Temozolomida para câncer no cérebro

O glioma de alto grau (GAG) é um tipo de câncer cerebral que cresce rapidamente, com uma taxa de sobrevida baixa, mesmo após o tratamento padrão com cirurgia e radioterapia. A temozolomida é um medicamento oral anticancerígeno.

Três ensaios clínicos randomizados (ECR) com pacientes com glioblastoma multiforme (um tipo de GAG) recentemente diagnosticado estudaram o efeito da quimioterapia com temozolomida, durante e após a radioterapia. Compararam o uso da temolozomida com o uso da radioterapia isolada.

Os pacientes que receberam temozolomida tiveram sobrevida maior e atraso na progressão da doença. Os eventos adversos de curto prazo associados com a temozolomida são poucos, mas podem ser graves, enquanto os efeitos em longo prazo são desconhecidos. Nenhum ECR investigou o uso de temozolomida em outros tipos de GAGs que não fossem glioblastoma multiforme. Nos pacientes com glioblastoma multiforme recorrente, a temozolomida atrasou a progressão da doença, mas não melhorou a sobrevida total. Na população idosa (idade superior a 60 anos), a temozolomida isolada parece ser uma alternativa à radioterapia exclusiva como tratamento para GAG primário. Ambos tratamentos tiveram resultados similares para sobrevida total, sobrevida livre de doença e qualidade de vida. No entanto, possivelmente, há mais eventos adversos com temozolomida.

Todos os estudos incluídos nesta revisão envolveram pacientes altamente selecionados que tinham fatores de bom prognóstico. Portanto, os participantes desses estudos não são inteiramente representativos de todos os pacientes com GAG, o que limita a aplicabilidade geral dos resultados.

Conclusão dos autores: 

Para pacientes com GAG primário, a temozolomida administrada nas fases concomitante ou adjuvante é uma terapia eficaz, comparada à radioterapia isolada. Ela prolonga a sobrevida e atrasa a progressão da doença sem impactar na qualidade de vida, mas aumenta os eventos adversos precoces. Em pacientes com GAG recorrente, a temozolomida, quando comparada com a quimioterapia padrão, melhora o tempo para a progressão e pode ter benefícios na QV sem aumentar eventos adversos, mas não melhora a sobrevida total. Em idosos, a temozolomida isolada é comparável à radioterapia em termos de ST e SLD, mas com maior risco de eventos adversos.

Leia o resumo na íntegra...
Contexto: 

O glioma de alto grau (GAG) é uma forma agressiva de câncer no cérebro. O tratamento de GAG envolve geralmente a biópsia ou a ressecção (se for considerada segura) seguida por radioterapia. A temozolomida é um quimioterápico oral que penetra no cérebro e, presumivelmente, tem uma incidência mais baixa de eventos adversos.

Objetivos: 

Avaliar se a temozolomida tem alguma vantagem para tratar GAG em pacientes com doença primária ou recorrente.

Estratégia de busca: 

As buscas foram feitas nas seguintes bases de dados: CENTRAL (issue 10, 2012), MEDLINE, EMBASE, Science Citation Index, Physician Data Query and the Meta-Register of Controlled Trials em outubro, 2012. As listas de referência de estudos identificados foram avaliadas. Fizemos buscas manuais no Journal of Neuro-Oncology e no Neuro-oncology de 1999 a 2012, incluindo resumos de congressos. Nós contatamos neuro-oncologistas em busca de estudos que ainda não foram publicados ou que ainda estejam em andamento.

Critérios de seleção: 

Selecionamos ensaios clínicos randomizados (ECRs) que testaram a temozolomida como tratamento para doença primária ou recorrente. O tratamento foi comparado com nenhuma quimioterapia, com quimioterapia sem temozolomida ou com esquemas terapêuticos diferentes de temozolomida. Foram incluídos pacientes de todas as idades com GAG histologicamente comprovado.

Coleta dos dados e análises: 

Dois autores da revisão realizaram a extração dos dados e a avaliação da qualidade dos estudos. As medidas de desfechos incluídas foram: sobrevida total (ST); sobrevida livre de doença (SLD); qualidade de vida (QV) e eventos adversos.

Resultados principais: 

Para o tratamento primário, foram identificados três ECR envolvendo um total de 745 pacientes com glioblastoma multiforme (GBM). Esses três estudos compararam a temozolomida junto com radioterapia versus radioterapia isolada. Comparada com a radioterapia isolada, a temozolomida aumentou a sobrevida total [hazard ratio (HR) 0,60, intervalo de confiança de 95% (95% CI) 0,46-0,79, valor de P 0,0003] e a sobrevida livre da doença (HR 0,63, 95% CI 0,43-0,92, valor de P 0,02), porém estes benefícios só foram evidentes quando a terapia foi feita em ambas as fases concomitante e adjuvante do tratamento. Um único ECR relatou que a temozolomida não teve efeito estatisticamente significativo na qualidade de vida. Os riscos de complicações hematológicas, fadiga e infecções foram maiores com a temozolomida.

Para pacientes com GAG recorrente, dois ECR, envolvendo 672 participantes, constataram que a temozolomida não aumentou a sobrevida total em comparação com a quimioterapia padrão (HR 0,9, IC 95% 0,76 a 1,06, valor P 0,2), mas fez aumentar a sobrevida livre da doença em uma análise de subgrupo de tumores GBM grau IV (HR 0,68, 95% CI 0,51-0,90, valor P 0,008). Os eventos adversos foram semelhantes entre os dois braços de estudo.

Dois ECRs, totalizando 664 pacientes idosos, relataram que o grupo que recebeu apenas temozolomida teve taxas de sobrevida total e sobrevida livre da doença semelhantes ao grupo tratado com radioterapia isolada. De acordo com um ECR, a qualidade de vida não foi diferente entre os braços do estudo, mas certos eventos adversos foram significativamente mais comuns com a temozolomida.

Notas de tradução: 

Tradução do Centro Cochrane do Brasil (Flávia Maria Ribeiro Vital)

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