A terapia de movimentos de dança é um tratamento efetivo para a depressão? Uma revisão da evidência

Por que essa revisão é importante?

A depressão afeta 350 milhões de pessoas no mundo, impactando na qualidade de vida, trabalho, relacionamentos e saúde física. Os remédios e os tratamentos psicológicos nem sempre são adequadas ou estão disponíveis. A terapia de movimentos de dança (DMT) utiliza movimentos corporais para explorar e expressar emoções em grupo ou individualmente. Esta é a primeira revisão sobre a efetividade da DMT para o tratamento de pessoas com depressão. Esta revisão irá se somar às evidências disponíveis sobre os tratamentos existentes para depressão.

Quem pode se interessar nesta revisão?

Pessoas que sofrem de depressão.

Médicos generalistas.

Profissionais da saúde mental.

Profissionais da área de psicologia e psicoterapia.

Quais perguntas esta revisão procurou responder?

A DMT é mais efetiva do que nenhum tratamento ou o tratamento habitual?

A DMT é mais efetiva do que os tratamentos psicológicos?

A DMT é mais efetiva do que os remédios?

A DMT é mais efetiva do que tratamentos físicos como dançar ou fazer exercícios?

Quão eficientes são os diferentes tipos de DMT?

Quais estudos foram incluídos na revisão?

Em outubro de 2014, fizemos buscas em bases de dados procurando por estudos randomizados controlados publicados e não publicados sobre DMT para depressão. Os participantes dos estudos poderiam ter qualquer idade, sexo ou etnia. Três estudos (147 participantes) preencheram os critérios de inclusão: dois com adultos (homens e mulheres) e um com adolescentes (somente mulheres).

O que as evidências da revisão nos dizem?

Devido ao pequeno número de estudos e à baixa qualidade da evidência, as conclusões sobre a efetividade da DMT para depressão não são robustas. Devido à falta de estudos, não pudemos comparar DMT versus remédios, tratamento psicológico, tratamentos físicos ou diferentes tipos de DMT. As principais conclusões foram:

No geral, não há evidência nem contra nem a favor da DMT para o tratamento de pessoas com depressão. Existe alguma evidência de que a DMT é mais efetiva do que os cuidado habituais em adultos. Porém, essa diferença não foi significante do ponto de vista clínico. Para os jovens, a DMT não é mais efetiva que os cuidados padrão.

Um único estudo de baixa qualidade metodológica sugeriu que as taxas de abandono do grupo DMT não foram significantes, e que a DMT não produziu efeitos sobre a qualidade de vida ou a autoestima dos participantes. A DMT produziu um grande efeito positivo na função social. Porém, como esse resultado foi proveniente de apenas um estudo de baixa qualidade metodológica, esse resultado é considerado impreciso.

O que deveria acontecer a seguir?

Futuros estudos devem ser de alta qualidade metodológica, e devem comparar a DMT com outros tratamentos para depressão, e incluir análises econômicas.

Conclusão dos autores: 

A evidência de baixa qualidade dos três estudos envolvendo147 participantes não permite conclusões robustas quanto à efetividade da DMT para o tratamento da depressão. É necessário realizar ECR maiores e de alta qualidade metodológica para avaliar a DMT no tratamento da depressão. Esses novos estudos devem também realizar análises econômicas e avaliar a aceitabilidade da intervenção em participantes de todas faixas etárias.

Leia o resumo na íntegra...
Contexto: 

A depressão é uma condição debilitante que afeta mais de 350 milhões de pessoas no mundo. (WHO 2012). Existem poucos tratamentos baseados em evidências para essa doença. Os tratamentos farmacológicos podem ser inapropriados devido aos efeitos colaterais e aos custos, e nem todas as pessoas conseguem fazer tratamentos psicológicos. Existe uma necessidade de tratamentos baseados em evidências que possam ser usados em várias culturas e com pessoas que têm dificuldade em expressar seus pensamentos e sentimentos. A terapia de movimento de dança (DMT) é utilizada em pessoas de diferentes culturas e níveis intelectuais. Porém sua efetividade continua incerta.

Objetivos: 

Avaliar os efeitos da DMT com ou sem tratamento habitual para depressão, versus nenhum tratamento ou apenas tratamento habitual, terapias psicológicas, tratamento com medicamentos, ou outras intervenções físicas. Comparar a efetividade de diferentes tipos de DMT.

