Anticoagulantes para acidente vascular cerebral isquêmico agudo

Todos os anos, milhões de pessoas em todo o mundo têm um derrame (acidente vascular cerebral ou AVC). A maioria dos AVC acontece quando um coágulo bloqueia um vaso sanguíneo que leva sangue para o cérebro. Sem um suprimento adequado de sangue, o cérebro rapidamente sofre uma lesão, que pode ser permanente. A lesão decorrente do AVC pode causar fraqueza nos braços e pernas, ou dificuldade para falar ou para enxergar. Em alguns casos o AVC pode levar à morte. Porém, mais frequentemente, o AVC torna o paciente incapaz de fazer as atividades que ele conseguia fazer antes. Devido à alta incidência dos AVCs e aos danos que eles causam, muitos pesquisadores estão tentando encontrar meios para dissolver rapidamente o coágulo de sangue que causa o derrame. Uma maneira para fazer isso é com anticoagulantes, que são remédios que afinam o sangue. Se o tratamento com anticoagulantes tiver êxito, isso poderia evitar os efeitos negativos do AVC. O principal problema dos anticoagulantes é que eles podem causar sangramentos, que as vezes podem ser muito graves. Fizemos esta revisão sistemática para descobrir se as pessoas tratadas com anticoagulantes logo após terem tido um AVC melhoraram ou não, e se elas desenvolvem sangramento. Esta revisão sistemática nos fornece muitas informações pois analisou os dados de 23.748 pessoas que tiveram AVC e que participaram de 24 ensaios clínicos randomizados (ECR). As pessoas tratadas com anticoagulantes não tiveram menos incapacidade a longo prazo, e tiveram mais hemorragias. Os pacientes tratados com anticoagulante tiveram menos risco de desenvolver coágulos sanguíneos nas pernas e nos pulmões após o AVC. Por outro lado, essas pessoas também tiveram mais sangramentos. Esta revisão não encontrou nenhuma evidência de que o uso precoce de anticoagulantes possa ser benéfico para pessoas com derrames causados por coágulos sanguíneos. Mais pesquisas são necessárias para descobrir se existe uma forma de selecionar pessoas com AVC que possam se beneficiar do uso de anticoagulantes sem sofrerem as complicações do sangramento.

Conclusão dos autores: 

Desde a última versão da revisão, não foram publicados novos estudos relevantes. Portanto, não há dados adicionais para alterar as conclusões. A terapia anticoagulante precoce não está associada a benefícios evidentes no curto ou longo prazo, em pessoas com AVC isquêmico agudo. O tratamento com anticoagulantes reduziu os riscos de recorrência de AVC, de trombose venosa profunda e de embolia pulmonar, mas aumentou o risco de hemorragia. Os achados não apoiam o uso rotineiro de nenhum dos anticoagulantes atualmente disponíveis para pacientes com AVC isquêmico agudo.

Leia o resumo na íntegra
Introdução: 

A maioria dos AVCs isquêmicos é causada por um coágulo de sangue que obstrui uma artéria cerebral. O uso de anticoagulantes para prevenir a formação de coágulos poderia melhorar os desfechos, se os riscos de sangramento forem baixos. Esta é uma atualização de uma revisão Cochrane publicada pela primeira vez em 1995, com atualizações em 2004 e 2008.

Objetivos: 

Avaliar a efetividade e segurança da anticoagulação precoce (nos primeiros 14 dias do evento) em pessoas com AVC isquêmico agudo presumido ou confirmado.

Métodos de busca: 

Fizemos buscas nas seguintes bases de dados: Cochrane Stroke Group Trials Register (junho de 2014),Cochrane Central Register of Controlled Trials (CENTRAL), Cochrane Database of Systematic Reviews (CDSR), Database of Reviews of Effects (DARE) e Health Technology Assessment Database (HTA) (The Cochrane Library 2014 Issue 6), MEDLINE (2008 a junho de 2014) e EMBASE (2008 a junho de 2014). Além disso, fizemos buscas em plataformas de registro de ensaios clínicos e nas listas de referências de artigos relevantes. Para as versões anteriores desta revisão, também fizemos buscas no registro da Antithrombotic Trialists' (ATT) Collaboration, consultamos MedStrategy (1995) e contatamos empresas farmacêuticas relevantes.

Critério de seleção: 

Incluímos ensaios clínicos randomizados (ECR) que compararam terapia anticoagulante precoce (iniciada dentro de duas semanas após o início do AVC) versus controle em pessoas com AVC isquêmico agudo presumido ou confirmado.

Coleta dos dados e análises: 

Dois autores da revisão, trabalhando de forma independente, selecionaram os estudos para inclusão, avaliaram sua qualidade metodológica, e extraíram os dados.

Principais resultados: 

Foram incluídos 24 ECRs envolvendo 23.748 participantes. Houve muita variação na qualidade dos estudos. Os anticoagulantes testados foram heparina padrão não fracionada, heparinas de baixo peso molecular, heparinoides, anticoagulantes orais e inibidores da trombina. Mais de 90% da evidência estão relacionadas aos efeitos da terapia anticoagulante iniciada nas primeiras 48 horas do AVC. Baseado nos achados de 11 estudos (22.776 participantes), não há evidência de que a terapia anticoagulante iniciada nos primeiros 14 dias pós AVC reduza os riscos de morte por todas as causas (odds ratio (OR) 1,05; intervalo de confiança de 95% (IC) 0,98 a 1,12) até o final do período de seguimento. Da mesma forma, baseado nos resultados de oito estudos (22.125 participantes), não há evidência de que a anticoagulação precoce reduza os riscos de morte ou de se tornar dependente até o final do período de seguimento dos estudos (OR 0,99; IC 95% 0,93 a 1,04). Embora a terapia anticoagulante precoce tenha sido associada a menos AVCs isquêmicos recorrentes (OR 0,76; IC 95% 0,65 a 0,88), também foi associada a um aumento de hemorragias intracranianas sintomáticas (OR 2,55; IC 95% 1,95 a 3,33). Da mesma forma, a anticoagulação precoce reduziu a frequência de êmbolos pulmonares sintomáticos (OR 0,60; IC 95% 0,44 a 0,81). Porém, essa intervenção também aumentou o risco de hemorragias extracranianas (OR 2,99; IC 95% 2,24 a 3,99).

Notas de tradução: 

Tradução do Cochrane Brazil (Maria Regina Torloni). Contato: tradutores@centrocochranedobrasil.org.br

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