Intervenções para a prevenção da obesidade infantil

A obesidade infantil pode causar problemas sociais, psicológicos de saúde além de estar associada com obesidade e problemas de saúde na vida adulta. O surgimento da obesidade está relacionado com a atividade física e nutrição. Para prevenir a obesidade, 55 estudos internacionais avaliaram programas que tentaram modificar a alimentação ou a atividade física. Apesar de muitos estudos terem melhorado a alimentação ou a atividade física das crianças até certo ponto, apenas alguns estudos conseguiram mostrar algum efeito destes programas sobre os níveis de adiposidade dessas crianças. Quando os resultados dos estudos foram combinados, pudemos ver que estes programas fizeram uma diferença positiva, mas também observamos a existência de uma grande variação entre os achados dos estudos e não foi possível esclarecer a causa para essa variação. Os resultados também podem terem sido enviesados pela falta de pequenos estudos com resultados negativos. Tentamos descobrir porque alguns programas funcionam melhor do que outros, e se haveria algum perigo para as crianças que participaram dos programas. Apesar de poucos estudos terem avaliado os possíveis riscos dos programas, os resultados sugerem que as estratégias para prevenção da obesidade infantil não aumentam problemas de imagem corporal, não aumentam a probabilidade de comportamentos alimentares não saudáveis, nem aumentam a taxa de crianças desnutridas ou de atitudes não saudáveis relacionadas ao próprio peso. É importante realizar mais estudos em crianças bem jovens e em adolescentes para se descobrir mais sobre a prevenção da obesidade nestes grupos etários. Também é importante verificar por quanto tempo os efeitos destas intervenções duram. Precisamos desenvolver meios para garantir que os resultados das pesquisas venham a beneficiar todas as crianças através da incorporação das atividades efetivas nas práticas diárias nos lares, nas escolas, nas creches, no sistema de saúde e em toda a comunidade.

Conclusões dos autores: 

Encontramos fortes evidências indicando efeitos benéficos dos programas de prevenção de obesidade infantil sobre o IMC, especialmente nos programas dirigidos a crianças de 6-12 anos de idade. Entretanto estes achados devem ser interpretados com cautela devido à heterogeneidade inexplicável e a probabilidade de existir um viés decorrente de estudos com pequena casuística. Os estudos incluídos nesta revisão tinham programas com uma grande variedade de componentes. Apesar de não conseguirmos identificar quais dos componentes abaixo mais contribuíram para os efeitos benéficos observados, nossa síntese indica que as seguintes políticas e estratégias parecem ser promissoras:

·         um currículo escolar que inclua alimentação saudável, atividade física e imagem corporal

·         mais sessões de atividade física e de desenvolvimento de habilidades motoras fundamentais ao longo da semana escolar

·         melhora na qualidade nutricional dos alimentos fornecidos nas escolas

·         ambientes e práticas culturais que incentivem as crianças a comerem alimentos mais saudáveis e a serem fisicamente ativas ao longo de cada dia

·         apoio para os professores e outros funcionários para a implementação de estratégias e atividades de promoção de saúde (por ex. atividades de desenvolvimento e capacitação profissional)

·         apoio dos pais e atividades em casa que encorajem a criança a ser fisicamente ativa, a comer alimentos mais nutritivos e a gastar menos tempo com atividades em frente das telas da televisão, do computador e de jogos eletrônicos.

Porém, ainda é necessário melhorar o desenho dos estudos e das análises. Os estudos também precisam avaliar fatores relacionados a processos e a implementação, incluir desfechos relacionados com medidas de equidade e desfechos à longo prazo, assim como possíveis efeitos adversos e custos das intervenções.

As pesquisas sobre a prevenção da obesidade infantil precisam progredir no sentido de identificar como os componentes efetivos da intervenção podem ser incorporados dentro dos sistemas de saúde, de educação e de cuidados e como podem alcançar impactos sustentáveis a longo prazo.

Leia o resumo na íntegra
Introdução: 

A prevenção da obesidade infantil é uma prioridade internacional de saúde pública devido ao seu impacto significante sobre doenças agudas e crônicas, sobre a saúde geral, sobre o desenvolvimento e o bem-estar. Tem havido um aumento na base de evidências internacionais sobre estratégias que podem ser usadas por governos, comunidades e famílias para prevenir a obesidade e promover a saúde infantil. Porém ainda existem incertezas nessa área.

Objetivos: 

Esta revisão atualizou a revisão Cochrane anterior sobre prevenção da obesidade infantil e avaliou a efetividade de intervenções para prevenir a obesidade infantil medida através de mudanças no Índice de Massa Corporal (IMC). Como objetivos secundários, foram avaliadas as características dos programas e das estratégias para responder as perguntas “O que funciona para quem, porque e com qual custo?”

Estratégia de busca: 

As buscas foram refeitas nas bases CENTRAL, MEDLINE, EMBASE, PsychINFO e CINAHL em Março de 2010 e também buscamos websites relevantes. Incluímos artigos escritos em outros idiomas além do inglês e entramos em contatos com especialistas da área.

Critérios de seleção: 

Esta revisão incluiu estudos de prevenção da obesidade infantil que utilizaram um desenho controlado (com ou sem randomização). Os estudos foram incluídos quando avaliaram as intervenções, políticas ou programas por pelo menos 12 semanas. Se os estudos fossem randomizados por aglomerados (clusters), pelo menos 6 clusters eram necessários.

Coleta dos dados e análises: 

Dois revisores extraíram os dados e analisaram de forma independente o risco de viés dos estudos incluídos. Foram extraídos dados sobre a implementação da intervenção, seus custos, equidade e desfechos. Os desfechos foram agrupados quanto à mensuração de medidas de adiposidade, atividade física (PA) ou dieta. Os desfechos adversos também foram coletados. Foi feita uma metanálise utilizando o IMC disponível ou valores do IMC padronizado (zIMC), com análise de subgrupos por faixa etária entre 0-5, 6-12, 13-18 anos de idade, correspondendo aos estágios do desenvolvimento infantil.

Principais resultados: 

Esta revisão incluiu um total de 55 estudos (sendo que 36 desses estudos vieram desta atualização). A maioria dos estudos incluiu crianças entre 6 a 12 anos. A metanálise incluiu 37 estudos com 27.946 crianças e demonstrou que os programas eram efetivos para reduzir a adiposidade. Porém, nem todas as intervenções foram efetivas e a heterogeneidade foi alta (I2 = 82%). Em geral, as crianças do grupo intervenção tiveram uma diferença média padronizada da adiposidade (medida como IMC ou zIMC) de -0.15kg/m2 (intervalo de confiança de 95% (IC): -0.21 a -0.09). Os efeitos da intervenção por subgrupos de idade foram: -0.26kg/m2 (IC 95%: -0.53 a 0.00) para crianças de 0-5 anos, -0.15kg/m2 (IC 95% -0.23 a -0.08) para crianças de 6-12 anos e -0.09kg/m2 (IC 95% -0.20 a 0.03) para crianças de 13-18 anos. A heterogeneidade foi evidente nas três faixas etárias e não foi justificada pela presença ou ausência de randomização ou pelo tipo, duração ou local da intervenção. Apenas 8 estudos relataram efeitos adversos. As intervenções não produziram desfechos adversos como práticas alimentares não saudáveis ou aumento na prevalência de crianças desnutridas ou com problemas de imagem corporal. As intervenções não parecem ter aumentado desigualdades de saúde; porém este desfecho foi avaliado em poucos estudos.

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