Estatinas para crianças com colesterol alto por problema hereditário

Pergunta da revisão

Revisamos as evidências sobre a eficácia e a segurança das estatinas para crianças que têm o colesterol alto devido a um problema hereditário.

Introdução

A hipercolesterolemia familiar é uma doença hereditária que leva a pessoa a ter um nível alto de colesterol no sangue. As pessoas com esse problema podem ter doença vascular (estreitamento dos vasos sanguíneos) em uma idade mais precoce que o habitual. Isso ocorre especialmente nos homens. Portanto, uma pessoa com essa doença precisa ser tratada por toda sua vida para controlar os níveis de colesterol e esse tratamento precisa começar na infância. A dieta tem sido a principal forma de tratamento usada para tratar crianças com hipercolesterolemia familiar. Medicamentos como a colestiramina e o colestipol também são efetivos para essas pessoas. Porém, devido ao gosto desagradável desses remédios, eles são não são bem tolerados e os pacientes acabam não seguindo o tratamento recomendado. A adoção da terapia com estatinas para crianças melhorou o tratamento. Esta é uma atualização de uma revisão publicada anteriormente.

Data da busca

A evidência está atualizada até: 20 de fevereiro de 2017

Características do estudo

A revisão incluiu 9 estudos com 1177 pessoas com idades entre 4 e 18 anos com hipercolesterolemia familiar heterozigota. Os estudos sortearam os participantes em dois grupos: um grupo recebeu diferentes tipos de tratamentos com estatinas e o outro grupo recebeu um placebo (substância inerte e sem nenhum efeito, com aparência idêntica ao remédio verdadeiro). A duração dos estudos variou de 12 até 104 semanas.

Resultados principais

Em geral, a duração da intervenção e do seguimento foram curtos (com média de 24 semanas; variando entre seis semanas a dois anos). Os participantes que receberam estatinas tiveram níveis médios de colesterol de baixa-densidade (LDL colesterol) mais baixos em todos os períodos em que isso foi medido (evidência de qualidade moderada). Os níveis sanguíneos das enzimas hepáticas (aspartato e alanina-aminotransferase) e musculares (creatinino quinase), não diferiram entre os grupos que receberam estatinas e placebo em todos os períodos em que essas substâncias foram medidas (evidência de baixa qualidade). Os riscos dos participantes terem miopatia (doença do tecido muscular) e efeitos adversos foram muito baixos e semelhantes nos dois grupos (evidência de baixa qualidade). Duas estatinas (a sinvastatina e a pravastatina), apresentaram efeito positivo em dois dos vasos sanguíneos principais tipicamente afetados pelo nível elevado do colesterol (evidência de baixa qualidade).

Qualidade da evidência

Nenhum dos estudos usou ´cegamento´(viés de desempenho e de detecção). Dois estudos deram informações claras sobre como os participantes foram alocados nos grupos (viés de seleção); mas os outros sete estudos não deram informações claras sobre isso. Há pouca informação sobre se os pesquisadores sabiam a qual dos grupos os participantes haviam sido alocados (viés de seleção). Também há pouca informação sobre relato seletivo dos resultados (viés de relato) mas é pouco provável que isso tenha ocorrido. Em conclusão, podemos dizer que todos os estudos parecem ter sido conduzidos de maneira adequada e não achamos que quaisquer dos fatores que acabamos de mencionar tenham influenciado os resultados de um modo negativo. A qualidade das evidências foi moderada para queda nos níveis sanguíneos do colesterol LDL e eventos adversos. A qualidade da evidência foi baixa para mudança na espessura da parede dos vasos sanguíneos (camada interna da artéria carótida), mudança em medidas de crescimento e desenvolvimento, disfunção hepática, miopatia e mudança na função das paredes dos vasos sanguíneos (endotélio).

Conclusões dos autores: 

O tratamento com estatinas é uma terapia hipolipemiante efetiva em crianças com hipercolesterolemia familiar. Não identificamos nenhuma questão significante de segurança. O tratamento com estatinas mostrou-se seguro no curto prazo, mas a segurança no longo prazo permanece desconhecida. As crianças tratadas com estatinas devem ser cuidadosamente monitoradas e seguidas pelos seus pediatras e serem transferidas para os cuidados de um lipologista de adultos a partir dos18 anos de idade. Para se estabelecer a segurança do uso das estatinas no longo prazo é necessário realizar grandes ensaios clínicos randomizados controlados.

