Qual é o desempenho dos testes rápidos para o diagnóstico da faringite estreptocócica em crianças?

Introdução e objetivos

A dor de garganta é muito comum em crianças. Ela pode ser causada por vírus ou bactérias. O estreptococo do grupo A é a bactéria mais frequentemente identificada nas crianças com dor de garganta; ela causa a chamada ´faringite estreptocócica´. Os antibióticos só são úteis para crianças com dor de garganta causada por faringite estreptocócica.

Desde os anos 1980, existem no mercado testes rápidos e simples para o diagnóstico da faringite estreptocócica. Na hora da consulta, os médicos podem fazer um teste rápido para essa doença simplesmente passando um cotonete na garganta da criança. Baseados no resultado do teste rápido, eles podem então decidir se é necessário ou não prescrever antibióticos.

Nós revisamos as evidências sobre o desempenho dos testes rápidos para a detecção correta da faringite estreptocócica em crianças com queixa de dor de garganta atendidas em ambulatórios.

Características do estudo

Nós pesquisamos por estudos publicados em qualquer língua desde janeiro de 1980 até julho de 2015. Encontramos 98 estudos envolvendo 101.121 crianças. Esses estudos avaliaram 116 testes. O número de participantes envolvidos nas avaliações dos testes variou de 42 até 11.644. A proporção de crianças com faringite estreptocócica variou de 9,5% até 66,6% entre os testes avaliados.

Qualidade da evidência

Vários estudos deixaram de descrever adequadamente características importantes sobre como ele foram feitos (desenho). No geral, a qualidade metodológica dos estudos incluídos foi ruim. A maioria dos estudos tinha problemas na maneira usada para selecionar os participantes.

Resultados principais

A sensibilidade média (capacidade de detectar corretamente pessoas com a doença) dos testes rápidos para faringite estreptocócica foi de 86% e a especificidade média (capacidade de detectar corretamente pessoas que não tem a doença) foi de 95%. O desempenho dos testes rápidos variou bastante entre os estudos. Essa variação não foi explicada pelas características dos estudos, incluindo sua qualidade metodológica. A sensibilidade dos dois tipos de testes rápidos avaliados foram semelhantes: 85,4% para os imunoensaios enzimáticos versus 86,2% para os imunoensaios ópticos. Baseado nesses resultados, podemos esperar que se 100 crianças com faringite estreptocócica fizessem um teste rápido, 86 crianças receberiam o diagnóstico correto enquanto 14 deixariam de ser diagnosticadas e portanto não seriam tratadas com antibióticos. E se 100 crianças com faringite não-estreptocócica fizessem um teste rápido, 95 receberiam o diagnóstico correto (de que não têm a doença) enquanto 5 seriam diagnosticadas erroneamente como tendo faringite estreptocócica e receberiam antibióticos desnecessariamente.

Conclusão dos autores: 

Em uma população de 1000 crianças com uma prevalência de faringite estreptocócica de 30%, 43 pacientes com faringite estreptocócica deixariam de ser diagnosticados (se fosse usado apenas um teste rápido). O uso isolado dos testes rápidos para eliminar o diagnóstico da faringite estreptocócica vai depender principalmente do contexto epidemiológico. As sensibilidades dos testes EIA e OIA parecem ser comparáveis. A especificidade dos testes rápidos é suficientemente alta para evitar o uso desnecessário de antibióticos. Baseado nesses resultados, podemos esperar que se 100 crianças com faringite estreptocócica fizessem um teste rápido, 86 crianças receberiam o diagnóstico correto enquanto 14 deixariam de ser diagnosticadas e portanto não seriam tratadas com antibióticos.

Leia o resumo na íntegra...
Contexto: 

O estreptococos do grupo A (GAS) é responsável por 20% a 40% dos casos de faringite em crianças. Os vírus são responsáveis por todos os outros casos. O diagnóstico pode ser feito com material colhido da garganta e enviado para cultura laboratorial ou com testes rápidos contra o antígeno (RADTs). Esse tipo de exame pode ser feito na hora da consulta e seu resultado fica pronto dentro de 5 a 10 minutos.

Objetivos: 

Avaliar a acurácia diagnostica dos RADTs para diagnosticar estreptococos do grupo A (GAS) em crianças com faringite. Avaliar a acurácia diagnóstica relativa dos dois principais tipos de RADTs (imunoensaio enzimático (EIA) e imunoensaio óptico (OIA)) por comparação direta e indireta.

Estratégia de busca: 

Pesquisamos as seguintes bases de dados: CENTRAL, MEDLINE, EMBASE, Web of Science, CDSR, DARE, MEDION and TRIP (janeiro de 1980 até julho de 2015). Também buscamos no PubMed por referências relacionadas e fizemos buscas manuais nas listas de referências dos estudos incluídos e em artigos de revisão relevantes. Finalmente, verificamos todos os estudos que citavam os estudos incluídos via Google Scholar.

Critérios de seleção: 

Incluímos estudos que recrutaram crianças atendidas em ambulatórios com suspeita de faringite por estreptococos e que compararam RADTs versus cultura de garganta numa placa de agar de sangue em laboratório de microbiologia.

Coleta dos dados e análises: 

Dois autores, trabalhando de forma independente, selecionaram as referências baseado nos títulos e resumos, avaliaram os textos completos para inclusão, extraíram os dados e avaliaram a qualidade dos estudos usando a ferramenta QUADAS-2. Utilizamos metanálise bivariada para estimar a sensibilidade e especificidade, e para investigar a heterogeneidade entre os estudos. Comparamos a acurácia dos testes EIA e OIA usando evidência direta e indireta.

Resultados principais: 

Incluímos na revisão 98 estudos (116 avaliações de testes; 101.121 participantes). A qualidade metodológica geral dos estudos incluídos foi ruim. O principal motivo foi que muitos estudos tinham um alto risco de viés para seleção dos pacientes e para o teste padrão utilizado (em 73% e 43% dos testes avaliados, respectivamente). Nos estudos que fizeram tanto o RADT como a cultura em todos participantes (105 testes, 58.244 participantes, prevalência mediana de participantes com GAS de 29,5%),a sensibilidade do RADT foi 85,6% (intervalo de confiança-IC de 95% 83,3% até 87,6%) e a especificidade foi 95,4% (IC 95% 94,5% até 96,2%). Houve alta heterogeneidade na sensibilidade entre os estudos; a especificidade foi mais estável. Não houve evidência de permuta entre sensibilidade e especificidade. A heterogeneidade na acurácia não foi explicada pelas características do estudo, incluindo o uso ou não de um caldo de enriquecimento antes de semear o material nas placas, a idade média e a gravidade clínica dos pacientes, e a prevalência da GAS. A sensibilidade dos testes EIA e OIA foi semelhante: 85,4% versus 86,2%. A análise de sensibilidade mostrou que as estimativas de sensibilidade e especificidade continuaram estáveis nos estudos com baixo risco de viés.

Notas de tradução: 

Tradução do Centro Cochrane do Brasil (Rafael Lima Mc Gregor von Hellmann). Contato: tradutores@centrocohranedobrasil.org.br

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