Antissepsia da pele antes da cirurgia para evitar infecção da ferida operatória após cirurgia limpa

Antes de fazer a incisão cirúrgica, a pele no local onde vai ser feita o corte é geralmente limpa com soluções antissépticas. Essa limpeza da pele com um antisséptico visa reduzir os germes presentes na pele e, portanto, reduzir o risco de que a ferida cirúrgica torne-se infectada. Não se sabe se um tipo de antisséptico é melhor do que qualquer outro(s) na prevenção desse tipo de infecção, portanto nosso grupo avaliou as evidências a respeito da preparação da pele com antissépticos antes de cirurgias limpas (isto é cirurgias que não envolvem o sistema respiratório, intestinal, genital ou urinário ou qualquer parte do corpo com uma infecção existente) para ver se existem diferenças entre os diferentes tipos de antissépticos. Infelizmente, não existem muitas pesquisas de boa qualidade sobre a limpeza da pele antes da cirurgia, e não podemos dizer se um antisséptico é melhor que outro para prevenir infecções de feridas operatórias. Novos estudos são necessários para saber se algum antisséptico é melhor do que o outro na prevenção de infecção de ferida operatória após a cirurgia limpa.

Conclusões dos autores: 

Uma revisão abrangente das evidências atuais encontrou alguma evidência de que a preparação pré-operatória da pele com clorexidina a 0,5% em álcool metílico está associada a menores taxas de infecção cirúrgica após a cirurgia limpa do que a tintura de iodopovidona à base de álcool. No entanto, essa evidências se baseia em um único estudo que foi mal descrito. Portanto, ao selecionar diferentes opções antissépticas, os cirurgiões podem levar em consideração outras características, tais como custos e possíveis efeitos colaterais.

As perguntas de alta prioridade para tomadores de decisão deveriam nortear o desenho de novos estudos sobre esse tema. Talvez seja necessário investir na condução de pelo menos um ensaio clínico com um grande número de participantes para se obter dados definitivos que possam contribuir para conclusões definitivas à base atual de evidências. Idealmente, qualquer estudo futuro deveria avaliar as soluções contendo iodo e soluções contendo clorexidina, relevantes na prática atual, bem como o tipo de solução utilizada (alcoólica versus aquosa).

Leia o resumo na íntegra
Introdução: 

As taxas de infecção de sítio cirúrgico no mês seguinte a cirurgias limpas variam de 0,6% (prótese de joelho) a 5% (amputação de membros). Devido ao grande número de procedimentos cirúrgicos limpos realizados anualmente, os custos dessas infecções de sítio cirúrgico (ISC) podem ser consideráveis em termos financeiros e sociais. A antissepsia com antissépticos tópicos no pré-operatório é realizada para reduzir o risco de infecção do sítio cirúrgico por meio da remoção de sujeira e microorganismos transientes que se encontram sobre a pele onde será feita uma incisão cirúrgica. Acredita-se que os antissépticos sejam tóxicos para as bactérias, facilitando sua eliminação mecânica. Supõe-se que a efetividade da preparação da pele no pré-operatório seja dependente tanto do antisséptico utilizado quanto do método de aplicação. No entanto, não está claro se a antissepsia da pele no pré-operatório verdadeiramente reduz a infecção da ferida operatória e, em caso afirmativo, qual o antisséptico mais eficaz.

Objetivos: 

Avaliar se a antissepsia pré-operatória da pele, imediatamente antes da incisão cirúrgica em cirurgia limpa, evita a infecção do sítio cirúrgico e avaliar a efetividade comparativa de diferentes antissépticos.

Estratégia de busca: 

Para esta terceira atualização, nós pesquisamos nas seguintes bases: The Cochrane Wounds Grup Specialised Register (27 de janeiro de 2015); The Cochrane Central Register of Controlled Trials (CENTRAL) (The Cochrane Library 2014, Issue12).

Critérios de seleção: 

Selecionamos ensaios clínicos randomizados que avaliaram o uso de antissepsia cutânea no pré-operatório de cirurgias limpas realizada imediatamente antes da incisão. Não houve restrição de idiomas, data ou status da publicação.

Coleta dos dados e análises: 

A extração de dados e avaliação do risco de viés foram realizadas de forma independente por dois autores da revisão.

Principais resultados: 

Não foram adicionados novos estudos na revisão nesta terceira atualização

Treze estudos foram incluídos nesta revisão (2.623 participantes). Esses estudos avaliaram vários tipos diferentes de antissépticos resultando em 11 comparações diferentes. Embora os antissépticos diferissem entre os estudos, todos os trabalhos envolveram algum tipo de preparação com iodo. Um estudo comparou iodo alcoólico versus álcool; outro comparou tintura de iodopovidona (o tipo de solução não foi relatado) versus sabão e álcool. Seis estudos compararam diferentes tipos de preparações com iodo entre si e cinco estudos compararam produtos contendo iodo versus soluções de clorexidina.

Foi encontrada evidência em um estudo sugerindo que a preparação pré-operatória da pele com clorexidina álcoolica metilada a 0,5% levou à diminuição do risco de infecção do sítio cirúrgico em comparação com uma solução de iodopovidona à base de álcool: RR 0,47 (95% IC) 0,27 a 0,82. No entanto, é importante notar que esse estudo não relatou detalhes importantes a respeito das intervenções (como a concentração de tintura de iodopovidona utilizada) bem como sobre a sua condução, de modo que o risco de viés desse estudo foi incerto.

Não houve outras diferenças estatisticamente significativas nas taxas de infecção do sítio cirúrgico nas demais comparações de antissepsia da pele. Em geral, o risco de viés dos estudos incluídos foi incerto.

A metanálise de comparação indireta de diferentes intevenções concluiu que os produtos contendo álcool tiveram maior probabilidade de ser eficazes. Porém, mais uma vez, a qualidade dessa evidência foi baixa.

Notas de tradução: 

Tradução do Centro Cochrane do Brasil (Marcos Fernandes).

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