Metabolômica para melhorar os resultados da gravidez

Pergunta da revisão

Os autores revisaram as evidências sobre a efetividade da metabolômica como uma ferramenta de avaliação para melhorar as taxas de gestação em curso, nascidos vivos, e aborto espontâneo em mulheres submetidas à tecnologia de reprodução assistida (TRA).

Introdução

A metabolômica é o estudo científico das "impressões digitais" químicas que as células, tecidos ou órgãos biológicos produzem após vários processos celulares. A metabolômica é um poderoso método não-traumático para avaliar a qualidade dos oócitos, a viabilidade dos embriões, e a receptividade do endométrio das mulheres subférteis submetidas à TRA. O objetivo final do uso dessa ferramenta é reduzir a alta taxa de gestações múltiplas, e melhorar o desempenho da TRA. Porém, as evidências sobre o uso dessa ferramenta permanecem contraditórias. Portanto avaliamos as evidências atuais sobre a efetividade da metabolômica versus as técnicas convencionais (como avaliação apenas por morfologia) para fornecer informações suficientes sobre a adequação fisiológica e funcional de embriões, oócitos, e do endométrio, para facilitar o tratamento de mulheres com problemas de fertilidade.

Características do estudo

Encontramos quatro ensaios clínicos controlados randomizados (ECRs), com um total de 924 mulheres, que compararam o uso da metabolômica versus a avaliação da morfologia dos embriões. As mulheres tinham uma média de idade de 33 anos. Todos os estudos foram realizados entre 2011 e 2013; o tempo de seguimento não foi especificado em nenhum deles. A evidência é atual até 26 de fevereiro de 2018.

Fontes de financiamento dos estudos

Um estudo recebeu apoio financeiro de uma empresa de biotecnologia (Molecular Biometrics Inc.). A superioridade condicional muito baixa para o desfecho primário e o encerramento prematuro do estudo foram potencialmente associados ao interesse do financiador nos resultados. Um estudo recebeu financiamento de uma organização nacional de saúde, mas o equipamento foi fornecido pela Molecular Biometrics Inc. Outro estudo foi autofinanciado. O quarto estudo não relatou nada sobre fonte de financiamento.

Resultados principais

Encontramos evidência de baixa qualidade de que não há diferença significativa entre os grupos nas taxas de nascidos vivos, gestação em curso, aborto espontâneo, ou gravidez clínica e gravidez múltipla. Encontramos evidência de muito baixa qualidade de que não há diferença significativa entre os grupos para gravidez ectópica. Existem evidência de baixa qualidade de que as taxas de cancelamento foram maiores no grupo intervenção. Nossos achados sugerem que se a taxa de nascidos vivos ou de gestação em curso fosse de 36% no grupo sem metabolômica, essa taxa seria de 32% a 45% no grupo com uso da metabolômica. Não havia dados sobre outros efeitos adversos. Não encontramos nenhum estudo bem delineado que avaliou os efeitos do uso da metabolômica sobre a qualidade do oócito ou a receptividade do endométrio.

Qualidade da evidência

A qualidade geral da evidência variou de baixa a muito baixa. Os motivos para rebaixar a qualidade da evidência foram o alto risco de viés dos estudos (decorrente do relato inadequado dos métodos, viés de atrito, de relato seletivo e outros viéses), a imprecisão, e inconsistência dos dados entre os estudos.

Conclusão dos autores: 

Baseado nos ensaios clínicos disponíveis, não existe evidência de que o uso da metabolômica para avaliar os embriões antes da implantação em mulheres submetidas a TRA tenha qualquer efeito significativo nas taxas de nascidos vivos, gravidez em curso, aborto espontâneo, gravidez múltipla, gravidez ectópica ou anomalias fetais. A qualidade da evidência foi muito baixa a baixa. Os dados sobre outros eventos adversos foram escassos. Assim, não conseguimos chegar a conclusões a este respeito. No momento, não há evidência suficiente para apoiar ou rejeitar o uso dessa técnica em mulheres com problemas de fertilidade submetidas à TRA. É necessário realizar mais ECRs sobre os efeitos de usar a metabolômica na avaliação da viabilidade embrionária nas taxas de nascidos vivos e abortos espontâneos. Também são necessários ECRs bem delineados e conduzidos para estudar os efeitos da metabolômica na avaliação da qualidade dos oócitos e da receptividade endometrial, uma vez que não existem atualmente estudos sobre isso.

Leia o resumo na íntegra...
Contexto: 

A metabolômica é uma ferramenta que foi desenvolvida para melhorar a baixa efetividade das tecnologias de reprodução assistida (TRA) e a elevada incidência de gestações múltiplas. A metabolômica, um método não invasivo para avaliar a qualidade dos óvulos, a viabilidade embrionária, e a receptividade endometrial, facilita o tratamento da subfertilidade.

