O tratamento com corticosteroides é benéfico e seguro para pessoas com pneumonia?

Pergunta da revisão

Avaliamos os efeitos do uso de corticosteroides (também chamados esteroides ou glicocorticoides) em pessoas com pneumonia. Queríamos saber se os corticosteroides mudariam o risco de morte, a resposta das pessoas ao tratamento, se esse remédio estaria associado a complicações, e quais seriam seus efeitos colaterais. Comparamos o uso de corticosteroides junto com antibióticos versus placebo (uma substância sem nenhum efeito) ou nenhum tratamento.

Introdução

A pneumonia aguda é uma infecção pulmonar. O tratamento habitual dessa infecção consiste no uso antibióticos para eliminar as bactérias responsáveis pela doença. A pneumonia é bastante comum, e apesar do tratamento adequado com antibiótico, algumas pessoas podem desenvolver complicações e vir a morrer.

Os corticosteroides são hormônios produzidos naturalmente pela glândula adrenal. Os corticosteroides têm sido considerados benéficos no tratamento de algumas infecções. No entanto, os seus efeitos benéficos são muitas vezes compensados por graves efeitos secundários, principalmente quando utilizados em doses elevadas e por um longo período. Esta é uma atualização de uma revisão publicada em 2011.

Data da busca

Incluímos todos estudos relevantes disponíveis até 3 de março de 2017.

Características do estudo

Incluímos 17 estudos que avaliaram o uso de corticosteroides sistêmicos (administrados por via intravenosa ou em comprimidos) em pessoas com pneumonia (2264 participantes; 1954 adultos e 310 crianças). Nesta atualização, incluímos 12 novos estudos e excluímos um estudo anteriormente incluído. Todos os estudos avaliaram pessoas com pneumonia adquirida na comunidade (PAC)) que estavam sendo tratadas no hospital. Nenhum estudo avaliou pessoas que haviam desenvolvido pneumonia enquanto estavam no hospital ou que estavam em aparelhos de respiração (em ventilação mecânica).

Fontes de financiamento dos estudos

Oito estudos não reportaram fontes de financiamento; sete foram financiados por instituições acadêmicas; um foi financiado por uma empresa farmacêutica; e um estudo relatou não ter recebido qualquer financiamento.

Resultados principais

O uso de corticosteroides reduziu o risco de morte em adultos com PAC grave, mas não em pessoas com PAC não grave. Dezoito adultos com PAC grave precisam ser tratados com corticosteroides para evitar uma morte.

As pessoas com PAC tratadas com corticosteroides tiveram menor taxa de falha clínica (morte, piora dos exames de imagem, ou nenhuma melhora clínica), menor tempo até a cura, menor tempo de permanência no hospital, e menos complicações. Encontramos evidências de boa qualidade que o uso de corticosteroides reduz a taxa de falha clínica em crianças com pneumonia. Porém, esses dados foram baseados em um pequeno número de crianças com diferentes tipos de pneumonia.

As pessoas tratadas com corticosteroides tiveram níveis mais altos de açúcar no sangue (hiperglicemia) do que as que não receberam corticosteroides. O tratamento com corticosteroides não foi associado a aumento no risco de outros eventos adversos graves.

O uso de corticosteroides foi benéfico para os adultos com PAC grave. As pessoas com PAC não grave também podem se beneficiar da terapia com corticosteroides, mas esse tratamento não modificou sua probabilidade de sobreviver.

Qualidade da evidência

Rebaixamos a qualidade da evidência devido a problemas com o desenho dos estudos, e devido a resultados incertos ou que não foram semelhantes entre estudos. A qualidade da evidência para morte e falência clínica em adultos foi moderada. A qualidade da evidência para falha clínica em pessoas com PAC grave, PAC não grave, e em crianças, foi alta.

Conclusão dos autores: 

A terapia com corticosteroides reduz a mortalidade e morbidade em adultos com PAC grave. O número necessário para tratar para um resultado benéfico é de 18 pacientes (IC 95% 12 a 49) para evitar um óbito. O uso de corticosteroides reduz a morbidade, mas não a mortalidade, de adultos e crianças com PAC não grave. A terapia com corticosteroides está associada a mais eventos adversos, especialmente hiperglicemia. Porém, os danos do uso de corticoides não parecem superar seus benefícios.

