Suplementação de vitamina D para gestantes

A vitamina D é produzida pelo corpo humano a partir da exposição à luz solar. Ela pode também ser obtida através do consumo de alimentos como óleo de fígado de peixe, peixes ricos em gordura (como o salmão), cogumelos, gemas de ovos e fígado. A vitamina D tem muitas funções no corpo, como por exemplo, manter os ossos fortes e o equilíbrio do cálcio no organismo.

Durante a gravidez, a gestante pode desenvolver deficiência ou insuficiência de vitamina D, ou seja, a quantidade de vitamina D em seu organismo pode não estar adequada. Alguns pesquisadores sugeriram que a ingestão de comprimidos de vitamina D (suplementação) durante a gravidez poderia ser segura e útil para melhorar a saúde das gestantes e dos bebês. Esta revisão incluiu 15 ensaios clínicos randomizados controlados, envolvendo 2.833 mulheres. Dos 15 estudos, 9 compararam os efeitos de dar apenas vitamina D para as gestantes contra não dar nada ou dar um placebo (uma substância sem efeito) e 6 estudos compararam os efeitos de dar vitamina D junto com cálcio contra não dar nada.

Os resultados mostram que as gestantes que receberam suplementos de vitamina D tiveram níveis mais altos de vitamina D no sangue (medidos pela concentração de 25-hidroxivitamina D) ao final da gestação. A suplementação com vitamina D pode reduzir o risco de parto prematuro (nascimento do bebê antes da 37a semana de gestação), e do bebê nascer com menos de 2500 g, e talvez reduza o risco das gestantes de terem pressão alta. No entanto, parece que, quando vitamina D e cálcio são combinados, o risco de parto prematuro aumenta. Os dados sobre os efeitos adversos para as mães não foram adequadamente avaliados nos estudos.

O significado clínico do aumento dos níveis de vitamina D no sangue das gestantes não é claro, ou seja, não se sabe quais os efeitos disso para a saúde. Esse resultado deve ser interpretado com cautela, pois foi baseado em um pequeno número de estudos de baixa qualidade e que tiveram poucas participantes.

Com base na evidência disponível atualmente, não está claro se todas gestantes deveriam receber suplementos de vitamina D de rotina durante o pré-natal para melhorar os resultados para mãe e bebê. Embora exista alguma indicação de que a suplementação de vitamina D talvez possa reduzir o risco de a gestante desenvolver pressão alta e possa aumentar um pouco o comprimento do corpo e a circunferência do crânio do bebê, outros estudos clínicos randomizados mais rigorosos são necessários para confirmar esses efeitos. Atualmente, existem poucos estudos de alta qualidade com grande número de participantes e que avaliaram esses resultados. Por isso, não é possível se chegar a conclusões definitivas sobre a utilidade e a segurança da suplementação da vitamina D na gravidez.

Conclusões dos autores: 

Novos estudos forneceram mais evidências sobre os efeitos da suplementação de vitamina D isolada ou junto com cálcio nos resultados da gravidez. Dar à gestante suplementos de vitamina D em dose única ou dose contínua aumenta os níveis séricos de 25-hidroxivitamina D no termo e pode reduzir o risco de pré-eclâmpsia, baixo peso ao nascer e parto prematuro. No entanto, quando a vitamina D e o cálcio são combinados, o risco de parto prematuro aumenta. O significado clínico do aumento da concentração sérica de vitamina D ainda não está claro. Em vista disso, os resultados precisam ser interpretados com cautela. Em todos os estudos, faltaram dados sobre os efeitos adversos.

Com base nas evidências atuais, ainda não está claro se a suplementação com vitamina D deve fazer parte da rotina de cuidados pré-natais para todas as mulheres, para melhorar os resultados maternos e perinatais. Embora haja alguns indícios de que a suplementação de vitamina D possa reduzir o risco de pré-eclâmpsia e aumentar o comprimento e a circunferência cefálica do recém-nascido, são necessários mais ensaios clínicos randomizados conduzidos com rigor metodológico para confirmar esses efeitos.

Leia o resumo na íntegra
Introdução: 

Acredita-se que a deficiência ou a insuficiência de vitamina D sejam comuns nas gestantes. Tem sido sugerido que a suplementação de vitamina D durante a gravidez poderia ser uma intervenção para prevenir desfechos gestacionais adversos.

Objetivos: 

Avaliar se a suplementação oral de vitamina D, isolada ou combinada com cálcio ou com outras vitaminas e minerais, dada para as mulheres durante a gravidez, pode melhorar os desfechos maternos e neonatais de forma segura.

Estratégia de busca: 

Pesquisamos a Cochrane Pregnancy and Childbirth Group's Trials Register (23 de fevereiro de 2015), a International Clinical Trials Registry Platform (31 de janeiro de 2015), a Networked Digital Library of Theses and Dissertations (28 de janeiro de 2015) e também entramos em contato com organizações relevantes (31 de janeiro de 2015).

