Musicoterapia para pessoas com transtorno do espectro do autismo

Pergunta da revisão

Revisamos as evidências sobre o efeito da musicoterapia em pessoas com transtorno do espectro do autismo (TEA). Comparamos musicoterapia ou terapia musical, além dos cuidados habituais, versus nenhuma terapia, ou tratamento similar sem música (terapia 'placebo'), ou cuidados habituais.

Introdução

As pessoas com TEA têm dificuldades para se comunicar e para interagir socialmente. A musicoterapia usa experiências musicais e as relações que se desenvolvem através delas para que as pessoas se relacionem com os outros, se comuniquem, e partilhem seus sentimentos. Desta forma, a musicoterapia aborda alguns dos principais problemas das pessoas com TEA. Fizemos essa revisão para saber se a terapia musical, comparada outras alternativas, poderia ajudar as pessoas com TEA.

Características do Estudo

Incluímos 10 estudos que envolveram um total de 165 participantes. Os estudos avaliaram os efeitos das intervenções da musicoterapia no curto e médio prazo (uma semana a sete meses) em crianças com TEA.

Principais Resultados

A musicoterapia foi superior à terapia 'placebo' ou aos cuidados habituais para melhorar os seguintes resultados: interações sociais, habilidades comunicativas não-verbais e verbais, comportamento iniciador e reciprocidade sócio-emocional. A musicoterapia também foi superior à terapia 'placebo' ou aos cuidados habituais para melhorar a adaptação social, alegria e qualidade das relações pais-filho. Nenhum dos estudos incluídos relatou quaisquer efeitos colaterais decorrentes da terapia musical.

Qualidade da Evidência

A qualidade da evidência foi moderada para interação social fora do contexto terapêutico, comportamentos iniciadores, adaptação social e a qualidade da relação pais-filho. A qualidade da evidência foi baixa para os outros três resultados principais (competências comunicativas não verbais fora do contexto terapêutico, competências comunicativas verbais fora do contexto terapêutico, e reciprocidade sócio-emocional). Os motivos para rebaixar a qualidade limitada da evidência foram problemas com o desenho dos estudos e o pequeno número de pessoas que participaram dos estudos.

Conclusões dos Autores

A musicoterapia pode ajudar as crianças com TEA a melhorar suas habilidades em áreas importantes, como interação social e comunicação. A musicoterapia também pode contribuir para aumentar as habilidades de adaptação social das crianças com TEA e para promover maior qualidade das relações pais-filho. Alguns dos estudos incluídos avaliaram intervenções que são tratamentos usados na prática clínica. É necessário fazer mais estudos com desenhos adequados e com maior número de participantes. Também é importante que os novos estudos avaliem especificamente a duração dos efeitos da terapia musical. Para oferecer musicoterapia para essas crianças, é necessário contar com profissionais com formação acadêmica e clínica especializadas nessa área. Isto é importante quando os profissionais forem implementar os resultados desta revisão na prática clínica.

Conclusão dos autores: 

Baseado nos resultados desta versão atualizada da revisão, existe evidência de que a musicoterapia pode ajudar as crianças com TEA a melhorar suas habilidades em áreas que fazem parte do núcleo principal da sua condição como interação social, comunicação verbal, comportamento iniciador e reciprocidade sócio emocional. A musicoterapia também pode ajudar a melhorar as habilidades de comunicação não-verbais no contexto terapêutico. Além disso, a musicoterapia pode contribuir para aumentar a capacidade de adaptação social de crianças com TEA e melhorar a qualidade das relações pais-filho. Em contrapartida aos estudos incluídos na versão anterior desta revisão publicada em 2006, os novos estudos incluídos nesta atualização reforçam a aplicabilidade dos resultados para a prática clínica. É necessário fazer mais estudos, com mais participantes e medidas generalizadas de desfechos, para corroborar estes resultados e para avaliar se os efeitos da musicoterapia são duradouros. Para implementar os resultados dessa revisão na prática clínica, é importante salientar que é necessário ter pessoas com formação acadêmica e clínica especializadas em musicoterapia.

