS (dose moderada: OR 2,55, 95% CI 1,84 to 3,53, 15 estudos, 2.447 mulheres, nenhuma heterogeneidade; I2 = 0%, evidência de qualidade moderada). Os efeitos colaterais mais comuns associados a doses moderadas de ISRS foram náusea (NNH = 7), astenia ou diminuição da energia (NNH = 9), sonolência (NNH = 13), fadiga (NNH = 14), libido diminuída (NNH = 14) e sudorese (NNH = 14). Na análise secundária, os ISRS foram efetivos para tratar tipos de sintomas específicos (isto é, sintomas psicológicos, físicos e funcionais e irritabilidade). Os efeitos adversos foram relacionados à dose.

A qualidade geral da evidência foi baixa à moderada. A principal limitação dos estudos incluídos foi a baixa qualidade da descrição dos métodos. Para a maioria dos desfechos, a heterogeneidade foi ausente ou baixa, exceto (como previamente mencionado) para um dos desfechos primários.

Notas de tradução: 

Tradução do Centro Cochrane do Brasil (Cláudia Hara)

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