A quarentena, sozinha ou em combinação com outras medidas de saúde pública, controla o coronavírus (COVID-19)?

Introdução

A COVID-19 é uma doença causada por um novo vírus que se espalhou rapidamente pelo mundo. A maioria das pessoas infectadas não apresentará sintomas ou terá sintomas leves, semelhantes aos da gripe. Porém algumas ficarão gravemente doentes e poderão morrer.

Não há vacina (um medicamento que impede as pessoas de contrair uma doença específica) para a COVID-19. Portanto, é preciso usar outras medidas para diminuir a sua propagação. Uma forma de controlar a doença é a quarentena. Colocar em quarentena significa separar pessoas saudáveis de outras pessoas saudáveis, que podem ter o vírus após terem estado em contato próximo com uma pessoa infectada, ou ao regressaram de uma área com altas taxas de infecção. Recomendações similares incluem o isolamento (é como a quarentena, mas para pessoas com teste positivo para COVID-19) e o distanciamento físico (onde pessoas sem sintomas mantêm distância umas das outras).

O que queríamos descobrir?

O objetivo dessa revisão foi saber se, e com que eficácia, a quarentena impede a propagação da COVID-19 e se ela evita mortes. Queríamos saber se a quarentena seria mais eficaz quando combinada com outras medidas, e qual seria o custo dessa intervenção.

Características do estudo

A COVID-19 está se espalhando rapidamente, por isso era necessário responder a essas perguntas o mais rápido possível. Por isso encurtamos alguns passos do processo normal das revisões Cochrane. Porém, estamos confiantes de que estas mudanças não afetaram nossas conclusões gerais.

Procuramos por estudos que tivessem avaliado o efeito de qualquer tipo de quarentena, em qualquer lugar, sobre a propagação e a gravidade da COVID-19. Também procuramos por estudos que haviam avaliado a quarentena junto com outras medidas, tais como isolamento, distanciamento físico ou fechamento de escolas. A COVID-19 é uma nova doença, por isso, para encontrar o máximo de evidências possíveis, procuramos também por estudos sobre vírus semelhantes, como a SRAG (síndrome respiratória aguda grave) e a MERS (síndrome respiratória do Oriente Médio).

Os estudos mediram o número de casos de COVID-19, SRAG ou MERS, quantas pessoas foram infectadas, quão rapidamente o vírus se espalhou, quantas pessoas morreram, e os custos da quarentena.

Principais resultados

Incluímos 51 estudos. Trinta e dois estudos eram sobre COVID-19, 14 sobre SRAG, três sobre SRAG mais outros vírus, e dois sobre MERS. A maioria dos estudos combinou dados existentes de várias fontes e fez suposições para criar um modelo (uma simulação) para prever como os eventos podem ocorrer ao longo do tempo, para pessoas em diferentes situações (chamados de estudos de modelagem). Quatro estudos sobre COVID-19 observaram os efeitos da quarentena (estudos observacionais) em 6064 indivíduos na China, Grécia e Singapura. Vinte e oito estudos sobre COVID-19 simularam surtos na Argélia, China, Canadá, Itália, Cazaquistão, Nepal, Reino Unido, EUA, Singapura, Coreia do Sul, no navio de cruzeiro Diamond Princess, e numa população em geral. Quatro estudos analisaram o efeito da quarentena em 178.122 pessoas envolvidas em surtos de SRAG e MERS. Os outros 15 estudos modelaram surtos de SRAG e de MERS.


Todos os estudos de modelagem constataram que medidas simuladas de quarentena reduzem o número de pessoas com COVID-19, e reduzem o número de mortes. Com a quarentena, as estimativas mostraram uma redução mínima de 44% no número de pessoas com COVID-19, e uma redução máxima de 96%. Semelhantemente, com a quarentena, as estimativas mostraram uma redução mínima do número de mortes de 31%, e uma redução máxima de 76%. Combinar a quarentena com outras medidas, como o fechamento das escolas ou o distanciamento físico, é mais eficaz do que a quarentena isolada, para reduzir a propagação da COVID-19. Os resultados dos estudos sobre SRAG e MERS foram concordantes com os estudos da COVID-19.

