Intervenções para refluxo vesicoureteral primário

Qual é o problema?

O refluxo vesico-ureteral (RVU) consiste no refluxo de urina da bexiga para os ureteres e para os rins. Os doentes com RVU apresentam maior risco de infeções do trato urinário (ITU) envolvendo os rins, podendo ocorrer doença renal permanente. As opções atuais de tratamento incluem reimplantação cirúrgica dos ureteres, antibioterapia de longa duração, correção endoscópica através de injeção sub-uretérica de uma substância (injeção na bexiga sob o ureter), medicina complementar ou uma combinação de intervenções.

O que fizemos?

Uma pesquisa da literatura identificou todos os estudos aleatorizados comparando diferentes opções de tratamento em crianças com RVU. Os resultados bem como os detalhes do desenho do estudo foram extraídos e compilados. Os estudos comparando tratamentos e resultados similares incluíram dados combinado de modo a obter uma estimativa do efeito dos resultados tais como ITU graves de repetição, infeções to trato urinário com febre e lesão renal.

O que descobrimos?

Um total de 34 estudos aleatorizados, envolvendo 4001 crianças foram identificados e foi realizada extração dos dados e sua análise. As comparações mais frequentes foram antibioterapia de longa duração em baixa dose versus ausência de tratamento (8 estudos) ou placebo (4 estudos) e antibióticos versus reimplantação cirúrgica dos ureteres associada a antibioterapia (7 estudos). Outros tratamentos avaliaram a correção endoscópica através de injeção comparada com antibióticos (3 estudos), diferentes materiais de correção endoscópica (2 estudos), circuncisão (1 estudo), probióticos (1 estudo), produtos contendo arando (1 estudo) e oxibutinina (1 estudo).

Meta-análises de estudos semelhantes detetaram que a antibioterapia de longa duração em baixa dose comparativamente à ausência de tratamento poderia originar pouca ou nenhuma diferença no risco de ITU de repetição em crianças com RVU. Os efeitos adversos associados foram pouco frequentes e ligeiros, mas a profilaxia associou-se com um risco três vezes superior de resistência bacteriana ao antibiótico utilizado em ITU subsequentes. A cirurgia diminuiu o número de ITU de repetição com febre, mas não alterou o número de crianças que desenvolveram ITU graves ou com lesão renal. Muitos estudos não foram incluídos na meta-análise dado não terem reportado resultados relevantes ou terem sido estudos individuais que avaliaram uma opção terapêutica não utilizada noutros estudos ou combinações de tratamentos.

Conclusões

A utilização de antibioterapia de longa duração em baixa dose em crianças com RVU apresenta pouco ou nenhum benefício no risco de ITU de repetição. A cirurgia pode reduzir o risco de ITU de repetição com febre mas esta informação baseia-se em dois estudos com 429 crianças que poderão não representar a maioria, podendo tal não se verificar num grupo maior de crianças com RVU. As terapêuticas complementares como a utilização de probióticos e de cranberries foram tentadas em um ou dois estudos e não fornecem evidência de certeza suficiente para suportar ou negar a sua utilização.

Notas de tradução: 

Traduzido por: Miguel Bigotte Vieira, Serviço de Nefrologia e Transplantação Renal, Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte; Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência, Faculdade de Medicina, Universidade de Lisboa, com o apoio da Cochrane Portugal

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