Estatinas para o tratamento da estenose da valva aórtica

Pergunta da revisão

Qual é a evidência quanto ao efeito das estatinas no tratamento das pessoas que sofrem de estenose da valva aórtica?

Introdução

O coração é responsável por bombear sangue para todo o corpo. Existem quatro válvulas que controlam o fluxo sanguíneo entre as câmaras do coração. Uma delas é a válvula aórtica, que controla a saída de sangue do ventrículo esquerdo para o resto do corpo. Na estenose da válvula aórtica, ocorre um estreitamento dessa válvula. Esse é o tipo mais comum de doença valvar cardíaca nos Estados Unidos e na Europa. A incidência da estenose da valva aórtica aumenta com a idade; 2% a 7% das pessoas com mais de 65 anos sofrem dessa doença. A estenose da valva aórtica é como se fosse um tipo de arteriosclerose. A pessoa com estenose da válvula aórtica pode não ter nenhum sintoma (ficar assintomática) por muitas décadas. Quando a doença se manifesta clinicamente, a pessoa pode ter sintomas como síncope (breve perda da consciência), angina e dispneia (falta de ar) que podem levar à morte. Alguns estudos prospectivos e retrospectivos mostraram que as estatinas podem retardar a progressão da estenose da valva aórtica. As estatinas são consideradas drogas muito úteis para baixar o colesterol no sangue, quando ele está muito alto.

Características do estudo

Buscamos estudos publicados até 24 de novembro de 2015. Pesquisamos em bases de dados eletrônicas para achar estudos randomizados comparando o uso de estatinas (como tratamento único ou associado a outros medicamentos que reduzem as gorduras do sangue) com o uso de placebo ou cuidados habituais, para pacientes com estenose aórtica.

Resultados principais

Avaliamos a gravidade da estenose aórtica usando os seguintes parâmetros ecocardiográficos: gradiente médio de pressão transvalvular, área valvar e velocidade do jato aórtico. Também avaliamos ausência de substituição valvular e morte por causa cardiovascular. Não encontramos diferenças entre o grupo que usou estatina e o grupo placebo quanto ao gradiente médio de pressão transvalvular, a área valvular, a ausência de substituição valvular e a morte por causa cardiovascular. Como havia apenas um estudo sobre isso, não foi possível fazer uma metanálise para avaliar o efeito da estatina versus placebo sobre a velocidade do jato aórtico. Também avaliamos a segurança das estatinas por meio da análise de eventos adversos, como dores musculares. A dor muscular é o evento adverso mais frequente associado ao uso das estatinas e esse sintoma pode limitar o uso desse medicamento. A dor muscular não diferiu entre os participantes que receberam estatinas e aqueles que receberam placebo. Os resultados de 4 ensaios randomizados controlados com 2.360 pacientes mostraram que o uso de estatinas não desacelera a progressão da estenose da valva aórtica.

Qualidade das evidências

A qualidade das evidências para os vários desfechos variou entre moderada a muito baixa devido a limitações nos estudos originais. Todos os estudos incluídos tinham pelo menos uma limitação metodológica.

Conclusões

As evidências dessa revisão apontam a existência de incertezas quanto ao efeito das estatinas no tratamento da estenose da valva aórtica. Esses resultados corroboram as recomendações das diretrizes europeia e americana (de 2012 e 2014, respectivamente) que dizem que, até o momento, não existe opção de tratamento clínico para as pessoas que sofrem de estenose da valva aórtica. Uma alternativa seria ampliar o conhecimento sobre a fisiopatologia dessa doença e incluir fatores de risco como cálcio, hereditariedade, vitamina D, inflamação, estresse oxidativo, diabetes, hipertensão entre outros. São necessários estudos randomizados de alta qualidade que incluam a avaliação desses fatores de risco para estenose aórtica.

