Tratamento com células-tronco para pessoas com cardiopatia isquêmica crônica e insuficiência cardíaca congestiva

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As pessoas que sofrem de doenças cardíacas e insuficiência cardíaca são atualmente tratadas com remédios e, quando possível, passam por um procedimento de desobstrução das artérias do coração (revascularização). Esse procedimento pode ser feito usando um balãozinho, que é introduzido através de uma veia na perna e é empurrado até as artérias do coração (coronárias), e dilata esses vasos (angioplastia primária), ou por cirurgia cardíaca, que desvia o sangue para as artérias coronárias. A revascularização reduziu a mortalidade associada a essas condições. Em algumas pessoas, os sintomas de doença cardíaca e de insuficiência cardíaca persistem mesmo após a revascularização. Não existiam outros tratamentos para essas condições. Recentemente, pesquisadores no mundo todo começaram a testar a terapia com células-tronco/progenitoras provenientes de medula óssea como um possível novo tratamento para as pessoas com doenças cardíacas e insuficiência cardíaca, com e sem revascularização. Os resultados de 23 ensaios clínicos randomizados realizados até 2013 e que incluíram mais de 1.200 participantes, indicam que esse novo tratamento (comparado ao tratamento habitual) diminui o risco de morrer e de reinternação no hospital, além de melhorar a função do coração avaliada por testes específicos. Atualmente, esses resultados fornecem algumas evidências de que o tratamento com células-tronco pode ser benéfico para pessoas com cardiopatia isquêmica crônica e com insuficiência cardíaca. Os efeitos adversos são raros, e nenhum deles foi relatado no longo prazo. No entanto, a qualidade das evidências é relativamente baixa, porque houve poucas mortes e reinternações nos estudos, e os resultados de estudos individuais variaram. Mais pesquisas envolvendo um grande número de participantes sãonecessárias para confirmar esses resultados.

Conclusão dos autores: 

Esta revisão sistemática e metanálise encontraram evidências de qualidade moderada de que a terapia com células-tronco melhora a fração de ejeção do ventrículo esquerdo. Ao contrário dos estudos que usaram essa terapia após infarto agudo do miocárdio, existe evidência de que seu uso em pacientes com cardiopatia isquêmica crônica e insuficiência cardíaca pode ser benéfico em termos de mortalidade e desempenho cardíaco a longo prazo (após pelo menos um ano). Porém, a qualidade da evidência que apoia essa conclusão é baixa.

Leia o resumo na íntegra...
Introdução: 

O uso de células-tronco é uma abordagem promissora para o tratamento da cardiopatia isquêmica crônica e da insuficiência cardíaca. Ao longo dos últimos 10 anos, foram publicados muitos ensaios clínicos randomizados (ECR) sobre isso, porém seus resultados são conflitantes.

Objetivos: 

Avaliar a evidência clínica existente sobre a segurança e eficácia da terapia com células-tronco autólogas derivadas da medula óssea de adultos (inglês: BMSC) para o tratamento de pacientes com cardiopatia isquêmica crônica e insuficiência cardíaca.

Métodos de busca: 

As buscas foram realizadas em 31 de março de 2013 nas seguintes bases de dados: Cochrane Central Register of Controled Trials (CENTRAL) (The Cochrane Library, 2013, volume 3), MEDLINE (desde 1950), Embase (desde 1974), CINAHL (desde 1982) e na Transfusion Evidence Library (desde 1980). Na mesma data, também fizemos buscas nas plataformas de registros de ensaios clínicos em andamento.

Critério de seleção: 

Incluímos ECRs que compararam grupos de pacientes com cardiopatia isquêmica crônica e insuficiência cardíaca tratados com e sem terapia com células-tronco/progenitoras autólogas de adultos. Os estudos que usaram intervenções adicionais, tais como a angioplastia primária, cirurgia ou uso de agentes de mobilização de células-tronco, foram incluídos contanto que essas intervenções fossem dadas a ambos os grupos (controle e intervenção).

Coleta dos dados e análises: 

Dois revisores selecionaram de maneira independente todas as referências elegíveis, extraíram os dados e fizeram a avaliação da qualidade dos estudos. Usamos o modelo de efeito fixo para as metanálises. Avaliamos a heterogeneidade, usando a estatística I². Em caso de alta heterogeneidade (I² > 75%), fizemos metanálises usando o modelo de efeitos aleatórios e análises de subgrupo.

Principais resultados: 

Incluímos 23 ECRs envolvendo 1.255 participantes. No geral, o risco de viés foi baixo, já que a maioria dos estudos usou métodos adequados de randomização e cegamento. O tratamento com células-tronco de medula óssea autóloga reduziu a incidência de mortalidade [risco relativo (RR) 0,28, intervalo de confiança de 95% (IC) 0,14 a 0,53, P = 0,0001, 8 estudos, 494 participantes,evidência de baixa qualidade] e a incidência de reinternação devido a insuficiência cardíaca (RR 0,26, 95% IC 0,07 a 0,94, P = 0,04, 2 estudos, 198 participantes, evidência de baixa qualidade) a longo prazo ( ≥ 12 meses). No curto prazo, a intervenção não teve um efeito consistente sobre a mortalidade (RR 0,68, IC 95% 0,32 a 1,41, P = 0,30, 21 estudos, 1.138 participantes, evidência de baixa qualidade) ou reinternação devido a insuficiência cardíaca (RR 0,36, 95% IC 0,12 a1,06, P = 0,06, 4 estudos, 236 participantes, evidência de baixa qualidade) a curto prazo (< 12 meses). O tratamento também reduziu o volume sistólico final do ventrículo esquerdo [diferença média (MD) -14.64 ml, IC 95% -20.88 ml a-8.39 ml, P < 0,00001 3 estudos, 153 participantes, evidência de qualidade moderada] e reduziu o índice de volume sistólico (MD 6,52, IC 95% 1,51 a 11,54, P = 0,01, 2 estudos, 62 participantes, evidência de qualidade moderada). A intervenção também melhorou a fração de ejeção do ventrículo esquerdo (MD 2,62% 95% CI 0,50% a 4,73%, P = 0,02, 6 estudos, 254 participantes, evidência de qualidade moderada) e o acompanhamento a longo prazo. A terapia também promoveu uma redução na classe funcional (New York Heart Association – NYHA), dos pacientes tanto a curto prazo (MD -0,63, IC 95% -1,08 a -0,19, P = 0,005, 11 estudos, 486 participantes, evidência de qualidade moderada) como a longo prazo (MD -0,91, IC 95% -1,38 a - 0,44, P = 0,0002, 4 estudos, 196 participantes, evidência de qualidade moderada). O tratamento também promoveu uma redução significativa da classificação dos pacientes na escala da Canadian Cardiovascular Society (MD -0,81 IC 95% -1,55 a -0,07, P = 0,03, 8 estudos, 379 participantes, evidência de qualidade moderada). Apenas 4 pessoas no grupo da terapia com células-tronco tiveram eventos adversos, nos 19 estudos que relataram esse desfecho. Nenhum efeito adverso a longo prazo foi relatado. As análises de subgrupo realizadas para os desfechos tais como fração de ejeção ventricular esquerda e classe da NYHA revelaram que (i) a via de administração, (ii) nível de base da fração de ejeção ventricular esquerda, (iii) o tipo de célula (iii) e (iv) a condição clínica do paciente são fatores importantes que podem influenciar o efeito do tratamento.

Notas de tradução: 

Tradução do Centro Cochrane do Brasil (Arnaldo Alves da Silva). Contato: tradutores@centrocochranedobrasil.org.br