Dois estudos de modelagem da SRAG avaliaram os custos. Eles descobriram que os custos podem ser menores quando as medidas de quarentena foram iniciadas mais cedo.

Qualidade da evidência

Estamos incertos sobre a evidência que encontramos, por várias razões. Os estudos observacionais sobre a COVID-19 não incluíram um grupo de comparação sem quarentena. Os estudos da COVID-19 basearam seus modelos em dados limitados e fizeram diferentes suposições sobre o vírus (por exemplo, a rapidez com que ele se espalharia). Os outros estudos investigaram a SRAG e a MERS, por isso eles oferecem apenas evidência indireta.

Conclusão

Apesar das poucas evidências, os resultados de todos os estudos indicam que a quarentena é importante para reduzir o número de pessoas infectadas e o número de mortes. Os resultados sugerem que a quarentena foi mais eficaz, e custou menos, quando foi iniciada mais cedo. A combinação da quarentena com outras medidas de prevenção e controle pode ter um efeito maior do que apenas a quarentena.

Esta revisão inclui estudos publicados até 23 de junho de 2020.

Conclusão dos autores: 

A evidência atual é limitada porque a maioria dos estudos sobre a COVID-19 são estudos de modelagem matemática que fazem várias suposições sobre parâmetros importantes do modelo. Os resultados indicam consistentemente que a quarentena é importante para reduzir a incidência e a mortalidade durante a pandemia da COVID-19. Porém, existem incertezas quanto à magnitude do seu efeito. A implementação precoce da quarentena e a combinação da quarentena com outras medidas de saúde pública é importante para garantir sua efetividade. Para manter o melhor equilíbrio possível das medidas, as pessoas responsáveis pelas tomadas de decisões devem monitorar constantemente o surto e o impacto das medidas implementadas.

Esta revisão foi originalmente encomendada pela OMS e apoiada pela Danube-University-Krems. A atualização foi auto-iniciada pelos autores da revisão.

Leia o resumo na íntegra
Introdução: 

A doença causada pelo Coronavirus em 2019 (COVID-19) é uma doença em rápido crescimento que foi classificada como uma pandemia pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Para apoiar a OMS com suas recomendações sobre a quarentena, realizamos uma revisão rápida sobre a efetividade da quarentena durante surtos graves de coronavírus.

Objetivos: 

Avaliar os efeitos da quarentena (isoladamente ou em combinação com outras medidas) de indivíduos que tiveram contato com casos confirmados ou suspeitos de COVID-19, que vieram de países com um surto declarado, ou que vivem em regiões com alta transmissão da doença.

Métodos de busca: 

Um especialista em informação pesquisou as seguintes bases de dados em 23 de junho de 2020: Cochrane COVID-19 Study Register, PubMed, Ovid MEDLINE, WHO Global Index Medicus, Embase e CINAHL.

Critério de seleção: 

Incluímos coortes, casos-controle, séries temporais, séries temporais interrompidas, series de casos e estudos de modelagem matemática que avaliaram o efeito de qualquer tipo de quarentena para controlar a COVID-19. Também incluímos estudos sobre a SRAG (síndrome respiratória aguda grave) e MERS (síndrome respiratória do Oriente Médio) como evidência indireta para o atual surto de coronavírus.