Leia o resumo na íntegra...
Introdução: 

A hipercolesterolemia familiar é uma das doenças metabólicas hereditárias mais comuns. Como é uma doença autossômica dominante, os indivíduos heterozigotos têm manifestações clínicas. Os homozigotos desenvolvem formas mais graves da doença. Estima-se que a prevalência média mundial da hipercolesterolemia familiar heterozigota seja de pelo menos 1 em 500. Porém, dados epidemiológicos genéticos recentes da Dinamarca e dados de sequenciamento genético usando técnicas mais modernas sugerem que a frequência real da doença possa ser de 1 em 250. O diagnóstico da hipercolesterolemia familiar em crianças é baseado no achado de altos níveis de colesterol total e e de LDL colesterol ou em exames de DNA, ou ambos. Em pessoas com hipercolesterolemia familiar heterozigota, existem casos de aterosclerose coronariana em homens com apenas 17 anos e em mulheres com apenas 25 anos de idade. Como as complicações clínicas da aterosclerose acontecem cedo, especialmente nos homens, é necessário fazer um tratamento vitalício, que se inicia na infância, para reduzir o risco de doença cardiovascular. A dieta era a base do tratamento para as crianças com essa doença. Porém, a adição de medicamentos hipolipemiantes levou a uma melhora significativa do tratamento. As resinas de troca de ânions, como a colestiramina e o colestipol, são efetivas, mas elas são pouco toleradas. Desde a década de 1990, diversos estudos envolvendo crianças de 6 a 17 anos com hipercolesterolemia familiar heterozigota demonstraram reduções significantes nos seus níveis séricos de colesterol total e de LDL colesterol. As estatinas parecem ser seguras e bem toleradas em crianças. Porém, nessa faixa etária, a segurança desses medicamentos no longo prazo não está bem estabelecida. Esta é uma atualização de uma Revisão Cochrane publicada anteriormente.

Objetivos: 

Avaliar a efetividade e segurança das estatinas em crianças com hipercolesterolemia familiar heterozigota.

Estratégia de busca: 

Fizemos buscas por estudos relevantes no Inborn Errors and Metabolism Group Trials Register e no Medline.

Data da busca mais recente: 20 de fevereiro de 2017

Critérios de seleção: 

Incluímos ensaios clínicos randomizados e controlados que incluíram participantes com até 18 anos de idade, e que compararam uma estatina versus placebo ou versus apenas dieta.

Coleta dos dados e análises: 

Dois autores, trabalhando de forma independente, selecionaram os estudos para inclusão e fizeram a extração dos dados.

Principais resultados: 

Identificamos 26 estudos potencialmente elegíveis. Incluímos na revisão nove ensaios clínicos randomizados placebo-controlados (1177 participantes). Em geral, a duração da intervenção e do seguimento foram curtos (com média de 24 semanas; variando entre seis semanas a dois anos). Os participantes que receberam estatinas tiveram níveis médios de colesterol de baixa-densidade (LDL colesterol) mais baixos em todos os períodos em que isso foi medido (evidência de qualidade moderada). Não houve diferença entre os grupos (estatinas versus placebo) nos níveis séricos de aspartato e alanina-aminotransferases, e da creatinino quinase, em todos os períodos em que essas substâncias foram dosadas (evidência de baixa qualidade). Os riscos de miopatia (evidência de baixa qualidade) e de eventos adversos clínicos (evidência de qualidade moderada) foram muito baixos e similares nos dois grupos. Em um estudo, a sinvastatina melhorou a dilatação fluxo-mediada da artéria braquial (evidência de baixa qualidade). Em outro estudo, o tratamento com pravastatina por dois anos levou a uma diminuição significante da espessura média da íntima da carótida (evidência de baixa qualidade).

Notas de tradução: 

Tradução do Cochrane Brazil (Élide S.M. da Costa) – contato: tradutores@centrocochranedobrasil.org.br

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