Objetivos: 

Avaliar a efetividade e a segurança da metabolômica na avaliação da qualidade dos oócitos, da viabilidade embrionária, e da receptividade endometrial para melhorar as taxas de nascidos vivos ou de gravidez em curso em mulheres submetidas à TRA, em comparação com os métodos convencionais de avaliação.

Estratégia de busca: 

Em fevereiro de 2018 fizemos buscas na Cochrane Gynaecology and Fertility Group Trials Register, CENTRAL, MEDLINE, Embase, CINAHL e em duas plataformas de registros de ensaios clínicos. Também examinamos as listas de referências de estudos primários e artigos de revisão, as listas de citações de publicações relevantes, e os resumos dos principais congressos científicos sobre o tema..

Critérios de seleção: 

Incluímos ECR que testaram a metabolômica para avaliar a qualidade dos oócitos, a viabilidade embrionária, e receptividade endometrial em mulheres submetidas à TRA.

Coleta dos dados e análises: 

Dois revisores, trabalhando de forma independente, avaliaram a elegibilidade dos estudos e o risco de viés, e extraíram os dados. Os desfechos primários foram as taxas de nascidos vivos ou gravidez em curso (desfecho composto) e de aborto espontâneo. Os desfechos secundários foram gravidez clínica, gravidez múltipla e ectópica, cancelamento do ciclo, e anomalias fetais. Combinamos dados para calcular as razões de chances (OR) para dados dicotômicos e seus intervalos de confiança (IC) de 95%. Avaliamos a heterogeneidade estatística usando o I². Usamos o GRADE para avaliar a qualidade das evidências para as principais comparações.

Resultados principais: 

Incluímos quatro ECRs com um total de 924 mulheres, com idade média de 33 anos. Todos os estudos testaram a metabolômica na avaliação da viabilidade embrionária. Não encontramos nenhum ECR que tivesse usado a metabolômica na avaliação da qualidade do oócito ou da receptividade endometrial.

Encontramos evidência de baixa qualidade de que há pouca ou nenhuma diferença entre a avaliação metabolômica versus não metabolômica de embriões para taxas de nascidos vivos ou gravidez em curso (OR 1,02, IC 95% 0,77 a 1,35, I² = 0%, quatro ECRs, N = 924), taxa isolada de nascidos vivos (OR 0,99, IC 95% 0,69 a 1,44, I² = 0%, três ECRs, N = 597), ou taxa de aborto espontâneo (OR 1,18, IC 95% 0,77 a 1,82, I² = 0%, três ECRs, N = 869) A análise de sensibilidade excluindo estudos com alto risco de viés não modificou os resultados para nascidos vivos ou gravidez em curso (OR 0,90, IC 95% 0,66 a 1,25, I² = 0%, dois ECRs, N = 744). Nossos achados sugerem que se a taxa de nascidos vivos ou de gravidez em curso fosse de 36% no grupo sem metabolômica, essa taxa seria de 32% até 45% no grupo com uso da metabolômica

Encontramos evidência de baixa qualidade de que há pouca ou nenhuma diferença entre os grupos nas taxas de gravidez clínica (OR 1,11, IC 95% 0,85 a 1,45, I²= 44%, quatro estudos, N = 924) ou gravidez múltipla (OR 1,50, IC 95% 0,70 a 3,19, I² = 0%, dois ECRs, N = 180). As taxas de cancelamento do ciclo foram maiores no grupo metabolômica (OR 1,78; IC 95% 1,18 a 2,69, I² = 51%, dois ECRs, N = 744, evidência de baixa qualidade). Encontramos evidência de qualidade muito baixa de que há pouca ou nenhuma diferença entre os grupos nas taxas de gravidez ectópica (OR 3,00, IC 95% 0,12 a 74,07, um ECR, N = 417) e anomalias fetais (0 eventos, um ECR, N = 125). Não havia dados sobre outros efeitos adversos. A análise de sensibilidade excluindo estudos com alto risco de viés não modificou os resultados para gravidez clínica (OR 1,03, IC 95% 0,76 a 1,38, I² = 40%, dois ECRs, N = 744).

No geral, a qualidade da evidência foi muito baixa ou baixa. Os motivos para rebaixar a qualidade da evidência foram o alto risco de viés dos estudos (decorrente do relato inadequado dos métodos, ao viés de atrito, de relato seletivo e outros vieses), a imprecisão, e a inconsistência dos dados entre os estudos.

Notas de tradução: 

Tradução do Cochrane Brasil (Janaína Aderaldo e Ana Carolina P. Nunes Pinto). Contato: tradutores@centrocochranedobrasil.org.br

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