Estratégia de busca: 

Fizemos buscas nas seguintes bases de dados: The Cochrane Depression, Anxiety and Neurosis Review Group's Specialised Register (CCDANCTR-Studies and CCDANCTR-References), CINAHL, the World Health Organization's International Clinical Trials Registry Platform (WHO ICTRP) e ClinicalTrials.gov. A busca foi feita no dia 2 de outubro de 2014. Os autores da revisão também pesquisaram a Allied and Complementary Medicine Database (AMED), the Education Resources Information Center (ERIC) e Dissertation Abstracts em agosto de 2013. Também fizeram busca manual nas listas de referências, entraram em contato com associações profissionais, programas educacionais, e especialistas em terapia de dança no mundo todo.

Critérios de seleção: 

Incluímos ensaios clínicos randomizados (ECRs) que recrutaram pacientes deprimidos (segundo a definição dos pesquisadores) de qualquer idade e que testaram DMT em pelo menos um grupo. A DMT foi definida como: prática de movimentos de dança com intenção psicoterapêutica, auxiliada por um indivíduo com nível de treinamento esperado para o país no qual o estudo foi realizado. Por exemplo, nos Estados Unidos, essa pessoa poderia ser um estagiário ou um profissional qualificado e credenciamento pelo American Dance Therapy Association (ADTA). No Reino Unido, o terapeuta poderia estar em treinamento ou já ser credenciado pela Association for Dance Movement Psychotherapy (ADMP, UK). Na Europa existem profissionais corporais semelhantes. Porém, em alguns países (como a China) onde a profissão ainda está em desenvolvimento, o nível de qualificação do profissional seria menor, e semelhante ao dos profissionais que atuavam nos Estados Unidos e Reino Unido décadas atrás. Portanto, os autores da revisão aceitaram uma qualificação profissional relevante (por exemplo, enfermagem ou terapias psicodinâmicas) além de uma descrição clara do tratamento que indicaria sua adesão a diretrizes como Levy 1992, ADMP UK 2015, Meekums 2002 e Karkou 2006.

Coleta dos dados e análises: 

Dois autores, trabalhando de forma independente, avaliaram a elegibilidade e a qualidade dos estudos e extraíram os dados. Em caso de conflito, um terceiro autor foi acionado para agir como mediador.

Resultados principais: 

Três estudos envolvendo 147 participantes (107 adultos e 40 adolescentes) preencheram os critérios de inclusão. Um total de 74 participantes fizeram DMT e 73 ficaram no grupo controle. Dois estudos incluíram adultos, homens e mulheres,, com depressão. Um desses estudos incluiu pacientes ambulatoriais. O outro estudo envolveu pacientes internados em um hospital urbano. O terceiro estudo envolvia mulheres adolescentes que frequentavam uma escola de ensino médio. Todos os estudos incluídos coletaram dados contínuos utilizando dois tipos de medidas de depressão: o Hamilton Depression Rating Scale (HAM-D) que era preenchida pelo médico, e o Symptom Checklist-90-R (SCL-90-R) (auto-relatada).

Houve heterogeneidade estatística entre os três estudos. Não houve efeito do DMT na depressão (SMD -0,67, IC 95% -1,40 a 0,05, evidência de qualidade muito baixa). A análise de subgrupo mostrou um efeito positivo em adultos (SMD -7,33, IC 95% 9,92 a -4,73, 2 estudos, 107 participantes). Porém, essa diferença não foi clinicamente relevante.

Apenas um estudo, envolvendo apenas adultos, avaliou taxa de abandono e não encontrou diferença significante entre os grupos (OR 1,82, IC 95% 0,35 a 9,45, evidência de baixa qualidade). Um estudo avaliou a função social dos participantes e encontrou um grande efeito positivo da DMT(MD -6,80, IC 95 % -11,44 a -2,16, evidência de qualidade muito baixa). Porém esse resultado foi impreciso. Um estudo relatou não haver diferença na qualidade de vida (0,30, IC 95% -0.60 a 1.20, evidência de baixa qualidade) nem na autoestima (1,70, IC 95% -2.36 a 5,76,evidência de baixa qualidade).

Notas de tradução: 

Tradução do Centro Cochrane do Brasil (Poliana Peres Almeida Cassimiro e Maria Regina Torloni). Contato: tradutores@centrocochranedobrasil.org.br

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