Acupuntura para fibromialgia

Este resumo de uma revisão Cochrane apresenta o que sabemos, através de pesquisas, sobre o efeito da acupuntura na fibromialgia.

Esta revisão mostra que, para as pessoas com fibromialgia:

- A acupuntura é provavelmente melhor que um tratamento sem acupuntura na redução da dor, da rigidez e para melhorar o bem-estar geral e a fadiga;

- A acupuntura com estimulação elétrica é provavelmente melhor do que a acupuntura tradicional na redução da dor, da rigidez e na melhora geral do bem-estar, sono e fadiga.

- A acupuntura sem estimulação elétrica provavelmente não reduz a dor nem melhora a fadiga, o bem-estar geral ou o sono; e

- A acupuntura provavelmente reforça o efeito das drogas e do exercício sobre a dor.

O que é fibromialgia e o que é acupuntura?

A pessoa que sofre de fibromialgia tem dores em várias partes do corpo, além de diversos outros sintomas, como rigidez das juntas, problemas de sono, fadiga e mudanças do humor, que afetam sua qualidade de vida. A fibromialgia não tem cura e, atualmente, há poucas opções para o tratamento dessa doença. Os tratamentos focam no alívio da dor e na melhora do bem-estar e da capacidade de fazer as coisas (funcionalidade).

A acupuntura é uma modalidade da medicina chinesa que utiliza agulhas finas para estimular certas áreas do corpo, chamadas de pontos de acupuntura. A acupuntura é comumente usada para aliviar vários tipos de dor. Ela funciona reduzindo a inflamação, estimulando a liberação de analgésicos do próprio organismo, as endorfinas, e acalmando o cérebro. A acupuntura é segura e traz poucos efeitos colaterais, que geralmente duram pouco. Se for apoiada pelas evidências, a acupuntura pode oferecer um alívio importante dos sintomas da fibromialgia.

Melhor estimativa do que acontece com pessoas que têm fibromialgia e que são tratadas com acupuntura:

Comparando acupuntura verdadeira com acupuntura simulada

Dor (escores mais altos indicam mais dor ou dor mais intensa)

- As pessoas tratadas com acupuntura com estimulação elétrica tiveram uma queda de 13 pontos no seu escore de dor, em uma escala de 100 pontos (melhora absoluta) após seis sessões de tratamento.

- As pessoas que fizeram acupuntura simulada tiveram um escore de dor de 70 pontos (em uma escala de 0 a 100) no fim do tratamento.

- As pessoas tratadas com acupuntura com estimulação elétrica tiveram um escore de dor de 57 pontos.

Função física (escores maiores significam melhor função):

- As pessoas tratadas com acupuntura sem estimulação elétrica tiveram uma queda de 6 pontos no escore de função (deterioração absoluta).

- Ao final do tratamento, as pessoas tratadas com acupuntura falsa tiveram um escore de 28 pontos para função física em uma escala que vai de 0 a 100 pontos.

- As que foram tratadas com acupuntura sem estimulação elétrica tiveram escore de função física de 22 pontos.

- Não há dados sobre acupuntura com estimulação elétrica.

Bem-estar geral avaliado pelos participantes (escores mais altos significam melhor função):

- As pessoas tratadas com acupuntura com estimulação elétrica tiveram 11 pontos a mais na sua avaliação de bem-estar (melhora absoluta).

- As pessoas que receberam tratamentos falsos classificaram seu bem-estar como 41 em uma escala que vai de 0 a 100, no fim do tratamento.

- As pessoas tratadas com acupuntura com estimulação elétrica classificaram seu bem-estar como 52.

Sono (escores mais altos significam melhor sono):

- As pessoas que receberam acupuntura tiveram melhora de 8 pontos no seu escore de sono (melhora absoluta).

- As pessoas tratadas com acupuntura falsa tiveram um escore de sono de 30 pontos em uma escala de 0 a 100, no final do tratamento.

- As pessoas tratadas com acupuntura com estimulação elétrica tiveram um escore de sono de 38 pontos.

Fadiga (escores mais altos significam fadiga mais grave):

- Pessoas tratadas com acupuntura com estimulação elétrica tiveram queda de 15 pontos na sua fadiga (melhora absoluta).

- As pessoas tratadas com acupuntura falsa tiveram escore de fadiga de 78 pontos, em uma escala que vai de 0 a 100.

- As pessoas tratadas com acupuntura com estimulação elétrica tiveram escore de fadiga de 63 pontos.

Rigidez (escores altos significam rigidez mais intensa):

- As pessoas tratadas com acupuntura com estimulação elétrica tiveram uma queda de 9 pontos na sua rigidez (melhora absoluta).

- As pessoas que receberam o tratamento falso tiveram um escore de rigidez de 66 pontos em uma escala de 0 a 100, no fim do tratamento.

- As pessoas tratadas com acupuntura com estimulação elétrica tiveram escore de rigidez de 57 pontos.

- Não havia dados sobre acupuntura sem estimulação elétrica.

Efeitos adversos:

- Uma em cada seis pessoas que se trataram com acupuntura relatou efeitos adversos.

