A oferta pré-operatória de suplementos de carboidratos a pacientes a serem submetidos a cirurgias eletivas melhora a recuperação?

Questão revisada

Nós revisamos as evidências dos efeitos dos suplementos de carboidratos na recuperação de pacientes a serem submetidos a cirurgias eletivas. Encontramos 27 estudos investigando essa questão.

Histórico

Suplementos nutricionais com carboidratos (açúcares) têm se tornado rotina dentre os cuidados destinados a pacientes que serão submetidos a cirurgias eletivas. Nós tentamos descobrir se os suplementos com carboidratos são úteis como parte dos cuidados utilizados por médicos para acelerar a recuperação após cirurgias eletivas.

Características do estudo

A evidência está atualizada até março de 2014 Nós identificamos 27 estudos e incluímos os desfechos de 1976 participantes Os estudos investigaram os desfechos de pacientes submetidos a cirurgias abdominais eletivas (18), ósseas ou articulares (4), cardíacas (4) ou da glândula tireóide (1).

Dezoito estudos compararam suplementos de carboidratos versus um placebo com idêntica aparência para beber, sem que este contivesse carboidratos. Em seis desses estudos, um grupo adicional de pacientes não recebeu nada para beber ou comer por pelo menos seis horas antes da cirurgia. Em nove estudos, a ingesta de suplementos com carboidratos foi comparada com o jejum absoluto por seis horas antes da cirurgia.

Os desfechos primários de como tempo de internação e taxa de complicações foram relatados em 19 e em 14 estudos respectivamente.

Principais resultados

Pacientes que receberam carboidratos antes de cirurgias eletivas tiveram alta domiciliar cerca de 0,04 e 0,56 dias mais cedo do que os que receberam placebo ou que não receberam nada para comer ou beber antes da cirurgia. Suplementos de carboidratos tiveram pouco ou nenhum efeito na taxa de complicações ou em como os pacientes se sentiram durante a internação, no período de recuperação da cirurgia.

Qualidade de evidência

A qualidade de evidência variou no geral de muito baixa a alta. A qualidade de evidência a favor do uso de suplementos de carboidratos resultando em menor tempo de internação foi muito baixa porque os estudos incluídos tiveram falhas importantes em seus desenhos. Houve uma grande variedade de resultados descrita. Evidências revelaram que os estudos que não mostraram diferenças no tempo de internação podem não ter sido publicados. Quando olhamos apenas para os estudos que foram bem conduzidos, observamos que os suplementos de carboidratos tiveram pequeno ou nenhum efeito no tempo de internação.

A qualidade de evidência a favor dos suplementos de carboidratos na taxa de complicações foi baixa porque foram identificadas questões nos desenhos dos estudos, e porque os resultados não foram semelhantes entre os estudos.

Conclusão dos autores: 

Tratamento pré-operatório com carboidrato foi associado a uma pequena diminuição no tempo de duração quando comparado com os grupos placebo ou jejum em pacientes submetidos a cirurgias eletivas. Observou-se que o tratamento pré-operatório com carboidrato não aumentou nem diminuiu as taxas de complicação pós-operatória quando comparado com os grupos placebo ou jejum. A ausência de meios adequados para tornar muitos estudos encobertos pode ter contribuído para uma observação subjetiva desses resultados, que estão sujeitos a possíveis vieses.

Leia o resumo na íntegra...
Contexto: 

Tratamentos com carboidratos no pré-operatório têm sido amplamente adotados como parte dos protocolos de recuperação rápida após cirurgias. Embora os protocolos de cirurgia com rápida recuperação estejam sendo amplamente investigados e estejam sendo associados com melhoras nos desfechos pós-operatórios, alguns componentes individuais desses protocolos, incluindo o tratamento pré-operatório com carboidratos, não têm sido submetidos a análises consistentes.

Objetivos: 

Para avaliar os efeitos dos carboidratos pré-operatórios comparados com placebo ou com jejum na recuperação pós-operatória e na resistência à insulina de pacientes adultos submetidos a cirurgias eletivas.

