O exercício pode melhorar a qualidade de vida relacionada à saúde entre os sobreviventes de câncer?

As pessoas que sobrevivem ao câncer podem ter vários eventos adversos psicológicos e físicos como resultado da sua doença ou do seu tratamento. Eles também tem uma baixa qualidade de vida (QV) em comparação com pessoas sem câncer.Alguns estudos sugerem que o exercício pode ajudar a reduzir desfechos negativos e melhorar a QV das pessoas que terminaram o tratamento para o câncer.Além disso, uma melhor QV pode levar a uma vida mais longa. Esta revisão avaliou os efeitos do exercício na QV e em aspectos específicos da vida que compõem a QV (por exemplo, cansaço, ansiedade, saúde emocional) entre pessoas que haviam concluído o tratamento para câncer.

Esta revisão incluiu 40 estudos com um total de 3.694 pessoas. Os resultados sugerem que o exercício pode melhorar a QV geral logo após o término de um programa de exercício.O exercício pode também reduzir as preocupações de uma pessoa sobre o seu câncer e modificar a maneira como a pessoa vê seu próprio corpo.  O exercício pode também ajudar a maneira com que uma pessoa lida com as emoções, melhorar sua função sexual, problemas de sono e seu funcionamento social. O exercício também reduziu a ansiedade, o cansaço e a dor em momentos diferentes durante e após o programa de atividade física.Não encontramos evidências de que o exercício modifique a habilidade de um indivíduo pensar com clareza nem sua capacidade de desempenhar seu papel na sociedade. Também não encontramos evidência de que o exercício modifica a maneira como a pessoa enxerga sua saúde espiritual e física, ou sua habilidade física.

Entretanto, esses resultados precisam ser vistos com cuidado, porque esta revisão incluiu uma grande variedade de programas de exercícios, que variaram quanto ao tipo, à duração, e à quantidade de atividade física. Além disso, cada estudo usou diferentes formas de medir a QV.

Mais pesquisas são necessárias para saber como manter os efeitos do exercício por um período longo de tempo após o fim de um programa de atividade física, e para descobrir quais componentes do programa são essenciais (por exemplo, quando começar o programa, os tipos de exercício, a duração do programa ou das sessões, o nível de dificuldade). Também é importante descobrir se um tipo de exercício é melhor para um tipo específico de câncer em comparação com outros, para um efeito máximo na QV.

Conclusão dos autores: 

Esta revisão sistemática indica que o exercício pode ter efeitos benéficos na QVRS e em alguns dos seus domínios, incluindo preocupações específicas com o câncer (por exemplo, câncer de mama), imagem corporal/autoestima, bem-estar emocional, sexualidade, distúrbios do sono, função social, ansiedade, fadiga e dor em vários períodos do seguimento. Os resultados positivos devem ser interpretados com cautela devido à heterogeneidade dos programas de exercício testados e das medidas usadas para avaliar a QVRS e seus domínios, e também devido ao risco de viés em vários estudos. Mais pesquisas são necessárias para investigar como manter os efeitos positivos do exercício ao longo do tempo e para descobrir quais são os atributos essenciais do exercício (tipo, intensidade, frequência, duração e tempo) para cada tipo de câncer e tratamento de câncer para se conseguir os efeitos ideais na QVRS e em seus domínios.

Leia o resumo na íntegra...
Contexto: 

Os sobreviventes de câncer experimentam vários eventos adversos em decorrência da sua doença e dos tratamentos e têm pior qualidade de vida relacionada à saúde (QVRS). Foi levantada a hipótese de que os exercícios poderiam aliviar esses eventos adversos. A QVRS e seus domínios são medidas importantes para a sobrevivência do câncer.

Objetivos: 

Avaliar a efetividade do exercício na melhora da QVRS em geral e nos seus diferentes domínios, entre adultos sobreviventes de câncer após o tratamento.

Estratégia de busca: 

Pesquisamos as seguintes bases de dados: Cochrane Central Register of Controlled Trials (CENTRAL), PubMed, MEDLINE, EMBASE, CINAHL, PsycINFO, PEDRO, LILACS, SIGLE, SportDiscus, OTSeeker, e Sociological Abstracts, desde sua criação até outubro de 2011, sem restrições de idioma ou datas. Também buscamos referências através do Web of Science e Scopus, da ferramenta de artigos relacionados do PubMed e em vários websites. Também revisamos as listas de referências dos estudos incluídos e de outras revisões da área.