Leia o resumo na íntegra
Introdução: 

A pneumonia é uma doença comum e potencialmente grave. Os corticosteroides têm sido usados no tratamento de diferentes tipos de infecção. Porém, seu papel no tratamento da pneumonia permanece incerto. Esta é uma atualização de uma revisão publicada em 2011.

Objetivos: 

Avaliar a eficácia e a segurança do uso de corticoides no tratamento de pacientes com pneumonia.

Métodos de busca: 

Fizemos buscas nas seguintes bases de dados em 3 de março de 2017: Cochrane Acute Respiratory Infections Group, CENTRAL, MEDLINE, Embase e LILACS. Também fizemos buscas em anais de congressos relevantes e avaliamos as listas de referências dos ensaios clínicos identificados. Também fizemos buscas em três plataformas de registo de ensaios clínicos para identificar estudos em andamento e estudos não publicados.

Critério de seleção: 

Incluímos ensaios clínicos randomizados controlados (ECR) que compararam o uso de corticosteroides sistêmicos associados à antibioticoterapia versus placebo ou não usar corticosteroides no tratamento de adultos e crianças com pneumonia.

Coleta dos dados e análises: 

Utilizamos a metodologia padrão da Cochrane. Dois autores, trabalhando de forma independente, avaliaram o risco de viés e extraíram os dados dos estudos. Contatamos os autores dos estudos primários para obter informações adicionais. Calculamos a razão de risco (RR) e seu intervalo de confiança (IC) de 95%. Quando possível, fizemos metanálises usando o modelo de efeito fixo de Mantel-Haenszel.

Principais resultados: 

Incluímos 17 ECRs compreendendo um total de 2264 participantes; 13 estudos incluíam 1954 participantes adultos, e quatro incluíam 310 crianças. Esta atualização incluiu 12 novos estudos, excluiu um estudo incluído anteriormente e excluiu cinco novos ECRs. Um estudo aguarda classificação.

Todos os estudos incluíram apenas pacientes com pneumonia adquirida na comunidade (PAC), com ou sem pneumonia associada a cuidados de saúde (HCAP). No geral, o risco de viés de seleção e de atrito foi baixo ou incerto. O risco de viés de desempenho foi baixo em nove estudos, incerto em um e alto em sete estudos. O risco de viés de relato foi baixo em três estudos e alto nos outros 14 ECRs.

O uso de corticosteroides reduziu significativamente a mortalidade em adultos com pneumonia grave (RR 0,58, IC 95% 0,40 a 0,84; evidência de qualidade moderada), mas não em adultos com pneumonia não grave (RR 0,95, IC 95% 0,45 a 2,00). A taxa de falência clínica precoce (definida como morte por qualquer causa, progressão radiográfica ou instabilidade clínica no 5º ao 8º dia) foi significativamente menor com o uso dos corticosteroides em pessoas com pneumonia grave e não grave (RR 0,32, IC 95% 0,15 a 0,7; e RR 0,68, IC 95% 0,56 a 0,83, respectivamente; evidência de alta qualidade). O uso de corticosteroides reduziu o tempo para cura clínica, o tempo de internação hospitalar e na unidade de terapia intensiva, o desenvolvimento de insuficiência respiratória ou choque não presente no início da pneumonia, e a taxa de complicações associadas à pneumonia.

Em crianças com pneumonia bacteriana, o uso de corticosteroides reduziu a taxa de insuficiência clínica precoce (definida como para os adultos, RR 0,41, IC 95% 0,24 a 0,70; evidência de alta qualidade) com base em dois pequenos estudos clinicamente heterogêneos, e reduziu o tempo para a cura clínica.

A hiperglicemia foi significativamente mais frequente nos adultos tratados com corticosteroides (RR 1,72, IC 95% 1,38 a 2,14). Não houve diferença significativa entre pessoas tratadas com corticosteroides e os controles para outros eventos adversos ou infecções secundárias (RR 1,19, IC 95% 0,73 a 1,93).

Notas de tradução: 

Tradução do Cochrane Brazil (Maria Regina Torloni). Contato: tradutores@centrocochranedobrasil.org.br

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