Intervenções mediadas pelo paciente para melhorar a prática profissional

Qual é o objetivo da revisão?

O objetivo desta revisão Cochrane foi avaliar se os pacientes podem mudar o desempenho dos profissionais de saúde. Recolhemos e analisamos todos os estudos relevantes para responder a esta questão e encontramos 25 estudos.

Mensagem chave

Esta revisão sugere que os pacientes podem mudar a prática dos profissionais de saúde através das seguintes três estratégias: 1) estratégias em que os pacientes fornecem aos profissionais de saúde informações sobre si próprios; 2) estratégias em que os pacientes recebem informações sobre os cuidados de saúde; e 3) estratégias em que os pacientes participam na educação dos pacientes. Os instrumentos para ajudar os pacientes na sua tomada de decisão fazem pouca ou nenhuma diferença na prática dos profissionais de saúde. Porém, nosso grau de certeza quanto a isso é baixo. Portanto, estes resultados devem ser interpretados com cuidado. Ainda é necessário fazer mais pesquisas para sabermos quais são as melhores formas de os pacientes mudarem a prática profissional e para sabermos qual é o impacto disso na saúde dos pacientes.

O que foi estudado nesta revisão?

Muitos estudos testaram estratégias para melhorar a prática dos profissionais de saúde e aumentar as chances dos pacientes receberam os melhores cuidados disponíveis. Estas estratégias incluem o envio de lembretes aos profissionais de saúde, oferecer oportunidades para eles terem mais educação, ou oferecer maior remuneração financeira. Estas estratégias tiveram, na sua maioria, apenas efeitos pequenos ou moderados. Outra forma de mudar o que os profissionais de saúde fazem é através dos próprios pacientes. Estas estratégias são designadas por "intervenções mediadas pelo paciente".

Quais são os principais resultados da revisão?

Os estudos desta revisão avaliaram diferentes estratégias mediadas pelo paciente versus cuidados habituais ou nenhuma estratégia.

Estratégias em que os pacientes dão informações aos profissionais de saúde

Nesses estudos, os pacientes deram ao médico informações sobre sua própria saúde, preocupações ou necessidades. Isto era normalmente feito através do preenchimento de um questionário na sala de espera antes de uma consulta. O médico recebeu essas informações antes ou durante a consulta. A revisão mostra que estas estratégias:

- provavelmente melhoram o quanto os profissionais de saúde seguem as práticas clínicas recomendadas (evidência de qualidade moderada).

Não temos certeza sobre o efeito dessas estratégias na saúde do paciente, na satisfação do paciente e no uso dos recursos de saúde, porque esses desfechos não foram mensurados nos estudos ou porque a qualidade dessa evidência é muito baixa.

Estratégias em que a informação foi dada aos pacientes

Nesses estudos, os pacientes receberam informações sobre os cuidados recomendados ou lembretes para usar os serviços de saúde, por exemplo para fazer um check-up. A revisão mostra que estas estratégias:

- podem melhorar o quanto os profissionais de saúde seguem as práticas clínicas recomendadas (baixa qualidade da evidência);

- podem ter pouco ou nenhum efeito na satisfação do paciente (baixa qualidade da evidência);

- podem ter pouco ou nenhum efeito em alguns resultados de saúde do paciente, como o número de pacientes que conseguem controlar a pressão arterial (evidência de baixa qualidade). No entanto, estamos incertos sobre o efeito dessas estratégias em outros resultados de saúde do paciente, porque a qualidade da evidência é muito baixa. Também faltam informações para chegarmos a conclusões sobre a utilização dos recursos de saúde.

Estratégias de educação dos pacientes

Nesses estudos, os pacientes participaram da educação do paciente, como programas de autogestão, por exemplo, para aumentar seu conhecimento sobre sua condição. A revisão mostra que estas estratégias:

- provavelmente melhoram o quanto os profissionais de saúde seguem as práticas clínicas recomendadas (evidência de qualidade de moderada);

- podem melhorar ligeiramente alguns resultados de saúde do paciente, como o número de pacientes que conseguem controlar a pressão arterial (evidência de baixa qualidade). No entanto, não temos certeza sobre o efeito dessas estratégias em outros desfechos de saúde do paciente, satisfação do paciente e uso de recursos de saúde, pois esses desfechos não foram mensurados nos estudos incluídos.