- Uma em cada três pessoas submetidas ao tratamento simulado reportou efeitos adversos.

- Em geral, tais eventos foram de pouca importância e duraram menos de um dia.

Acupuntura como terapia adjuvante

Dor (escores elevados significam dor mais intensa):

- As pessoas tratadas com acupuntura junto com seu tratamento habitual (exercícios e antidepressivos) tiveram uma queda de 30 pontos na sua dor (melhora absoluta) após 20 sessões de acupuntura.

- As pessoas tratadas apenas com o tratamento padrão tiveram um escore de dor de 80 pontos em uma escala que vai de 0 a 100, no fim do tratamento.

- As pessoas que receberam tratamento adicional com acupuntura tiveram um escore de dor de 50 pontos.

Acupuntura comparada com antidepressivos

Dor (escores elevados significam dor mais intensa):

- As pessoas tratadas com acupuntura tiveram queda de 17 pontos no seu escore de dor (melhora absoluta) após 28 sessões de acupuntura.

- As pessoas tratadas apenas com antidepressivos tiveram escore de dor de 29 pontos em uma escala de 0 a 100, ao fim do tratamento.

- As pessoas tratadas com acupuntura tiveram um escore de dor de 12 pontos.

Comparando acupuntura com não acupuntura (lista de espera)

- As pessoas tratadas com acupuntura com estimulação elétrica tiveram queda de 23, 11 e 9 pontos (em uma escala de 100 pontos) para dor, fadiga e rigidez, respectivamente. Elas também tiveram 15 pontos a mais no seu escore de bem-estar geral do que aquelas que não receberam acupuntura.

Conclusão dos autores: 

Há evidências de baixa a moderada qualidade de que, comparada ao não tratamento e à terapia padrão, a acupuntura melhora a dor e a rigidez de pessoas com fibromialgia. Há evidência de moderada qualidade de que o efeito da acupuntura não foi diferente da acupuntura simulada quanto à redução da dor ou fadiga, ou na melhora do sono ou do bem-estar geral. É provável que a eletro-acupuntura seja melhor que a acupuntura manual para a redução da dor e da rigidez e na melhora do bem-estar geral, sono e fadiga. O efeito dura até um mês, mas não se mantém no seguimento de 6 meses. A acupuntura manual provavelmente não melhora a dor ou a função. A acupuntura é aparentemente segura. Indivíduos com fibromialgia podem considerar o uso de eletro-acupuntura isolada ou associada ao exercício e medicação. O pequeno tamanho amostral, a escassez de estudos para cada comparação e a falta de comparadores ideais usando acupuntura simulada enfraquecem a qualidade da evidência e as implicações clínicas. Estudos maiores são necessários.

Leia o resumo na íntegra...
Contexto: 

Um em cada cinco pacientes com fibromialgia faz tratamento com acupuntura dentro de dois anos de diagnóstico.

Objetivos: 

Avaliar os benefícios e a segurança da acupuntura no tratamento da fibromialgia.

Estratégia de busca: 

Fizemos uma busca nas seguintes bases de dados eletrônicas: CENTRAL, PubMed, EMBASE, CINAHL, National Register, HSR Project and Current Contents, além das bases chinesas VIP e Wangfang. A busca foi realizada em janeiro de 2012, sem restrições de idiomas.

Critérios de seleção: 

Foram selecionados estudos randomizados e quase randomizados que avaliaram qualquer tipo de acupuntura invasiva para pacientes com fibromialgia diagnosticada de acordo com os critérios da American College of Rheumatology (ACR) e que apresentavam pelo menos um dos seguintes desfechos principais: dor, função física, fadiga, sono, bem-estar geral, rigidez ou efeitos adversos.

Coleta dos dados e análises: 

Duas duplas de autores selecionaram os estudos, extraíram dados e avaliaram o risco de viés. Apresentamos o efeito do tratamento usando diferença de média padronizada (DMP) e intervalo de confiança de 95% (IC 95%) para os desfechos contínuos avaliados através de diferentes ferramentas (dor, função física, fadiga, sono, bem-estar geral e rigidez). Para os desfechos dicotômicos (eventos adversos), apresentamos o efeito do tratamento usando a razão de risco, (RR) e o IC. Agrupamos os dados utilizando o modelo de efeitos randômicos.

Resultados principais: 

Incluímos na revisão um total de 9 estudos (395 participantes). Todos os estudos, com exceção de um, tinham baixo risco de viés de seleção; 5 estudos tinham risco de relato seletivo de dados (favorecendo um dos grupos de tratamento); 2 estudos tinham risco de viés de atrito (favorecendo a acupuntura); 3 estudos tinham risco de viés de desempenho (favorecendo a acupuntura) e 1 estudo tinha risco de viés de detecção (favorecendo a acupuntura). Três estudos utilizaram a eletro-acupuntura e os outros utilizaram acupuntura manual sem estimulação elétrica. Todos os estudos usaram “acupuntura por fórmula”, exceto um, que utilizou pontos gatilhos.