Leia o resumo na íntegra...
Contexto: 

As principais deficiências das pessoas com transtorno do espectro do autismo (TEA) afetam sua capacidade de interação social e comunicação. A musicoterapia utiliza as experiências musicais e as relações que se desenvolvem através delas para melhorar a comunicação e expressão, tentando assim abordar alguns dos problemas centrais das pessoas com TEA. Esta é uma atualização de uma revisão Cochrane publicada pela primeira vez em 2006.

Objetivos: 

Avaliar os efeitos da terapia musical em indivíduos com TEA.

Estratégia de busca: 

Fizemos buscas nas seguintes bases de dados em julho de 2013: CENTRAL, Ovid MEDLINE, EMBASE, LILACS, PsycINFO, CINAHL, ERIC, ASSIA, Sociological Abstracts, e Dissertation Abstracts International. Também avaliamos as listas de referências dos estudos relevantes e contatamos pessoalmente os autores dos estudos primários.

Critérios de seleção: 

Incluímos ensaios clínicos controlados randomizados (ECR) ou ensaios clínicos controlados que comparam musicoterapia ou a musicoterapia mais cuidados habituais versus "placebo", nenhum tratamento, ou cuidados habituais em pacientes com TEA.

Coleta dos dados e análises: 

Dois autores, trabalhando de forma independente, selecionaram os estudos, avaliaram o risco de viés, e extraíram dados dos estudos incluídos. Para avaliar e interpretar o tamanho do efeito da intervenção sobre desfechos contínuos, combinamos os resultados de estudos que usaram escalas diferentes e calculamos a diferença média padronizada (SMD) e o intervalo de confiança (IC) de 95%. Usamos a estatística I² para avaliar a heterogeneidade. Nos casos de heterogeneidade estatística nas análises dos desfechos de subgrupos, avaliamos os seguintes parâmetros como possíveis fontes de heterogeneidade: idade dos participantes, intensidade da intervenção (número e frequência das sessões) e modalidade da terapia.

Resultados principais: 

Incluímos 10 estudos (165 participantes) que avaliaram o efeito das intervenções de musicoterapia no curto e médio prazo (uma semana a sete meses) em crianças com TEA. A musicoterapia foi superior à terapia 'placebo' ou aos cuidados habituais para os seguintes desfechos primários: interação social no contexto terapêutico (SMD 1,06, IC 95% 0,02 a 2,10, 1 ECR, n = 10); interação social generalizada fora do contexto terapêutico (SMD 0,71, IC 95% 0,18 a 1,25, 3 ECR, n = 57, evidência de qualidade moderada), competência comunicativa não verbal no contexto terapêutico (SMD 0,57, IC 95% 0,29 a 0,85, 3 ECR, n = 30), habilidades de comunicação verbal (SMD 0,33, IC 95% 0,16 a 0,49, 6 ECR, n = 139), comportamento iniciador (SMD 0,73, IC 95% 0,36 a 1,11, 3 ECR, n = 22, evidência de qualidade moderada), e reciprocidade sócio emocional (SMD 2,28, IC 95% 0,73 a 3,83, 1 ECR, n = 10, evidência de baixa qualidade). Não houve diferença estatisticamente significativa entre as intervenções sobre competências comunicativas não verbais fora do contexto terapêutico (SMD 0,48, IC 95% -0,02 a 0,98, 3 RCT, n = 57, evidência de baixa qualidade). A musicoterapia também foi superior à terapia 'placebo' ou cuidados habituais para os seguintes desfechos secundários: adaptação social (SMD 0,41, IC 95% 0,21 a 0,60, 4 ECR, n = 26), alegria (SMD 0,96, IC 95% 0,04 a 1,88, 1 ECR, n = 10), e qualidade das relações pais-filho (SMD 0,82, IC 95% 0,13 a 1,52, 2 ECR, n = 33, evidência de qualidade moderada). Nenhum dos estudos incluídos relatou quaisquer efeitos adversos. Devido ao pequeno tamanho amostral dos estudos, a força metodológica destes resultados é limitada.

Notas de tradução: 

Tradução do Centro Afiliado Rio de Janeiro / Faculdade de Medicina de Petrópolis, Cochrane Brazil (Clara Nogueira e Maria Regina Torloni). Contato: tradutores@centrocochranedobrasil.org.br

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