Medicamentos de venda livre (VL) para tosse aguda em crianças e adultos atendidos ambulatorialmente

Questão da revisão

Nós realizamos uma revisão para determinar a efetividade dos medicamentos para a tosse, de venda livre, na redução da tosse em crianças e adultos atendidos ambulatorialmente. Foram identificados 29 ensaios clínicos, envolvendo 4.835 pessoas.

Introdução

A tosse aguda é um sintoma comum e incômodo, que ocorre em pessoas que sofrem de infecção do trato respiratório superior (ITRS). Muitas pessoas auto-prescrevem preparações de venda livre (VL) contra a tosse e profissionais de saúde frequentemente recomendam o seu uso para o tratamento inicial da tosse. Há uma substancial variação entre países quanto à disponibilidade e a existência de diretrizes para a utilização de muitas destas preparações.

Caraterísticas dos estudos

Foi identificada uma ampla gama de estudos de diferentes tipos de preparações, utilizadas em diferentes dosagens, em ambos adultos e crianças.

Resultados principais

As evidências estão atualizadas até Março de 2014. Não foram encontradas boas evidências a favor ou contra a efetividade dos medicamentos de VL na tosse aguda. Dezenove estudos relataram efeitos adversos destes medicamentos e descreveram efeitos colaterais infrequentes, principalmente menores, tais como náuseas, vômitos, dor de cabeça e sonolência.

Qualidade das evidências

Os resultados desta revisão devem ser interpretados com cautela, porque o número de estudos em cada categoria de preparações para tosse foi pequeno. Muitos estudos foram mal relatados, tornado difícil a avaliação do risco de viés. Embora todos os estudos fossem ensaios clínicos randomizados controlados por placebo, apenas a minoria deles relataram seus métodos de alocação e randomização, e houve uma falha no relato sobre o cegamento dos avaliadores dos desfechos e se as medidas de desfechos relacionados à tosse foram validadas Além disso, estudos patrocinados por empresas farmacêuticas e outros fornecedores foram mais propensos a ter resultados positivos. Houve muita diferença entre os estudos com relação ao tipo e duração do tratamento, e quanto aos desfechos medidos, tornando difícil a avaliação global da efetividade das medicações contra a tosse de VL.

Conclusões dos autores: 

Os resultados desta revisão devem ser interpretados com cautela, porque o número de estudos em cada categoria de preparações para tosse foi pequeno. Disponibilidade, dose e tempo de uso de medicamentos de venda livre para a tosse variam significativamente em diferentes países. Muitos estudos foram mal relatados, tornando difícil a avaliação do risco de viés e os estudos eram, também, muito diferentes um do outro, tornando a avaliação da eficácia geral difícil. Não há boas evidências a favor ou contra a efetividade dos medicamentos de VL na tosse aguda. Isso deve ser levado em conta quando se considera a prescrição anti-histamínicos e antitussígenos de ação central em crianças; medicamentos que são conhecidos por terem o potencial de causar danos graves.

Leia o resumo na íntegra
Introdução: 

A tosse aguda devida à infecção do trato respiratório superior (ITRS) é um sintoma comum. Medicamentos de venda livre (VL), sem prescrição, são frequentemente recomendados como o tratamento de primeira linha, porém, há poucas evidências se estas drogas são efetivas.

Objetivos: 

Avaliar os efeitos de preparações orais de VL para a tosse aguda em crianças e adultos atendidos ambulatorialmente.

Estratégia de busca: 

Nós pesquisamos na CENTRAL (2014, fascículo 1), MEDLINE (Janeiro de 1966 a Março de 2014, semana 3), EMBASE (Janeiro de 1974 a Março de 2014), CINAHL (Janeiro de 2010 a Março de 2014), LILACS (Janeiro de 2010 a Março de 2014), Web of Science (Janeiro de 2010 a Março de 2014) e UK Department of Health National Research Register (Março de 2010).

Critérios de seleção: 

Ensaios clínicos controlados randomizados (ECRs) comparando preparações orais de VL contra a tosse versus placebo, em crianças e adultos com tosse aguda atendidos ambulatorialmente. Foram considerados todos os desfechos relacionados à tosse; os efeitos adversos foram considerados como desfechos de interesse secundário.

Coleta dos dados e análises: 

Dois autores da revisão selecionaram as citações potencialmente relevantes, extraíram os dados e avaliaram a qualidade dos estudos independentemente. Foram realizadas análises quantitativas quando apropriado.

Principais resultados: 

Devido ao pequeno número de ensaios clínicos em cada categoria, à quantidade de dados quantitativos disponíveis limitada e às diferenças marcantes entre os ensaios clínicos em termo de participantes, intervenções e medidas de desfechos, nós acreditamos que o agrupamento dos resultados seria inapropriado.

Vinte e nove ensaios clínicos (19 em adultos e 10 em crianças) envolvendo 4.835 pessoas (3.799 adultos e 1.036 crianças) foram incluídos. Todos os estudos eram ECR controlados por placebo. Entretanto, a avaliação do risco de viés dos estudos incluídos foi limitada pela falta de informações, particularmente nos estudos mais antigos.

Nos estudos com adultos, seis ensaios clínicos compararam antitussígenos com placebo e obtiveram resultados variáveis. Três ensaios clínicos compararam o expectorante guaifenesina com placebo, sendo que um indicou benefício significante enquanto que os outros dois não. Um ensaio clínico constatou que um mucolítico reduziu a frequência e a intensidade dos sintomas. Dois estudos examinaram combinações de anti-histamínicos com descongestionantes e encontraram resultados conflitantes. Quatro estudos compararam outras combinações de medicamentos com placebo e indicaram algum benefício na redução dos sintomas da tosse. Três ensaios clínicos constataram que os anti-histamínicos não foram mais efetivos que o placebo no alívio dos sintomas da tosse.

Nos estudos com crianças, antitussígenos (dados de três estudos), anti-histamínicos (dados de três estudos), anti-histamínicos com descongestionantes (dois estudos) e combinação de antitussígeno com broncodilatador (um estudo) não foram mais efetivos que o placebo. Nenhum estudo utilizando expectorantes preencheu os critérios de inclusão. Os resultados de um ensaio clinico favoreceram o tratamento ativo com mucolíticos sobre o placebo. Um ensaio clínico testou dois xaropes pediátricos contra a tosse e ambas as preparações mostraram “resposta satisfatória” em 46% e 56% das crianças, em comparação com 21% das crianças no grupo placebo. Um novo ensaio clínico indicou que três tipos de mel foram mais efetivos que placebo no período de três dias.

Vinte e um estudos relataram efeitos adversos. Houve uma ampla variedade entre os estudos, com maior número de efeitos adversos em participantes que tomaram as preparações contendo anti-histamínicos e dextrometorfano.

Notas de tradução: 

Traduzido por: Ricardo Augusto Monteiro de Barros Almeida, Unidade de Medicina Baseada em Evidências da Unesp, Brasil Contato: portuguese.ebm.unit@gmail.com

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