Estratégias envolvendo instrumentos para auxiliar o paciente a tomar decisões

Um único estudo avaliou esse tipo de estratégia. Nesse estudo, os pacientes receberam um folheto, um formulário pessoal para monitorar seus dados e uma fita de áudio para ajudá-los a tomar decisões sobre seus cuidados de saúde. A revisão mostra que estas estratégias:

- podem ter pouco ou nenhum efeito sobre quanto os profissionais de saúde seguem as práticas clínicas recomendadas (evidência de baixa qualidade)

Não temos certeza sobre o efeito dessas estratégias na saúde do paciente, na satisfação do paciente e no uso dos recursos de saúde, porque esses desfechos não foram mensurados nos estudos ou porque a qualidade dessa evidência é muito baixa.

Quão atualizada é esta revisão?

Buscamos estudos que tivessem sido publicados até março de 2018 e estudos em andamento até outubro de 2017.

Conclusão dos autores: 

Dois tipos de intervenções mediadas pelo paciente, a informação de saúde reportada pelo paciente e a educação do paciente, provavelmente melhoram a prática profissional, aumentando a adesão dos profissionais de saúde às práticas clínicas recomendadas (evidência de qualidade moderada). O tamanho desse efeito é pequeno a moderado. Outras intervenções mediadas pelo paciente, como a informação do paciente, também podem melhorar a prática profissional (evidência de baixa qualidade). O uso de instrumentos para ajudar o paciente a tomar decisões faz pouca ou nenhuma diferença no número de profissionais de saúde que aderem às práticas clínicas recomendadas (evidência de baixa qualidade).

O impacto destas intervenções na saúde e satisfação dos pacientes, nos eventos adversos e na utilização dos recursos de saúde é mais incerto. Isso se deve, principalmente, à existência de evidências de qualidade muito baixa ou à falta de evidências.

Leia o resumo na íntegra...
Contexto: 

Os profissionais de saúde são atores importantes para garantir a qualidade dos cuidados de saúde e a segurança dos pacientes. Porém, os profissionais de saúde nem sempre seguem as práticas clínicas recomendadas. Há muitas abordagens para influenciar a prática dos profissionais de saúde. Estas abordagens incluem auditoria e feedback, lembretes, materiais educativos, visitas de sensibilização, reuniões ou conferências educativas, atuação de líderes de opinião locais, incentivos financeiros e intervenções organizacionais. Nesta revisão, avaliamos a efetividade das intervenções mediadas pelo paciente. Estas intervenções visam modificar o desempenho dos profissionais de saúde através de interações com os doentes, ou através da informação fornecida pelos ou aos doentes. Exemplos de intervenções mediadas pelo paciente incluem: 1) informação sobre saúde relatada pelo paciente, 2) informação do paciente, 3) educação do paciente, 4) feedback do paciente sobre a prática clínica, 5) instrumentos para ajudar o paciente na tomada de decisões, 6) inclusão de pacientes, ou representantes do paciente, em comitês ou conselhos, e 7) treinamento ou educação dos profissionais de saúde liderados pelo paciente.

Objetivos: 

Avaliar a efetividade de intervenções mediadas pelo paciente no desempenho dos profissionais de saúde (adesão às diretrizes ou recomendações clínicas).

Estratégia de busca: 

Fizemos buscas nas seguintes bases de dados: MEDLINE, Ovid em março de 2018, Cochrane Central Register of Controlled Trials (CENTRAL) em março de 2017, ClinicalTrials.gov e International Clinical Trials Registry (ICTRP) em setembro de 2017, e OpenGrey, Grey Literature Report e Google Scholar em outubro de 2017. Também avaliamos as listas de referência dos estudos incluídos e fizemos pesquisas sobre estudos que citavam todos estudos incluídos, em outubro de 2017.

Critérios de seleção: 

Incluímos ensaios clínicos randomizados (ECR) que compararam intervenções mediadas pelo paciente versus cuidados habituais ou outras intervenções para melhorar a prática profissional.

Coleta dos dados e análises: 

Dois autores, trabalhando de forma independente, selecionaram os estudos, extraíram dados e avaliaram o risco de viés dos estudos incluídos. Calculamos a razão de risco (RR) para desfechos dicotômicos utilizando a estatística de Mantel-Haenszel e o modelo de efeitos aleatórios. Para os desfechos contínuos, calculamos a diferença média (DM) usando a estatística de variância inversa. Dois autores de revisão, trabalhando de forma independente, avaliaram a qualidade geral (certeza) da evidência (GRADE).