Estratégia de busca: 

Nós procuramos no Registro central de Estudos controlados Cochrane (2014, questão 3), MEDLINE (janeiro de 1946 a março de 2014), EMBASE (janeiro de 1947 a março de 2014), Literatura do índice cumulativo para enfermagem e aliados da saúde (janeiro de 1980 a março de 2014) e rede da ciência (janeiro de 1900 a março de 2014) bases de dados. Não aplicamos restrição de língua na procura por publicações. Nós procuramos listas de referências de artigos relevantes e contactamos autores conhecidos no campo para identificar dados não publicados.

Critérios de seleção: 

Nós incluímos todos os estudos randomizados de tratamento pré-operatório com carboidratos comparados com placebo ou com o tradicional jejum pré-operatório em adultos a serem submetidos a cirurgias eletivas. Os grupos tratados precisaram receber pelo menos 45 g de carboidratos nas quatro horas que antecederam a cirurgia ou o início da anestesia.

Coleta dos dados e análises: 

Os dados foram retirados independentemente por pelo menos dois autores de revisão, com discrepâncias resolvidas por consenso. Os dados foram retirados e documentados pro forma e foram inseridos no RevMan 5.2 para análise. A avaliação da qualidade foi realizada independentemente por dois autores de revisão, de acordo com procedimentos metodológicos padronizados, propostos pela colaboração Cochrane. Quando os dados disponíveis foram insuficientes para a avaliação da qualidade ou análise dos dados, os autores dos estudos foram contactados para prestar maiores informações, quando necessárias. Nós procuramos estudos com informações sobre taxas de complicação e pneumonite aspirativa.

Resultados principais: 

Nós incluímos 27 estudos, envolvendo 1976 participantes. Os estudos foram realizados na Europa, China, Brasil, Canadá e Nova Zelândia e envolveram pacientes submetidos a cirurgias eletivas abdominais (18), ortopédicas (4), cardíaca (4) e tireoidectomia (1). Doze estudos foram limitados a participantes com grau I - II ou I - III da Sociedade Americana de Anestesiologistas.

Um total de 17 estudos, contendo pelo menos um aspecto considerado de alto risco para viés, e dois estudos foram considerados como de baixo risco para viés por todos os aspectos. De grande preocupação foi o risco de viés associado à questão do estudo ser encoberto inadequadamente, já que a maioria dos desfechos avaliados nessa revisão são subjetivos. Apenas seis estudos foram considerados de baixo risco para viés relacionado ao modo como foram encobertos.

Em 19 estudos, incluindo 1351 participantes, o tratamento pré-operatório com carboidratos foi associado com menor tempo de internação hospitalar comparado com o grupo placebo e com o grupo do jejum (em 0,30 dias; 95% intervalo de confiança (IC) 0,56 a 0.04; qualidade de evidência muito baixa). Nenhum efeito significativo no tempo de internação foi notado quando o tratamento pré-operatório com carboidrato foi comparado com o placebo (14 estudos incluindo 867 participantes; diferença média -0,13 dias; 95% IC -0,38 a 0,12). Baseado em dois estudos que incluíram 86 participantes, o tratamento pré-operatório com carboidrato foi associado com menor tempo de início da peristalse quando comparado com os grupos placebo ou jejum (em 0,39 dias, 95% IC 0,70 a 0,07), assim como aumento da sensibilidade periférica à insulina no pós-operatório ( três estudos incluindo 41 participantes, aumento médio na taxa média de infusão de glicose medida por presilha hiperinsulinêmica euglicêmica de 0,76 mg/kg/min; 95% IC 0,24 a 1,29; qualidade de evidência alta).

Conforme relatado por 14 estudos envolvendo 913 participantes, o tratamento pré-operatório com carboidratos não foi associado a aumento ou diminuição no risco de complicações pós-operatórias comparado com os grupos placebo ou jejum (risco de complicações 0,98, 95% IC 0,86 a 1,11; qualidade de evidência baixa). Pneumonia aspirativa não foi relatada em nenhum paciente, independentemente do grupo de tratamento ao qual pertenceu.

Notas de tradução: 

Tradução da Unidade de Medicina Baseada em Evidências da Unesp, Brazil (Deise Martins Rosa) Contato: portuguese.ebm.unit@gmail.com Translation notes: CD009161

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