Antidepressivos versus placebo para o tratamento de pacientes com depressão atendidos na atenção primária

A depressão é muito comum em pacientes atendidos na atenção primária (por médicos de família). Porém, a maioria das revisões sistemáticas sobre tratamento com antidepressivos incluiu estudos realizados com pacientes atendidos na atenção secundária (por especialistas, como psiquiatras). Essa revisão foi feita porque existem dúvidas sobre a efetividade do tratamento com antidepressivos para pacientes atendidos na atenção primária. Fizemos extensas buscas por pesquisas sobre o tema e encontramos 14 estudos realizados com adultos (não idosos) atendidos na atenção primária que compararam o uso de antidepressivos tricíclicos (ADT) ou inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS) versus placebo no tratamento da depressão. Os resultados mostraram que tanto os ADT como os ISRS foram eficazes contra a depressão. A maioria dos estudos foi financiada pela indústria farmacêutica e foi de curta duração. Parece haver mais efeitos adversos com ADT do que com ISRS, porém as taxas de descontinuação da medicação devido aos efeitos adversos foram muito semelhantes entre as duas classes de antidepressivos. Os efeitos adversos que não levam à interrupção dos medicamentos parecem ser mais comuns com os ADT do que com os ISRS.

Conclusão dos autores: 

Tanto os ADTs como os ISRS são efetivos no tratamento de pacientes com depressão atendidos na atenção primária.

Leia o resumo na íntegra...
Introdução: 

Existe preocupação quanto à relevância dos estudos realizados na atenção secundária para os pacientes atendidos da atenção primária. Existe uma preocupação específica sobre a efetividade dos medicamentos antidepressivos. É necessário revisar a evidência proveniente apenas dos estudos realizados com pacientes atendidos na atenção primária tratados com antidepressivos versus placebo.

Objetivos: 

Avaliar a eficácia e aceitabilidade dos antidepressivos para o tratamento de pacientes (menores de 65 anos) com depressão atendidos na atenção primária.

Métodos de busca: 

Todas as buscas foram realizadas em setembro de 2007.

Fizemos buscas nas seguintes bases de dados: Cochrane Depression, Anxiety and Neurosis (CCDAN), MEDLINE, PsycINFO, EMBASE, LILACS, CINAHL e PSYNDEX. Dois pesquisadores, trabalhando de forma independente, avaliaram os resumos de todos os estudos potencialmente elegíveis para inclusão. Os pesquisadores também avaliaram as listas de referências dos estudos selecionados e de outras revisões relevantes. Entramos em contato com alguns autores e especialistas.

Critério de seleção: 

Incluímos ensaios clínicos controlados e randomizados que compararam antidepressivos tricíclicos (ADT) ou inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS) versus placebo em adultos. Excluímos os estudos com pacientes acima de 65 anos. Todos os participantes deveriam ter sido recrutados na atenção primária. Os estudos deveriam ter usado a Escala de Depressão de Hamilton ou a Escala de Montgomery-Asberg para avaliar desfechos contínuos.

Coleta dos dados e análises: 

Dois pesquisadores, trabalhando de forma independente, coletaram dados dos estudos usando uma ficha de extração de dados. As divergências foram resolvidas por discussão. Um processo semelhante foi utilizado para a avaliação da validade. Usamos o Review Manager 5 para combinar os dados. O desfecho primário foi redução da depressão, baseada em uma medida dicotômica da resposta clínica, usando risco relativo (RR), e em uma medida contínua dos sintomas da depressão, usando a diferença média (DM), com intervalos de confiança (IC) de 95%.

Principais resultados: 

Incluímos na revisão 14 estudos (16 comparações) com dados que puderam ser extraídos. Dez estudos avaliaram ADT, dois avaliaram ISRS, e dois avaliaram os dois tipos de antidepressivos. Todos os estudos compararam antidepressivos versus placebo. O número total de participantes nos grupos intervenção e placebo foi 1364 e 919, respectivamente. Quase todos os estudos foram de curta duração, com seguimento por 6–8 semanas. Os ADTs foram mais efetivos do que o placebo: RR 1,24, IC 95% 1,11 a 1,38. Os ISRS também foram mais efetivos do que o placebo: RR 1,28, IC 95% 1,15 a 1,43. Para os ADTs, o número necessário para tratar (NNT) variou de 7 a 16, (NNT mediano de 9) e a taxa de eventos esperados em pacientes variou de 63% a 26%. Para os ISRS, o NNT variou de 7 a 8 (NNT mediano de 7) e a taxa de eventos esperados variou de 48% a 42%. Par os ADTs, o número necessário para causar dano (NNH para descontinuação devido a efeitos colaterais) variou de 4 a 30 (excluindo três estudos sem eventos adversos que tenham levado à descontinuação). Para os ISRS, o NNH variou de 20 a 90.

Notas de tradução: 

Tradução do Centro Afiliado Paraíba, Cochrane Brasil (Rômulo Kunrath Pinto Silva e David Cesarino de Sousa). Contato: tradutores@centrocochranedobrasil.org.br

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