Alfafetoproteína, ou ultrassonografia de fígado, ou ambas, para o rastreamento de câncer de fígado em pacientes com hepatite B crônica

O câncer de fígado é uma das principais causas de morte entre as pessoas com infecção crônica pelo vírus da hepatite B. O rastreamento destes pacientes com ultrassonografia de fígado ou alfafetoproteína no sangue, ou ambas, é amplamente realizado para a detecção de câncer de fígado em estágios iniciais. A esperança é que o câncer hepático em estágios iniciais pode ser tratado por meio de ressecção ou transplante, ou ambos, com melhores desfechos. Somente três ensaios clínicos puderam ser incluídos nesta revisão. Um destes ensaios foi realizado em Shangai, China. Ele comparou o rastreamento duas vezes ao ano, por meio da ultrassonografia e alfafetoproteína, com a ausência de rastreamento. O ensaio clínico evidenciou alto risco de erros sistemáticos (viés) e vários relatos publicados deste ensaio clínico mostraram diferentes resultados. Outro ensaio clínico foi conduzido em Toronto, Canadá. Este comparou o rastreamento por meio da alfafetoproteína e ultrassonografia com a alfafetoproteína isoladamente. Este ensaio clínico apresentava poucos participantes. Como não havia participante submetidos ao não rastreamento, não podemos avaliar se o rastreamento é efetivo na redução da mortalidade. O último ensaio clínico foi publicado apenas como resumo. Ele foi desenhado para determinar o intervalo de tempo ideal para o rastreamento utilizando alfafetoproteína e ultrassonografia. A sobrevivência cumulativa em quatro anos não foi significantemente diferente entre os dois intervalos estudados de quatro e 12 meses. Portanto, até o momento, não há evidências suficientes sobre o rastreamento para câncer de fígado em pacientes com hepatite B crônica.

Conclusão dos autores: 

Não há evidências para apoiar ou refutar a validade do rastreamento de carcinoma hepatocelular por meio da alfafetoproteína ou ultrassonografia, ou ambas, em pacientes soropositivos para o antígeno de superfície do vírus da hepatite B (AgHBs). Maior número de ensaios clínicos randomizados, com melhores desenhos metodológicos, são necessários para comparar a realização, ou não, do rastreamento.

Leia o resumo na íntegra...
Contexto: 

A infecção crônica pelo vírus da hepatite B é um fator de risco para o desenvolvimento de carcinoma hepatocelular. A alfafetoproteína e a ultrassonografia de fígado são utilizadas para o rastreamento de carcinoma hepatocelular em pacientes com hepatite B crônica. A validade deste rastreamento ainda é incerta.

Objetivos: 

Determinar os efeitos benéficos e prejudiciais da alfafetoproteína ou da ultrassonografia, ou ambas, para o rastreamento de carcinoma hepatocelular em pacientes com infecção crônica pelo vírus da hepatite B.

Estratégia de busca: 

As buscas eletrônicas foram realizadas até Dezembro de 2011 nas seguintes bases de dados: the Cochrane Hepato-Biliary Group Controlled Trials Register (Dezembro de 2011), the Cochrane Central Register of Controlled Trials (CENTRAL) (2011, fascículo 4), na The Cochrane Library,MEDLINE (1948 a 2011), EMBASE (1980 a 2011), Science Citation Index Expanded (1900 a 2011), Chinese Medical Literature Electronic Database (Wanfang Data 1998 a 2011) e Chinese Knowledge Resource Integrated Database (1994 a 2011).

Critérios de seleção: 

Todos os ensaios clínicos randomizados relacionados ao rastreamento de câncer hepático foram considerados elegíveis para inclusão, independente do idioma em que foram publicados. Os estudos foram excluídos quando a situação da infecção pelo vírus da hepatite B era incerta, quando os testes de rastreamento não eram sensíveis ou amplamente utilizados ou quando o teste era utilizado para o diagnóstico de carcinoma hepatocelular e, não para o seu rastreamento.

Coleta dos dados e análises: 

Todos os ensaios clínicos incluídos foram analisados independentemente. Nós escrevemos para os autores de um dos ensaios clínicos para obter maiores informações.

Resultados principais: 

Três ensaios clínicos randomizados foram incluídos nesta revisão. Todos eles apresentaram alto risco de viés. Um ensaio clínico foi realizado em Shangai, China. Há várias publicações relacionadas a este ensaio clínico, nas quais os dados foram apresentados de modos diversos. De acordo com o ensaio clínico publicado em 2004, os pacientes foram randomizados para o rastreamento com alfafetoproteína e ultrassonografia a cada seis meses (n = 9.373) ou para a ausência de rastreamento (n = 9.443). Não foi possível tirar qualquer conclusão definitiva deste ensaio clínico. Um segundo ensaio clínico foi conduzido em Toronto, Canadá. Neste ensaio clínico, havia 1.069 participantes com hepatite B crônica.O ensaio clínico comparou o rastreamento semestral unicamente com alfafetoproteína (n = 532) versus alfafetoproteína e ultrassonografia (n = 538) durante um período de cinco anos. Este ensaio clínico foi desenhado como um estudo piloto.O pequeno número de participantes e a raridade de eventos não permitiram uma efetiva comparação entre os dois métodos de rastreamento estudados. O último ensaio clínico, conduzido em Taiwan e publicado como resumo, foi desenhado como um ensaio clínico randomizado tipo cluster com o intuito de determinar o intervalo mais adequado para o rastreamento utilizando-se alfafetoproteína e ultrassonografia. Foram comparados dois grupos, com intervalos de rastreamento de quatro e 12 meses. Maiores detalhes sobre a estratégia de rastreamento não estavam disponíveis. O ensaio clínico relatou dados sobre a sobrevivência cumulativa em quatro anos, a incidência cumulativa de carcinoma hepatocelular em três anos e o tamanho médio do tumor. A sobrevivência cumulativa após quatro anos não foi significantemente diferente entre os dois intervalos de rastreamento. A incidência de carcinoma hepatocelular foi maior no grupo de rastreamento a cada quatro meses. Os ensaios clínicos não relataram dados sobre efeitos adversos. Parece que a sensibilidade e a especificidade dos métodos de rastreamento foram ruins, sendo responsáveis por um considerável número de resultados falso-positivos e falso-negativos.

Notas de tradução: 

Traduzido por: Ricardo Augusto Monteiro de Barros Almeida, Unidade de Medicina Baseada em Evidências da Unesp, Brasil Contato: portuguese.ebm.unit@gmail.com

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