Coleta dos dados e análises: 

Dois autores da revisão, trabalhando de forma independente, avaliaram títulos e resumos. Em seguida, trabalhando de forma independente, dois autores da revisão avaliaram todas as publicações selecionadas para leitura na íntegra. Um autor da revisão extraiu os dados, avaliou o risco de viés do estudo e avaliou a certeza da evidência com o GRADE e um segundo autor da revisão verificou a avaliação. Usamos três ferramentas diferentes para avaliar o risco de viés conforme o desenho do estudo: o ROBINS-I para estudos não randomizados de intervenções, uma ferramenta criada pela Cochrane Childhood Cancer para estudos não randomizados e não controlados, e as recomendações da Sociedade Internacional de Pesquisa Farmacoeconômica e de Resultados (ISPOR) para estudos de modelagem. Classificamos a qualidade (certeza) da evidência para os quatro desfechos primários: incidência, transmissão posterior, mortalidade e custos.

Principais resultados: 

Incluímos 51 estudos; 4 estudos observacionais e 28 estudos de modelagem sobre COVID-19, um estudo observacional e um estudo de modelação sobre MERS, três estudos observacionais e 11 estudos de modelagem sore SRAG, e três estudos de modelagem sobre SRAG e outras doenças infecciosas. Devido aos diversos métodos usados para medir e analisar os desfechos de interesse nos estudos, não pudemos combinar os resultados em uma metanálise. Portanto, apresentamos uma síntese narrativa dos resultados. O risco de viés foi moderado para 2/3 estudos não randomizados de intervenções (NRSIs) e grave para 1/3 dos NRSIs. O risco de viés foi moderado para 4/5 estudos coorte não controlados, e alto para 1/5 desses estudos. Treze estudos de modelagem não geraram nenhuma preocupação, 17 geraram preocupações moderadas, e 13 geraram preocupações graves.

Quarentena versus ausência de quarentena para pessoas que tiveram contato com um caso confirmado/suspeito de COVID-19

Os estudos de modelagem relataram consistentemente um benefício das medidas de quarentena simuladas. Por exemplo, a quarentena de pessoas expostas a casos confirmados ou suspeitos pode ter evitado 44% a 96% dos casos incidentes, e 31% a 76% das mortes, comparado a nenhuma medida baseada em diferentes cenários (casos incidentes: 6 estudos de modelagem da COVID-19, 1 sobre a SRAG; mortalidade: 2 estudos de modelagem sobre a COVID-19, 1 sobre a SRAG, evidência de baixa qualidade). Os estudos também indicaram que pode haver uma redução no número básico de reprodução variando de 37% a 88% devido à implementação da quarentena (5 estudos de modelagem de COVID-19, evidência de baixa qualidade). Existe evidência de qualidade muito baixa que sugere que quanto mais cedo as medidas de quarentena forem implementadas, maior poderá ser a redução dos custos (2 estudos de modelagem sobre a SRAG).

Quarentena em combinação com outras medidas para conter a COVID-19 versus outras medidas sem quarentena ou nenhuma medida

Quando os modelos combinaram quarentena com outras medidas de prevenção e controle, como fechamento das escolas, restrições de viagem e distanciamento social, os modelos mostraram que isso pode ter um efeito maior na redução de novos casos, de transmissões, e de mortes do que o uso de medidas sem quarentena ou nenhuma intervenção (casos de incidentes: 9 estudos de modelagem sobre a COVID-19; transmissão posterior: 5 estudos de modelagem sobre a COVID-19; mortalidade: 5 estudos de modelagem sobre a COVID-19, evidência de baixa qualidade). Os resultados dos estudos sobre a SRAG e MERS foram consistentes com os resultados dos estudos sobre a COVID-19.

Quarentena versus ausência de quarentena para pessoas que viajam de um país com um surto declarado de COVID-19

Existe evidência de qualidade muito baixa de um possível pequeno efeito da quarentena dos viajantes provenientes de um país com um surto declarado na redução da incidência e mortes para a SRAG. Porém, o efeito pode ser maior para a COVID-19 (2 estudos observacionais sobre COVID-19 e 2 estudos observacionais sobre SRAG).

Notas de tradução: 

Tradução do Cochrane Brazil (Maria Regina Torloni). Contato: tradutores@centrocochranedobrasil.org.br

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