Estatinas podem ajudar a reduzir o risco de morte em pessoas com doença renal crônica que não precisam de diálise

Adultos com doença renal crônica (DRC) têm alto risco de desenvolver complicações decorrentes de doenças do coração (doenças cardíacas). Acredita-se que o tratamento dessas pessoas com estatinas reduz o seu colesterol e o risco de elas morrerem e de terem complicações cardíacas.

Avaliamos 50 estudos publicados antes de junho de 2012 a respeito do uso de estatinas em mais de 45.000 pessoas com DRC que não precisavam de diálise. Concluímos que as estatinas reduziram em 20% o risco de morte e de problemas cardíacos graves nessas pessoas. O tratamento com estatina também mostrou ser eficaz na redução de doença cardíaca e na diminuição da mortalidade de pessoas com DRC que não têm doença cardíaca. Nessas pessoas, o tratamento com estatina reduziu os riscos de ataque cardíaco pela metade.

As estatinas podem causar alguns efeitos adversos os músculos, no funcionamento do fígado e propiciar o surgimento de alguns tipos de câncer. Descobrimos que essas questões não foram bem analisadas nos estudos incluídos nesta revisão e, portanto, esses efeitos ainda não estão claros.

Embora as estatinas não reduzam a progressão da doença renal, elas são recomendadas para reduzir os riscos de morte e eventos cardíacos nas pessoas com doença renal em estágio inicial. No entanto, os possíveis efeitos colaterais desse remédio ainda são incertos e precisam ser melhor estudados.

Conclusão dos autores: 

Em pessoas com DRC que não precisam de diálise, o uso de estatinas reduz em 20% os riscos de morte e de eventos cardiovasculares maiores. Os efeitos das estatinas sobre o acidente vascular cerebral e a função renal foram inconsistentes. Os efeitos adversos do tratamento com estatinas para esse tipo de paciente ainda não estão claros. As estatinas têm um papel importante na prevenção primária de eventos cardiovasculares e na taxa de mortalidade em pessoas com DRC.

Leia o resumo na íntegra...
Contexto: 

A doença cardiovascular é a principal causa de morte das pessoas com doença renal crônica (DRC) em estágio inicial. Essas pessoas têm um risco absoluto de eventos cardiovasculares que é semelhante ao daquelas que têm doença coronariana preexistente. Esta é a atualização de uma revisão publicada originalmente em 2009 e inclui os resultados de 27 novos estudos (25.068 participantes), além dos 26 estudos já incluídos anteriormente (20.324 participantes); e exclui três estudos anteriormente incluídos (107 participantes). Esta atualização inclui, portanto, um total de 50 estudos (45.285 participantes), sendo que 38 estudos (37.274 participantes) foram incluídos em metanálises.

Objetivos: 

Avaliar os benefícios e efeitos adversos das estatinas comparadas com placebo, com ausência de tratamento, com o tratamento padrão ou com outras estatinas em adultos com doença renal crônica que não estejam em diálise. Os benefícios avaliados foram, por exemplo, redução de mortalidade cardiovascular por todas as causas, eventos cardiovasculares maiores, infarto do miocárdio e derrame e progressão lenta para doença renal crônica. Os efeitos adversos ou danosos foram disfunção muscular e hepática, retirada e câncer.

Estratégia de busca: 

Fizemos buscas no Cochrane Renal Group’s Register até 5 de junho de 2012, usando termos relevantes para esta revisão.

Critérios de seleção: 

Ensaios clínicos randomizados (ECR) e quasi-randomizados compararam os efeitos das estatinas versus placebo, nenhum tratamento, tratamento padrão ou outras estatinas, na mortalidade, nos eventos cardiovasculares, na função renal, na toxicidade e nos níveis dos lipídios em adultos com IRC sem diálise.

Coleta dos dados e análises: 

Dois ou mais revisores extraíram independentemente os dados e avaliaram o risco de viés dos estudos. Para os desfechos contínuos (lipídios, creatinina e proteinúria), apresentamos os resultados como diferença média (MD). Apresentamos como risco relativo (RR) com intervalos de confiança (IC) de 95% os resultados dos desfechos dicotômicos: eventos cardiovasculares, mortalidade geral, mortalidade cardiovascular, infarto do miocárdio (IM) fatal ou não fatal, acidente vascular cerebral fatal ou não fatal, IRC terminal aumento das enzimas hepáticas, rabdomiólise, câncer e taxa de abandono da medicação.

Resultados principais: 

Foram incluídos 50 estudos (45.285 participantes): 47 estudos (39.820 participantes) comparando as estatinas com placebo ou nenhum tratamento e três estudos (5.547 participantes) comparando dois regimes diferentes de estatinas em adultos com DRC sem diálise. Foi possível fazer metanálises com 38 estudos (37.274 participantes).

O risco de viés dos estudos incluídos foi alto. Sete estudos comparando as estatinas com placebo ou nenhum tratamento tiveram menor risco de viés global. Esses estudos foram conduzidos de acordo com os protocolos publicados, os desfechos foram julgados por um comitê, os desfechos especificados foram relatados e as análises foram realizadas conforme “intenção de tratar”. Nos estudos em que o grupo controle recebeu placebo ou nenhum tratamento, os efeitos adversos foram relatados em 32 estudos (68%) e sistematicamente avaliados em 16 estudos (34%).

Em comparação com placebo, o uso das estatinas preveniu a ocorrência de eventos cardiovasculares (13 estudos, 36.033 participantes; RR 0,72, IC 95% 0,66 a 0,79), a mortalidade global (10 estudos, 28.276 participantes; RR 0,79, IC 95% 0,69 a 0,91), mortalidade de causa cardiovascular (7 estudos, 19.059 participantes; RR 0,77, IC 95% 0,69 a 0,87) e infarto (8 estudos, 9.018 participantes; RR 0,55, IC 95% 0,42 a 0,72). O efeito das estatinas sobre a taxa de acidente vascular cerebral não foi significativo (5 estudos, 8.658 participantes; RR 0,62, IC 95% 0,35 a 1,12).

A falta de descrição sistemática dos eventos adversos relacionados ao uso das estatinas limitou nossa avaliação desse desfecho. Nos estudos que relataram esse desfecho, os eventos adversos foram raros e isso prejudicou sua avaliação: aumento da creatinino-quinase (CPK) (7 estudos, 4.514 participantes; RR 0,84, IC 95% 0,20 a 3,48), alteração da função hepática (7 estudos, RR 0,76, IC 95% 0,39 a 1,50), abandono do tratamento devido a eventos adversos (13 estudos, 4.219 participantes; RR 1,16, IC 95% 0,84 a 1,60) e câncer (2 estudos, 5.581 participantes; RR 1,03, IC 95% 0,82 a 130).

O efeito das estatinas sobre a progressão da DRC foi inconsistente. Houve poucos dados sobre os efeitos relativos da redução intensiva de colesterol em pessoas em estágios iniciais da doença renal. O uso das estatinas produziu uma redução consistente do risco de mortalidade, eventos cardiovasculares maiores e infarto em pessoas com DRC sem doença cardiovascular preexistente (prevenção primária).

Notas de tradução: 

Tradução do Centro Cochrane do Brasil (Arnaldo Alves da Silva). Contato: tradutores@centrocochranedobrasil.org.br

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