Existe evidência de baixa qualidade, proveniente de um estudo (13 participantes), de que a eletro-acupuntura melhora os sintomas, sem eventos adversos, em um mês de seguimento. A média de dor no grupo controle, sem tratamento, foi de 70 pontos em uma escala de 100 pontos. A eletro-acupuntura reduziu a dor em 22 pontos, em média (IC 95%, 4 a 41 pontos), produzindo melhora absoluta de 22%. O grupo controle teve uma pontuação de bem-estar geral de 66,5 pontos em uma escala de 100 pontos. A eletro-acupuntura melhorou o bem-estar em 15 pontos, em média (IC 95%, 5 a 26 pontos). A rigidez no grupo controle foi de 4,8 pontos em uma escala que vai de 0 a 10. A eletro-acupuntura reduziu a rigidez em uma média de 0,9 pontos (IC 95%, 0,1 a 2 pontos; redução absoluta de 9% (IC 95%, 4% a 16%). A pontuação média para fadiga era de 4,5 pontos (escala de 10 pontos) sem tratamento; a eletro-acupuntura reduziu a fadiga em 1 ponto, em média (IC 95%, 0,22 a 2 pontos), redução absoluta de 11% (2% a 20%). Não houve diferença na qualidade do sono (MD 0,4 pontos, IC 95%, -1 a 0,21 pontos, escala de 10 pontos), e a funcionalidade física não foi reportada.

Existe evidência de qualidade moderada, proveniente de 6 estudos (286 participantes), indicando que acupuntura (eletro-acupuntura ou acupuntura manual) não trouxe mais melhoras do que a acupuntura simulada, exceto pela diminuição da rigidez no primeiro mês. A análise de um subgrupo de dois estudos (104 participantes) indicou que a eletro-acupuntura traz benefícios. No grupo da acupuntura simulada, a média de dor foi de 70 pontos em uma escala que vai de 0 a 100; a eletro-acupuntura reduziu a dor em 13% (5 a 22%); (SMD -0,63, IC 95%, -1,02 a -0,23). O escore de bem-estar global foi de 5,2 pontos em uma escala de 10 pontos, no grupo de tratamento simulado; a eletro-acupuntura melhorou o bem-estar em uma média de 0,65 pontos; melhora absoluta de 11% (4% a 17%). A eletro-acupuntura melhorou o escore do sono em 3 pontos numa escala que vai de 0 a 10, comparado ao grupo de tratamento simulado: diferença média padronizada de 0,40 (IC 95%, 0,01 a 0,79); melhora absoluta de 8% (0,2% a 16%). Existe evidência de baixa qualidade proveniente de um estudo sugerindo piores resultados na funcionalidade física no grupo da acupuntura manual. A funcionalidade média no grupo do tratamento simulado foi de 28 pontos (em escala de 100 pontos); o tratamento piorou a funcionalidade em uma média de 6 pontos (IC 95%, -10,9 a -0,7). Existe evidência de baixa qualidade, de 3 estudos (289 participantes), indicando que não existe diferença na taxa de eventos adversos entre a acupuntura real (9%) e a simulada (35%); RR 0,44 (IC 95% 0,12 a 1.63).

Existe evidência de moderada qualidade, proveniente de um estudo com 58 participantes, de que, comparada com a terapia padrão isolada (antidepressivos e exercício), a acupuntura como terapia adjuvante reduziu a dor no primeiro mês de tratamento. A dor média foi de 8 pontos em uma escala que vai de 0 a 10 no grupo da terapia padrão; o tratamento reduziu a dor em 3 pontos (IC 95% -3.9 a -2.1), uma redução absoluta de 30% (21% a 39%). Duas pessoas tratadas com acupuntura relataram eventos adversos; não houve relato de eventos adversos no grupo controle (RR 3,57; IC 95%, 0,18 a 71,21). Bem-estar global, sono, fadiga e rigidez não foram reportados. Não foi possível usar os dados sobre funcionalidade física.

Existem evidências de baixa qualidade, provenientes de um estudo com 38 participantes, indicando que a acupuntura traz mais benefícios de curto prazo do que antidepressivos no alívio da dor. O escore médio de dor foi de 29 pontos (em uma escala que vai de 0 a 100) no grupo que utilizava antidepressivos; a acupuntura reduziu a dor em 17 pontos (IC 95%, -24,1 a -10,5). Outros desfechos ou eventos adversos não foram reportados.

Existe evidência de moderada qualidade proveniente de um estudo com 41 participantes indicando que a introdução mais profunda das agulhas, com ou sem deqi, não fez diferença em relação à dor, fadiga, função ou eventos adversos. Outros resultados não foram reportados.

Quatro estudos relataram que, após 6-7 meses de seguimento, não há diferenças entre acupuntura, controle, ou outros tratamentos.

Nenhum evento adverso grave foi reportado, mas não houve efeitos adversos suficientes para que se tenha certeza sobre os riscos.

Notas de tradução: 

Tradução do Centro Cochrane do Brasil - Centro Afiliado João Pessoa (Felipe Teixeira) Contato: tradutores@centrocochranedobrasil.org.br

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