Resultados principais: 

Incluímos 25 estudos envolvendo um total de 12.268 pacientes. O número de profissionais de saúde incluídos nos estudos variou de 12 a 167, nos estudos que relataram essa informação. Os estudos incluídos avaliaram quatro tipos de intervenções mediadas por pacientes: 1) intervenções de informação sobre a saúde comunicadas pelos pacientes (por exemplo, informação obtida junto dos doentes sobre a sua própria saúde, preocupações ou necessidades antes de um encontro clínico), 2) intervenções de informação para o paciente (por exemplo, quando os doentes são informados ou lembrados que devem receber cuidados recomendados), 3) intervenções de educação dos pacientes (destinadas a aumentar os conhecimentos dos doentes sobre a sua condição e opções de cuidados, por exemplo), e 4) instrumentos para ajudar os pacientes na tomada de decisões (quando o doente recebe informações sobre as opções de tratamento, incluindo riscos e benefícios). Produzimos uma meta-análise separada para cada tipo de intervenção mediada pelo paciente.

As intervenções de informação de saúde relatadas pelos pacientes provavelmente melhoram a adesão dos profissionais de saúde às práticas clínicas recomendadas (evidência de qualidade moderada). Verificamos que, para cada 100 pacientes consultados ou tratados, 26 (IC 95% 23 a 30) recebem tratamentos que estão de acordo com a prática clínica recomendada (no grupo intervenção), contra 17 por 100 no grupo de comparação (sem intervenção ou cuidados habituais). Estamos incertos sobre o efeito das intervenções de informação de saúde relatadas pelos pacientes sobre a melhora da saúde e a satisfação dos pacientes (evidência de qualidade muito baixa). Os estudos não relataram eventos adversos ou desfechos indesejáveis na saúde do paciente. O uso de recursos de saúde foi pouco relatado.

As intervenções de informação dos pacientespodem melhorar a adesão dos profissionais de saúde às práticas clínicas recomendadas (evidência de baixa qualidade). Verificamos que, para cada 100 pacientes consultados ou tratados, 32 (IC 95% 24 a 42) foram tratados de acordo com a prática clínica recomendada (no grupo intervenção), contra 20 por 100 no grupo de comparação (sem intervenção ou cuidados habituais). As intervenções de informação ao paciente podem ter pouco ou nenhum efeito nos desfechos desejáveis sobre a saúde do paciente e na satisfação do paciente (evidência de baixa qualidade). Estamos incertos quanto ao efeito das intervenções de informação ao paciente sobre desfechos indesejáveis sobre a saúde do paciente, porque a qualidade da evidência é muito baixa. Os estudos incluídos não relataram eventos adversos ou o uso de recursos de saúde.

As intervenções de educação dos pacientes provavelmente melhoram a adesão dos profissionais de saúde às práticas clínicas recomendadas (evidência de qualidade moderada). Verificamos que, para cada 100 pacientes consultados ou tratados, 46 (IC 95% 39 a 54) foram tratados de acordo com a prática clínica recomendada (no grupo intervenção), contra 35 por 100 no grupo de comparação (sem intervenção ou cuidados habituais). As intervenções de educação de pacientes podem aumentar ligeiramente o número de pacientes com desfechos de saúde desejáveis (evidência de baixa qualidade). Os estudos incluídos não relataram desfechos indesejáveis na saúde do paciente, satisfação do paciente, eventos adversos e uso de recursos de saúde.

As intervenções envolvendo instrumentos para ajudar o paciente a tomar decisões podem ter pouco ou nenhum efeito sobre a adesão dos profissionais de saúde às práticas clínicas recomendadas (evidência de baixa qualidade). Verificamos que, para cada 100 pacientes consultados ou tratados, 32 (IC 95% 24 a 43) recebem tratamentos que estão de acordo com a prática clínica recomendada (no grupo intervenção), contra 37 por 100 no grupo de comparação (cuidados habituais). Os estudos incluídos não relataram desfechos de saúde dos pacientes, satisfação dos pacientes, eventos adversos e uso de recursos de saúde.

Notas de tradução: 

Tradução do Cochrane South Africa e Cochrane Africa em parceria com o Cochrane Brazil (Beatriz Manuel e Maria Regina Torloni). Contato: tradutores@centrocochranedobrasil.org.br

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