Glicocorticóides administrados após procedimento cirúrgico de Kasai em crianças com ductos biliares bloqueados ou danificados (de forma congénita)

Medicamentos usados no pós-operatório (imediatamente após a cirurgia) em crianças com ductos biliares bloqueados ou danificados (ou seja, com atresia das vias biliares).

Pergunta de revisão
Os medicamentos (glicocorticóides) trazem benefício ou malefício à saúde das crianças com atresia das vias biliares submetidas ao procedimento cirúrgico de Kasai (ou seja, à portoenterostomia)? Fomos rever se existia alguma diferença em termos de mortalidade, necessidade de transplante hepático, icterícia pós-operatória (pigmentação amarelada ou esverdeada da pele e das escleróticas) e outros eventos adversos.

Contexto
A atresia das vias biliares é uma condição rara que ocorre em 1 a cada 30 000 nascimentos. Na atresia das vias biliares ocorre a obliteração ou descontinuidade do sistema biliar extra-hepático, resultando numa obstrução ao fluxo biliar, que fica retido no fígado, originando uma destruição hepática progressiva. A cirurgia chamada 'portoenterostomia de Kasai' tem como objetivo fazer uma ligação do intestino delgado ao local de maior acumulação de bílis no fígado. Este procedimento permite otimizar a drenagem dos ductos biliares intra-hepáticos diretamente para o intestino delgado. Medicamentos designados glicocorticóides têm sido utilizados historicamente no tratamento da atresia das vias biliares após a cirurgia. Dois benefícios dos glicocorticóides poderão ser o seu potencial anti-inflamatório e a sua capacidade de aumentar o fluxo biliar. Vários estudos foram realizados comparando crianças que tomavam glicocorticóides com as que tomavam placebo (substância inativa que pode ser produzida de forma a parecer um medicamento ou terapêutica ativa), no pós-operatório. Estes estudos tentam identificar se existem diferenças significativas em termos de icterícia, sobrevida e necessidade de transplante. Organizar ensaios clínicos randomizados que sejam suficientemente grandes para detectar diferenças é, porém, um desafio.

Características do estudo
A nossa pesquisa incluiu estudos até 20 de Dezembro de 2017. Identificámos 2 ensaios clínicos randomizados (em que os participantes foram distribuídos aleatoriamente pelos grupos de estudo) que cumpriam os critérios da nossa revisão e seguiam os participantes pelo menos 2 anos. Identificámos outros 19 estudos observacionais que continham algumas informações sobre efeitos nocivos do tratamento com glicocorticóides. Os dois ensaios randomizados incluíram 107 crianças que receberam glicocorticóides e 104 que receberam um placebo. Os ensaios foram financiados por instituições de caridade, organizações públicas e receberam apoio de empresas do setor privado, sendo que nenhum parecia ter qualquer interesse no resultado dos respectivos ensaios.

Financiamento
Os ensaios incluídos delinearam as suas fontes de financiamento e os autores da revisão consideraram não existir conflitos de interesse. Os autores da revisão não receberam qualquer financiamento para a realizar.

Resultados chave
Não encontrámos diferenças entre o grupo de crianças tratadas com glicocorticóides e o grupo tratado com placebo, em termos de mortalidade, eventos adversos, capacidade de eliminar a icterícia ou necessidade de transplante hepático.

Qualidade da evidência
Ambos os ensaios foram avaliados como tendo baixo risco de viés (ou seja, o risco de que o desenho ou os resultados apresentados não sejam verdadeiros), mas ambos tinham alto risco de imprecisão (avaliações pouco exatas dos resultados). Os ensaios categorizaram os eventos adversos de forma distinta, pelo que não foi possível combinar os seus resultados. Não pudemos incluir crianças suficientes na nossa análise (apenas dois ensaios publicados) de forma a detectar pequenas diferenças entre os dois grupos de intervenção. A confiança na evidência foi baixa para as medidas de eficácia de taxa de mortalidade, eventos adversos, capacidade de eliminar a icterícia ou necessidade de transplante hepático. Identificámos um outro ensaio clínico a decorrer, ainda sem resultados disponíveis.

Passos Futuros
Necessitamos de mais ensaios clínicos aleatorizados que comparem o uso de glicocorticóides com um placebo, de forma a perceber se os glicocorticóides apresentam benefício no tratamento pós-operatório dos doentes com atresia das vias biliares. Estes ensaios clínicos devem ser multicêntricos.

Notas de tradução: 

Notas de tradução: Tradução por Mariana Antunes Morgado, Serviço de Cirurgia Pediátrica do Hospital de Santa Maria, Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, com o apoio da Cochrane Portugal

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