Conclusão dos autores: 

Os resultados mostram que há incertezas quanto ao efeito do uso das estatinas no tratamento da estenose aórtica. A qualidade das evidências para os desfechos descritos nesta revisão variou de moderada a muito baixa. Esses resultados corroboram as recomendações das diretrizes europeias e norte-americanas (de 2012 e 2014, respectivamente) que dizem não haver opção de tratamento clínico para a estenose aórtica, até o momento.

Leia o resumo na íntegra...
Contexto: 

A estenose da válvula aórtica é a doença valvar mais comum nos Estados Unidos e na Europa, sendo considerada similar à doença aterosclerótica. Alguns estudos têm avaliado o uso das estatinas para seu tratamento.

Objetivos: 

Avaliar a efetividade e a segurança das estatinas no tratamento da estenose da valva aórtica.

Estratégia de busca: 

Pesquisamos as seguintes bases de dados, desde a data inicial da base até 24 de novembro de 2015: Cochrane Central Register of Controlled Trials (CENTRAL), MEDLINE, Embase, LILACS - IBECS, Web of Science e CINAHL Plus. Também fizemos buscas em plataformas de registros de ensaios clínicos para identificar estudos em andamento. Não houve restrição de idiomas.

Critérios de seleção: 

Incluímos ensaios clínicos randomizados (ECR) que comparam o uso de estatinas (em monoterapia ou associadas a outras drogas sistêmicas para redução dos níveis de colesterol) versus placebo ou cuidados habituais.

Coleta dos dados e análises: 

Os desfechos primários foram: gravidade da estenose da válvula aórtica (avaliada por critérios ecocardiográficos: gradiente médio de pressão transvalvular, área valvular e velocidade do jato aórtico); ausência de substituição valvular e morte por causa cardiovascular. Os desfechos secundários foram: internações por qualquer razão, mortalidade geral, eventos adversos e qualidade de vida do paciente.

Dois autores, trabalhando de forma independente, avaliaram a elegibilidade e a qualidade dos estudos e extraíram os dados. A metodologia GRADE foi empregada para avaliar a qualidade geral das evidências. O programa GRADE profiler (GRADEPRO) foi usado para importar os dados do Review Manager 5.3 para criar a tabela "Sumário de resultados".

Resultados principais: 

Incluímos 4 ECR (com 2.360 participantes) que compararam o uso de estatinas (1.185 participantes) versus placebo (1.175 participantes). Encontramos evidência de baixa qualidade para nosso desfecho primário gravidade da estenose da válvula aórtica, avaliada a) pelo gradiente médio de pressão transvalvular: diferença média (MD) -0,54, intervalo de confiança (IC) de 95% -1,88 a 0,80, 1935 participantes, 2 estudos; b) pela área valvular: MD -0,07, IC 95% CI -0,28 a 0,14, 127 participantes, 2 estudos e c) pela velocidade do jato aórtico: MD -0,06, IC 95% -0,26 a 0,14, 155 participantes, 1 estudo. As estatinas não tiveram efeito sobre a não realização da substituição valvular: risco relativo (RR) 0,93, IC 95% 0,81 a 1,06, 2.360 participantes, 4 estudos, evidência de qualidade moderada. As estatinas também não produziram uma diferença significativa sobre o evento adverso "dores musculares": RR 0,91, IC 95% 0,75 a 1,09, 2.204 participantes, 3 estudos, evidência de qualidade moderada. Encontramos evidências de qualidade baixa e muito baixa mostrando efeitos incertos das estatinas sobre a morte por causa cardiovascular: RR 0,80, IC 95% 0,56 a 1,15, 2.297 participantes, 3 estudos, evidência de baixa qualidade; e para hospitalização por qualquer razão: RR 0,84, IC 95% 0,39 a 1,84, 155 participantes, 1 estudo, evidência de muito baixa qualidade. Nenhum dos 4 estudos incluídos na revisão trouxe dados sobre mortalidade geral e qualidade de vida do paciente.

Notas de tradução: 

Traduzido pelo Cochrane Brazil (Leonardo Mendes Mesquita). Contato: tradutores@centrocochranedobrasil.org.br

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