Gabapentina para a dor aguda pós-operatória em adultos

A gabapentina é um medicamento usado principalmente para tratar a epilepsia e também a dor causada por danos aos nervos (dor neuropática). A gabapentina não é normalmente usada para tratar a dor devido a lesão ou dor após uma operação; é discutível se a gabapentina é um analgésico eficaz sob tais circunstâncias. Objetivamos investigar se a gabapentina é eficaz no tratamento de dor aguda pós-operatória em adultos. Foram identificados quatro ensaios clínicos não publicados com 370 participantes que receberam gabapentina ou placebo (pílula de açúcar). Gabapentina 250 mg fornece algum alívio na dor aguda pós-operatória, mas não é tão boa como outros medicamentos habitualmente utilizados neste cenário, particularmente ibuprofeno, diclofenaco e naproxeno, e provavelmente o paracetamol (acetaminofeno) sozinho ou em combinação com um opioide fraco.

No entanto, do ponto de vista científico, é interessante que um medicamento originalmente desenvolvido para tratar a epilepsia tenha qualquer efeito na dor pós-operatória. As questões que precisam ser pesquisadas agora, incluem a busca pela dose ótima, e se a combinação da gabapentina com analgésicos convencionais pode ser melhor para o alívio da dor pós-operatória do que essas medicações convencionais sozinhas.

Conclusão dos autores: 

A gabapentina 250 mg é estatisticamente superior ao placebo no tratamento da dor aguda pós-operatória, mas o NNT de 11 para o mínimo de alivio analgésico em 50% durante 6 horas com gabapentina 250 mg é de valor clínico limitado e inferior aos analgésicos comumente utilizados. A gabapentina 250 mg não é clinicamente utilizável como um analgésico único na dor aguda pós-operatória, embora essa seja provavelmente a primeira demonstração do efeito analgésico de um anti-epiléptico em dor aguda.

Leia o resumo na íntegra...
Contexto: 

A gabapentina é uma medicação anti-epiléptica, também utilizada no tratamento da dor neuropática, que é objeto de revisão Cochrane, atualmente em revisão.A sua eficácia no tratamento da dor aguda pós-operatória não foi demonstrada.

Objetivos: 

Avaliar a eficácia e segurança da dose única de gabapentina via oral comparado com o placebo em dor aguda pós-operatória utilizando métodos que permitam uma comparação com outros analgésicos.

Estratégia de busca: 

Buscamos na Cochrane CENTRAL, MEDLINE, EMBASE, e a Oxford Pain Relief Database. Estudos adicionais foram procurados em referências bibliográficas dos artigos e revisões incluídas. Base de dados de ensaios clínicos foram buscados para estudos não publicados; relatórios de ensaios clínicos de vários estudos não publicados foram tornados públicos após litígios nos EUA.

Critérios de seleção: 

Dose única oral, randomizado, duplo-cego, ensaios clínicos controlados por placebo de gabapentina para o alívio de dor pós-operatória moderada a grave em adultos.

Coleta dos dados e análises: 

Estudos foram avaliados para a qualidade metodológica e os dados foram extraídos por dois autores da revisão independentemente. Número de participantes com no mínimo de alívio analgésico de 50% do máximo possível (TOTPAR) ou soma da diferença da intensidade dolorosa (SPID) com gabapentina ou placebo foram calculados e utilizados para derivar o benefício relativo (BR) ou o risco (RR), e o número necessário para tratar (NNT). Número de participantes utilizando medicação de resgate, e o tempo para o seu uso, foram buscados como medidas adicionais de eficácia. Informações sobre eventos adversos e desistências foram coletados.

Resultados principais: 

Quatro estudos não publicados preencheram os critérios de inclusão; em três, os participantes tinham dor após a cirurgia dental, e um acompanhou cirurgia ortopédica maior; 177 participantes foram tratados com dose única de gabapentina 250 mg, 21 com gabapentina 500 mg, e 172 com placebo. Ao menos alívio analgésico de 50% durante 6 horas foi alcançado por 15% com gabapentina 250 mg e 5% com placebo; fornecendo um BR de 2,5 (IC 95% 1,2 a 5,0) e um NNT de 11 (6,4 a 35). Significativamente menos participantes necessitaram de medicação de resgate no prazo de 6 horas com gabapentina 250 mg do que com placebo; NNT para evitar o uso de 5,8. Cerca de um terço dos participantes relataram eventos adversos tanto com gabapentina 250 mg e placebo. Nenhum evento adverso grave ocorreu com gabapentina.

Notas de tradução: 

Traduzido por: Vinicius Sepúlveda Lima, Unidade de Medicina Baseada em Evidências da Unesp, Brazil. Contato: portuguese.ebm.unit@gmail.com

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