Critérios de seleção: 

Incluímos todos os ensaios clínicos randomizados (ECR) e ensaios clínicos controlados (ECC) que compararam as intervenções de exercício versus o cuidado habitual ou outras intervenções sem exercício para avaliar seus efeitos sobre a QVRS geral e pelo menos um domínio da QVRS em adultos. Os estudos deveriam testar intervenções de exercício que haviam sido iniciadas após o término do tratamento ativo para câncer. Excluímos os estudos que incluíram indivíduos em estágio terminal, ou internados em asilos, ou os dois, e aqueles em que a maioria dos participantes do estudo estava em tratamento ativo para um câncer primário ou recorrente.

Coleta dos dados e análises: 

Cinco autores de revisão, trabalhando em pares e de forma independente, extraíram os dados sobre as características dos estudos incluídos e os efeitos da intervenção e avaliaram o risco de viés desses estudos baseados em critérios predefinidos. Quando possível, os resultados foram agrupados em metanálises para avaliar a diferença no escore total do QVRS e domínios do QVRS entre os valores no início e depois do término da intervenção. Usamos diferenças médias padronizadas (DMP) e modelos de efeito randômico conforme a duração do seguimento. Nós também relatamos as DMP entre as médias dos valores do seguimento do grupo controle e grupo exercício. Os autores dos estudos primários usaram diferentes instrumentos para medir a QVRS e seus domínios e frequentemente mais de um instrumento para o mesmo domínio. Por isso, nós selecionamos o instrumento mais utilizado para incluir na metanálise de DMP. Também apresentamos separadamente a diferença de média para cada tipo de instrumento.

Resultados principais: 

Incluímos 40 estudos com 3.694 participantes randomizados para o grupo exercício (n = 1.927) ou de comparação (n = 1.764). Os participantes dos estudos tinham câncer de mama, colón, cabeça e pescoço, linfoma e outros. Trinta estudos foram realizados com participantes que tinham completado um tratamento ativo para um câncer primário ou recorrente e 10 estudos incluíram tanto participantes que estavam na vigência do tratamento de câncer como participantes que já tinham terminado esse tratamento. As intervenções de exercício incluíram treinamento de fortalecimento, treinamento de resistência, caminhada, bicicleta, ioga, qigong ou tai chi. Uma grande variedade de instrumentos foi usada para medir a QVRS e seus domínios.

Os resultados sugerem que o exercício, comparado com o controle, teve impacto positivo na QVRS e em alguns domínios da QVRS.O exercício levou a melhoras na: QVRS global em 12 semanas (DMP de 0,48; intervalo de confiança de 95%, 95% CI, de 0,16 a 0,81) e em seis meses (0,46; 95% CI 0,09 a 0,84), preocupações sobre o câncer de mama avaliados entre 12 semanas a seis meses (DMP 0,99; 95% CI 0,41 a 1,57), na imagem corporal/autoestima usando a escala de autoestima de Rosenberg, no seguimento de 12 semanas (diferença de média, DM, 4,50; 95% CI 3,40 a 5,60) e entre 12 semanas a seis meses (DM 2,70; 95% CI 0,73 a 4,67), no bem-estar emocional após 12 semanas de seguimento (DMP 0,33; 95% CI 0,05 a 0,61), função sexual no seguimento de 6 meses (DMP 0,40, 95%CI 0,11 a 0,68), distúrbios do sono ao comparar os valores do seguimento por grupo de comparação com 12 semanas de seguimento (DMP -0,46; 95% CI -0,72 a -0,20), e função social no seguimento de 12 semanas (DMP 0,45; 95% CI 0,02 a 0,87) e de seis meses (DMP 0,49; 95% CI 0,11 a 0,87) de seguimento.

Além disso, as intervenções de exercício levaram a redução da ansiedade no seguimento de 12 semanas (DMP -0,26; 95% CI -0,07 a -0,44), da fadiga após 12 semanas (DMP -0,82; 95% CI -1.50 a -0,14) e entre 12 semanas e seis meses (DMP -0,42; 95% CI -0,02 a -0,83) de seguimento, e da dor no seguimento de 12 semanas (DMP -0,29; 95% CI -0,55 a -0,04) na comparação dos valores do seguimento por grupo.

Foram observados impacto e tendência positiva das intervenções de exercício para melhora da depressão e da imagem corporal (na análise dos instrumentos combinados); entretanto, devido ao fato de que poucos estudos mensuraram esses desfechos, a robustez dos achados é incerta.

Nenhuma conclusão pode ser tirada sobre o efeito das intervenções de exercício nos seguintes domínios da QVRS: função cognitiva, função física, perspectiva de saúde geral, papel do indivíduo e espiritualidade.

Os resultados desta revisão precisam ser interpretados com cautela devido ao risco de viés. Todos os estudos revisados tinham alto risco de viés de performance e a maioria dos estudos tinha alto risco de viés para detecção, atrito e seleção.

Notas de tradução: 

Tradução do Centro Cochrane do Brasil (Maíra Tristão Parra).

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