Critérios de seleção: 

Incluímos na revisão apenas ensaios clínicos randomizados e quasi-randomizados, com randomização individual ou por cluster (conglomerado), que avaliaram os efeitos da suplementação com vitamina D isolada ou em conjunto com outros micronutrientes para as mulheres durante a gravidez.

Coleta dos dados e análises: 

Dois revisores, de forma independente, i) avaliaram a elegibilidade dos estudos; ii) extraíram os dados dos estudos incluídos; e, iii) avaliaram o risco de viés dos estudos incluídos. Os dados foram checados quanto à sua acurácia. A qualidade das evidências foi avaliada usando a metodologia GRADE.

Principais resultados: 

Nesta revisão atualizada, incluímos 15 ensaios clínicos que avaliaram um total de 2.833 mulheres. Excluímos 27 ensaios clínicos, e 23 outros estão em andamento ou não foram publicados ainda. Ao todo, 9 dos 15 estudos incluídos compararam os efeitos da suplementação com vitamina D isolada versus não suplementação ou uso de placebo e 6 estudos compararam os efeitos da suplementação combinada de vitamina D e cálcio versus a não suplementação. A maioria dos estudos teve risco de viés incerto e muitos estudos tinham alto risco de viés para cegamento e taxa de perdas (viés de atrito).

Vitamina D isolada versus nenhuma suplementação ou placebo

Os dados de 7 estudos envolvendo 868 mulheres mostraram, de forma consistente, que as mulheres que receberam suplementos isolados de vitamina D, em especial as que tomaram a vitamina D diariamente, tinham níveis de 25-hidroxivitamina D mais elevados do que aquelas que receberam placebo ou nenhuma intervenção, porém essa resposta foi altamente heterogênea. De acordo com 2 estudos envolvendo 219 mulheres, a taxa de pré-eclâmpsia foi um pouco menor no grupo suplementado com vitamina D do que nos grupos sem suplementos ou placebo (8,9% contra 15,5%; razão de risco, RR, 0,52; intervalo de confiança de 95%, 95% CI, de 0,25 a 1,05, evidência de baixa qualidade).Os dados de 2 estudos envolvendo 219 mulheres indicam que o risco de diabetes gestacional foi semelhante no grupo suplementado comparado ao grupo sem intervenção ou placebo (RR 0,43; 95% IC 0,05 a 3,45, evidência de qualidade muito baixa).Não foram detectadas diferenças claras na taxa de efeitos adversos; houve apenas um caso de síndrome nefrítica no grupo controle de um estudo (RR 0,17; 95% CI 0,01 a 4,06; um estudo, 135 mulheres, evidência de qualidade baixa).Devido à escassez de dados para esse desfecho, não é possível chegar a conclusões definitivas sobre esse aspecto. Nenhum outro efeito adverso foi reportado em nenhum dos outros estudos.

No que diz respeito aos resultados para a criança, os dados de 3 estudos envolvendo 477 mulheres sugerem que a suplementação de vitamina D durante a gravidez reduz o risco de parto prematuro em comparação com a não intervenção ou o placebo (8,9% versus 15,5%; RR 0,36; 95% CI 0,14 a 0,93, evidência de qualidade moderada).Os dados de 3 estudos envolvendo 493 gestantes também sugerem que o grupo suplementado com vitamina D teve menor probabilidade de ter bebês com peso ao nascer abaixo de 2.500 g do que os grupos que recebiam placebo ou nenhuma suplementação (RR 0,40; 95% CI 0,24 a 0,67, evidência de qualidade moderada).

Quanto aos outros desfechos, não houve diferenças claras nas taxas de cesáreas (RR 0,95; 95% CI 0,69 a 1,31; 2 estudos; 312 mulheres); morte fetal (RR 0,35 95% CI 0,06 a 1,99; 3 estudos, 540 mulheres); ou morte neonatal (RR 0,27; 95% CI 0,04 a 1,67; 2 estudos, 282 mulheres). Havia uma pequena indicação de que a suplementação de vitamina D aumenta o comprimento dos recém-nascidos (diferença média, DM, de 0,70 cm, 95% CI -0,02 a 1,43; 4 estudos, 638 bebês) e a circunferência cefálica ao nascimento (DM 0,43 cm, 95% CI 0,03 a 0,83; 4 estudos, 638 mulheres).

Vitamina D e cálcio versus nenhuma suplementação ou placebo

Mulheres que receberam vitamina D com cálcio tiveram menor risco de pré-eclâmpsia do que aquelas que não receberam qualquer intervenção (RR 0,51; 95% CI 0,32 a 0,80; 3 estudos; 1.114 mulheres, evidência de qualidade moderada),mas também tiveram aumento no risco de parto prematuro (RR 1,57; 95% CI 1,02 a 2,43, 3 estudos, 798 mulheres, evidência de qualidade moderada).A concentração sérica materna de vitamina D no termo, as taxas de diabetes gestacional, de efeitos adversos e de baixo peso ao nascer não foram relatadas em nenhum estudo ou foram reportadas por apenas um estudo.

Notas de tradução: 

Tradução do Centro Cochrane do Brasil (Fernando Takashi Kojima Marques)

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